Texto de Catálogo duma exposição individual na Universidade de Aveiro, promovida pela Fundação João Jacinto de Magalhães daquela Universidade, em Abril de 2001, de autoria de Machado Lopes
Costa Brites – mãos que fazem algo de útil, que mergulham nas profundezas do ser e, dali, extraem uma fonte de alerta e de receio. Quando alguém representou um anjo com asas, talvez se tivesse equivocado: é com as mãos que se sobe ao céu!…
Obra digna de respeito, porque de natureza eminentemente criadora. Pode ser dura, mas nunca absurda, pois afasta as enormes montanhas que dissimulam a luz para além delas.
Uma filosofia cósmica, uma paixão pelo mundo em movimento, um interrogar permanente sobre o porquê dos acontecimentos, um certo sentir de exílio e um rumo de pequenas/grandes verdades fazem de si aquele Homem unificado que vai ao extremo da sua procura.
Em Costa Brites descobrimos o olhar sempre remoçado para as coisas, que projectam longe no entendimento do passado e muito mais longe no discernir dos futuros.
Artista contemporâneo do porvir, admira as convicções fundidas na alta temperatura do espírito mensageiro e aborrecem-no as toadas rebatidas da cultura dos anacronismos.
O seu “surrealismo” não radica em devaneios oníricos ou na infraconsciência. Entra no fantástico que não convida à evasão mas, antes, a uma autêntica adesão/invasão.
Genuíno acto de criação, mesmo que com fugas para o irreal – nenhuma faculdade do espírito se afunda no ser e nele penetra mais do que a imaginação: é ela a grande mergulhadora.
Costa Brites inventa uma natureza ao contrário de a imitar, apegado ao chão e agarrado ao homem, pretendendo compreender e dar a compreender.
Melhor compreender é melhor aderir pois que, tudo o que se compreende estará senão certo, pelo menos, justificado.
Diria, com Nietzsche: …Man geht zugrunde, /Wenn man immer zu Gründen geht... (…Vai-se ao fundo, /quando se quer chegar ao fundo …)
Abril de 2001
José Machado Lopes
(Arqueólogo)
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