Costa Brites  
 
               

início pintura azulejos critica de artes critica de teatro blogs escritas contacto
 
 
< voltar

Texto de catálogo da exposição de lançamento dum álbum de estampas litográficas que teve lugar em Coimbra na Livraria Bertrand, em Maio de 1991, da autoria de Vasco Pereira da Costa

 

EM NOME DA “CASA”

e, se pretendo fundamento para este título, a propósito de umas notas sobre a pintura de Costa Brites, imponho-me o recurso a um vocábulo grego - OIKOS - que significa, na origem matricial, isto mesmo: CASA, e que entra na formação de palavras das nossas e tantas preocupações quotidianas e finisseculares - ECOLOGIA, ECUMENISMO.

Daí que me apareça esta invocação para sustentar uma recepção de comprazimento, posto que o pintor se revela ecológico (nos cuidados pela preservação) e ecuménico (na beleza que institui).

Assim sendo, a pintura de Costa Brites, figurando uma Coimbra (uma certa cidade que é reconhecida pelos elementos seleccionados), ultra­passa o enclausuramento de um espaço e a finitude de um tempo, ao insti­tuir uma utopia a que os homens aspiram - sem constrangimentos cronoló­gicos nem embaraços geográficos.

As minúcias das linhas, as cores sóbrias, as formas harmoniosas fixam um geometrismo (aparentemente equilibrado) e determinam um traço (ilusoriamente esquadriado). Mas apenas a observação aligeirada e a consulta apressada poderão assentar conclusões de fotografismos pleonásticos. Em verdade, pelo menos na minha verdade, o que os quadros de Costa Brites propõem é que esta cidade, ou melhor, que as cidades possam vir a ser dimanações de uma arte: por exemplo, desta arte-de-amar as casas. E isto porque, apesar da afeição pelo que se vê, o pintor alvitra o que poderá ser visto. Assim, o artista, por mor de um enamoramento são-simoniano, arquitecta a Cidade Ideal, eivada de equilíbrios dis­sonantes, repassada por melodias encantatórias.

Sublimada, então, outra verdade se nos depara, porventura mais ver­dadeira, porque enraizada nos impulsos perscrutadores da arte sem tempo: AS NOSSAS CASAS podem muito bem ser AQUELAS CASAS.

Daí, pois, que Costa Brites, sendo embora um pintor de Coimbra, possa ser lido como um artista ECOLÓGICO, comprometido medularmente com a beleza que exige a cidadania íntegra e integral, dado que capta e reformula as leituras das pedras, as organizações das linhas, as ocupa­ções das sombras, as plenitudes dos céus, os matizes dos sóis, os vestí­gios de todas as Histórias que sinalizaram a cidade.

Todavia, Costa Brites aposta em soluções diversificadas, ora diva­gando pela policromia álacre ora conferindo ao branco e a tonalidades esmaecidas a primazia da significação; ora emoldurando vastos panoramas de espaços alargados ora seleccionando o pormenor de uma esquina de con­vívio entre o passado e o presente, entre o Homem e a Casa.

Poderá ser o sortilégio da pintura de Costa Brites: o de propiciar uma intromissão na relação dialógica dos tempos e dos espaços. E esta discussão é, obviamente, universal e pancrónica. O pintor que a estimula também o deverá ser - em nome e em louvor da “CASA”.

 

Coimbra, Maio 1991

 

Vasco Pereira da Costa

< voltar