Texto de catálogo da minha primeira exposição individual organizada em 1969 pela entusiástica “Galeria de Arte Gávea”, de Angra do Heroísmo, Açores, propriedade do singular artista e raro promotor de Cultura que foi o pintor Rogério Silva.
Outro amigo, Carlos Faria, poeta e caixeiro-viajante da cultura foi o seu autor, não se inibindo, numa altura difícil em que o país vivia uma dolorosa guerra de assumir o título e a temática que se seguem:
Costa Brites ou, o pintor e a paz
Aqui estamos frente a frente com a obra de um jovem. Estes desenhos de temática “dura” provocam-nos, pelo impacto, um mal estar e alertam-nos para uma realidade implacável: um quotidiano agressivo, bélico, de filosofia e acção violentas: este mundo de sangue cor-de-rosa... Este nosso mundo!
Embora façam supor à primeira vista, os desenhos de Costa Brites não são de filiação surrealista, embora o fantástico, o absurdo, o humor-terrível, o ridículo e a sua própria concepção plástica, neles dêem as mãos. Costa Brites não é um surrealista: é demasiado cerebral para humorizar, friamente, o drama, como comédia sanguínea... Demasiado disciplinado para levar a comédia ao ponto de espectáculo visual, dramático.
Costa Brites é antes de tudo um denunciante da agressão, particular ou oficializada... Plasticamente pode parecer um surrealista. Mas o que ele é, sobretudo, cabe aqui afirmar sem demora, nesta exposição: Um poderoso sabotador da violência, um indignado (activo!) com este mundo des-civil e conformado com a mentalidade guerreira. Costa Brites denuncia o. amor-sem-amor que é falar de paz com gritos de guerra.
“Des-epicar” a guerra, destronar os guerreiros, desarmar os homens das contendas bélicas e tornar o homem cidadão e civil, eis os propósitos morais da intenção plástica de Costa Brites. E este mundo plástico é Huxleyano. Há nele a consciência da libertação, a asa humana em luta contra o automatismo (automatizante) da máquina e duma técnica comandada de produção em série e de coisificar o homem noutro tipo de série: a de uma mecanização alienatória subordinada ao poder. O medo da técnica é outro tipo de alienação, claro. Não é porém o caso de Costa Brites: a sua posição é perfeitamente consciente e técnica, e o seu mundo é o Universo identificado com o progresso! Progresso ao lado do Homem, frente a frente à Inteligência, ao Direito e à Paz!
Esta é a primeira exposição, embora nas Ilha Terceira e Faial, a «Galeria Gávea» tenha apresentado, numa colectiva, um desenho vigoroso e de temática implacável: «o Palhaço e a mulher actuante», que marcaram com força a atenção do público, para Costa Brites.
No fundo estes desenhos revelam um lirismo próprio. (A indignação é um lirismo válido e actuante nesta exposição!) Há elementos simbólicos usados mostrando que a beleza é o único caminho da Justiça e vice-versa: — A Justiça é a maior beleza do homem e a Paz o seu amor mais valioso!
Açores, Oceano Pânico – 1969
Karios Faria |