Texto de Catálogo duma exposição individual na Universidade de Aveiro , promovida pela Fundação João Jacinto de Magalhães daquela Universidade, em Abril de 2001 , de autoria de Telo de Morais
O mesmo texto figura no catálogo da exposição de abertura do Museu da Cidade, no edifício Chiado, em Coimbra , promovida em Julho de 2001 por aquela instituição e por iniciativa do seu fundador, o coleccionador e homem de cultura que é Telo de Morais
A condenação à liberdade em Costa Brites, ou
O solilóquio do nadador
Embora o homem seja um ser contingente, condicionado pelos mais diversos acasos, sem oportunidades iguais logo desde o berço, ele é tido como ente livre. Jean Paul Sartre, imanência e essência à parte, afirma mesmo que o homem está condenado à liberdade.
Se o exagero dos fatalistas, estóicos ou não, fere a razão e a sensibilidade, já o determinismo de Alain nos parece mais ponderado e realista. Diz o filósofo que: “o determinismo está para a liberdade como a água está para o nadador”. Poder-se-á afirmar que a água significa um conjunto de circunstâncias: hereditariedade, ADN, habitat, meio social, familiar, cultural, etc.
Costa Brites, que dia a dia soube conquistar a sua independência intelectual, por imperativo interior e em ambiente doméstico exemplarmente favorável, senhor de sólida cultura, vive e cria poesia e arte de grande qualidade. Uma e outra. De pessoa simples que se considera, torna-se, para quem o conhece e entende, personagem de muito interesse e alto mérito.
A presente mostra, constituida por três grupos ou núcleos de trabalhos, é o resultado da liberdade, do sonho alado e da fantasia sem limites do autor. Entra-se, assim, num mundo sureal, de um surrealismo sem sombras do “dejá vu”.
O primeiro grupo, a grafite e acrílico sobre tela, é o mais discreto porque se compraz e se cumpre na suavidade de tons cinza, verde claro e amarelo. Obras conceptuais, geometrias inesperadas, riqueza de símbolos e não alegorias de retórica, emoção que o criador sente, mas nos oculta.
O conjunto seguinte assente em estruturas idênticas, embora a policromia característica da paleta do artista, com azuis, violetas, amarelos e verdes cause maior impacte visual no espectador.
O último grupo consta de telas não emolduradas, susceptíveis de enrolamento, à maneira das pinturas chinezas da dinastia Sung e que ainda hoje, na origem, continuam a ser produzidas em larga escala. Reforçando a originalidade, estes paineis incluem uma ampla cercadura ao longo da qual se distribuem sínteses pictóricas que representam pormenores estilísticos da sua fase actual. Mais uma vez o perfume da China com os seus “objectos preciosos” e “emblemas búdicos”.
Sempre em senda onírica e apuro técnico próprio de quem não pactua com a displicência oficinal.
A gramática adoptada baseia-se no rigor do desenho onde surgem ângulos de velas desfraldadas, de capas de livros sem folhas palradoras, escamas dorsais de dinossauros e dragões, dentes de barracudas, troncos e ramos nus, podados, de árvores petrificadas, mecanos, escadas, portas faraónicas violadas e despertas de profundo sono milenar.
Na atmosfera de austeridade, os sinais de vida resumem-se a uma ou outra flor, girassol recortado, rosto de mulher-estátua sem feições denunciadoras de sentimentos, e estranhos pássaros estelares, como robots, fénices imortais, tudo de papel como as pombas de Unamuno. Segundo o autor, essas aves “denunciam a presença substancial do vento”.
A obra tão pessoal, tão invulgar de Costa Brites, feita no e de silêncio, traduz um solilóquio, ou melhor, dianóia que é o diálogo da alma consigo mesma. Dialética interior, o discurso da transcendência, cheio de poesia, de símbolos que requerem descodificação para serem identificados e assim se converterem em mensagens.
Composições certas na colocação dos elementos figurativos e abstractos são, afinal, a metonímia destemida e ambiciosa do universo.
Abril de 2001
Telo de Morais
|