Texto de catálogo para uma exposição que teve lugar no Cine Teatro Municipal da Amadora em Março de 1999, de autoria de Rocha de Sousa
A Diagonal Ascendente
O desenho e a pintura de Costa Brites coloca-nos perante a estranheza de um mundo de papel, a duas dimensões, que parece por vezes inclinar-se ou ondular sob o impulso de leves brisas, eventualmente com o peso de ventos fortes. Os objectos e as paisagens, ou os objectos nas paisagens, acusam sempre, mesmo na perspectiva da construção, uma dinâmica desse tipo, inclinando-se ou desenvolvendo -se para a direita, na referência da diagonal ascendente do campo. Os horizontes são rasos, rebatidos ao sabor duma geometria elementar, e o próprio céu, ainda que distinto da última linha da terra, erguem-se do mesmo modo, a prumo, colado à sequência angular e parietal do mundo. Trata-se de um mundo, afinal, despovoado, cenográfico, artificial; dobra-se e desdobra-se em representação linear, não parece pertencer à tridimensionalidade orgânica capaz de nos oferecer retratos de personagens (dispersamente), quer nos remeta para o ferro e para o cimento de fábricas inúteis, de cidades intrincadas, feitas de esquinas cujas projecções verticais se confundem com as horizontais, porventura nem uma coisa nem outra, apenas memória humana e precária de certa visibilidade do além, do outro lado da galáxia, numa atmosfera rara, insípida e incolor, atravessada da esquerda para a direita por tempestades silenciosas ou produzidas no gume de recortes de papel. Surreal, cada objecto de plástico e suas representações angulares, recorrentes do sonho e do enigma, impele-nos para um espaço de impossíveis derivas em profundidade, cercam-nos no limite, intemporalmente.
A obra de Costa Brites ganhou uma singularidade imprevista no domínio das artes plásticas em Portugal. Descrente das vanguardas comandadas, ou das sequelas de academismos tardios, inventa-se pela redução do espaço euclidiano, que aspirava à genuinidade das três dimensões representadas no plano e apontava assim para a descoberta de uma outra, o tempo, deduzível da ordem ardilosa (modulada e modelada) na superfície do papel. As representações de casas, pontes, fábricas gigantes, em ferro, passam pela condição visual desse papel, nunca pela teia labiríntica do cimento urbano, evocado por vezes. As janelas em fachadas hirtas, de cartão, abrem-se para interiores, da cor e na continuação do céu. As hastes em lâminas de bico – quase tudo nesta dimensão – inclinam-se genericamente para a direita, e as torres de ferro, e o ferro dos planos dobrados, tudo o que uma geometria secreta finge partilhar de espaços a três dimensões, emerge do plano e a ele volta, inexoravelmente. Cada desenho o diz com frequência inusitada, numa linha conceptual defensável.
É importante em todo o caso, referir que a obra de Costa Brites apresenta sectores próximos do imaginário decorrente do imaginário da infância, abarcando transitoriamente o fluxo angular e laminar das construções de cartão, cenografias de janelas nuas e abertas, máquinas ou restos de máquinas arquitectadas no plano, formas do sonho e da deriva, espaço irreal feito de silêncios e complexidades várias – Marte de Bradbury sob ventos oblíquos e ascendentes, crónica redutora mas fascinante sobre uma civilização perto da nossa e perdida entre distâncias impossíveis.
Precioso na técnica com grafite, nas tintas planas ou modeladas num vazio que se deseja pelo nosso destino, Costa Brites desenrola perante o olhar fruidor composições de uma poética em continuidade de valores, vivida através de sucessivos paradoxos, entre coisas diferentes na semelhança, entre semelhanças enganadoras, espaço ambíguo que se faz e desfaz como os barcos e os pássaros de papel, complexos nos riscos e nas dobragens, singelos e misteriosos na forma que os faz parecer contáveis com as nossas referências, assimiláveis na caixa craniana onde dizem acontecer tudo, até a formula do universo. Mas as contas não se fazem assim, mesmo na resolução inimaginável dos computadores – infinito de todas as finitudes, com a eterna diagonal que Costa Brites promove como regra essencial do seu discurso, sensação também, demora, lonjura, parte do maravilhoso sem nomes. Fica-nos, depois dos olhares irresolúveis, uma angústia para decifrar, uma nostalgia para transformar em esperança – ave de papel impelida suavemente na inclinação de todas as coisas.
Rocha de Sousa
1999
(Nota do autor: este texto, embora sensível à obra global de Costa Brites, refere-se mais estritamente ao conjunto de trabalhos que foram apresentados na sua última exposição na galeria Minerva, em Coimbra)
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