Texto de Catálogo de uma exposição individual em Lisboa em Março de 1986 , promovida pelo Sector Cultural do Grupo Desportivo do Banco de Portugal, por altura dum encontro realizado pelo Comité dos Sindicatos dos Bancos Centrais, de autoria de Paulino Mota Tavares
DA PINTURA
CHAMEMOS AO PINTOR, AQUELE QUE VÊ POR EXCELÊNCIA!
Ele estará sempre viajando pelo interior das coisas; e o traço rigoroso que lhe pertence e a ondulação que lhe habita o texto cromático reenviam-nos, em cada momento, para atitudes e universos de crítica, para áreas e conteúdos exemplarmente questionáveis.
UM QUADRO TRANSMUTA-GE, EM SEGUNDOS,
numa larga e multímoda leitura. Ver tornar-se em acto lúdico de salutar interrogação. Uma estética que, por dentro de nós, sofre a lenta metamorfose da alegria ou do protesto, do grito ou da raiva, da notícia de tudo quanto apressadamente recolhemos,
AO ENTARDECER, POR ENTRE AS RUAS E A CIRCUNSTÂNCIA.
DO PINTOR
A pintura é tratada como universo políédrico, facetado, construído na arquitectura dos símbolos, a exprimir angústia, pesadelo, denúncia, medo, limitação imposta pela força e tão adivinhada na rigidez circundante da linha.
Costa Brites interioriza um dado tempo e opta por esquema figurativo que atinja,
COM RIGOR,
a conflitualidade e o desencontro. Dir-se-ia que vive e sacraliza as nossas próprias angústias para, lançando mão oficinal sobre o traço e a cor, ultrapassar os limites e alcançar o campo aberto da esperança. Frequenta o esquema simbólico de José de Guimarães, o mistério e a alegria de Francisco Relógio, a linha, a superfície, as cores de Léger, a figuração meca-nícista de Paolozzi. O seu trabalho rigoroso, matemático e recortado, a sua cor violenta ou pacífica, os temas e objectivos que revela, esses fazem parte do quotidiano meditado e contrastante.
DO LUGAR
Depois,
Costa Brites fixa um espaço, adoça a escrita mecânica; ou melhor, sublima essa disciplina antiga e vem até nós com a descoberta álacre da cidade. Nasce e renasce uma arquitectura, revisítando caminhos também trilhados pêlos modernistas portugueses, o pitoresco encantatório de Francis Smiíh, o optimismo ilustrativo de Emmérico Nunes, a reconstrução espacial de Carlos Botelho. Vemos a Portagem, a Praça Velha, a Rua Ferreira Borges, a Alta e Santa Clara.
ALI, O BRILHO
dos espaços amáveis onde se aprende igualmente a viver, a comunicar, a praticar a cidadania,
a inventariar encontros e solidões.
Paulino Mota Tavares, 1986
|