“Ao partir palavras” pel’A Escola da Noite, sobre textos de Ruy Duarte de Carvalho
Publicado pelo Diário de Coimbra em 5 de Março de 2005
O melhor a fazer perante mais este magnífico trabalho de teatro seria tentar percorrer os mesmos caminhos que os seus criadores e dedicar às obras de Ruy Duarte de Carvalho a generosidade de atenção que está em olhar-se a obra de outros como se fosse nossa, reinventando-a para transmitir o que tem de lucidamente universal.
Fujo, por uma vez, da consideração merecida do espectáculo no seu todo, incluindo as alusões que fariam justiça às suas principais facetas de construção cenografico-dramatúrgica: um capricho de comentador sem compromissos, que tenho o raro privilégio de ser, permite-me pegar num detalhe desta preciosa encenação, elegendo-o à condição de instante eleito para guardar na minha memória de espectador.
Refiro-me ao que chamarei o “desencantar do gavião”, ou achado de um “mecanismo poético” com implicações visuais e simbólicas de teor especialmente raro.
Com efeito, o personagem João Carlos empreende a sua viagem através de plainos e matas africanas para ir tratar de um assunto de vacas, preocupação central da sua vida de homem pobre, projecto de velhice e herança única de seus filhos. A partir de certa altura é um gavião que o acompanha na jornada. “Vigiam-se os dois, o velho em baixo e o gavião em cima, para um paisagens e para o outro espinhos”.
Tudo isto é da literatura elegante e fácil de Ruy Duarte de Carvalho, mas é aqui que nos aparece a alegoria encontrada para o pássaro, aparição de duas atrizes jovens, esplendidamente claras e loiras, com uma veste juvenil sem alusões imediatas ao mundo da vulgaridade quotidiana.
Empunham, cada uma de seu lado, um singelo apetrecho feito de hastes finas de madeira que simula de forma mínima a leveza esquemática de uma asa.
Explico melhor: elas estão ao centro, movimentando-se a gosto da marcação cenográfica, como alma-grupo duma entidade alada, e as asas atrás descritas abrem-se para fora, servindo depois, à transparência dum enorme ecrã, para representar o gavião suspenso na altura quente e pesada de África, da forma tão rica como o descreve o autor do texto.
A parceria imaginária dos dois viajantes, tão diversos no destino como no elemento em que se movimentam, acentua-se de modo tão expressivo que, a partir de certo momento, é o gavião que nos conta a história do velho João Carlos.
Falta referir um outro adereço ou coisa fabulosa: duas cordas pendem da escuridão invisivelmente misteriosa do teatro, como suspensas da cúpula dum circo da minha infância. No extremo de cada uma dessas cordas, uma daquelas argolas redondas que seguravam os equilibristas, que as jovens “asas de gavião” cingem, cada uma em seu braço, traço de união entre elas e a transcendência do céu ignoto.
A conjugação destes detalhes e a alegre evolução das artistas até ao proscénio, donde nos falam subidas a um praticável, tudo isso entrou por mim dentro de tal forma que mal consegui aperceber-me do que diziam, tanto foi o entusiasmo de vê-las feitas um pássaro que plaina nas alturas para depois “…abalar em direcção ao sol, o que é dizer, para o alto, para a vertical do mundo que é onde o sol se encontra quando faz meio-dia…”.
A afirmação que a arte frequentemente nos traz das coisas de África tende sempre a apresentar-nos uma visão de um mundo mágico de dimensões e horizontes insondáveis, sendo as criaturas dali originárias portadoras duma sabedoria ingénua, mas tão providencial, que horizonte e sabedoria e dimensões inexplicáveis se fundem num mesmo todo que nem é deste mundo, nem destes tempos, nem de tempo algum que tenha visto vivo homem.
Esta encenação escapa magnificamente a esta tentação e, se digo pouco, com isso me acabo até um próximo espectáculo de vida, que é dizer: de teatro!...
Teatro do brasileiro Plínio Marcos pel’A Escola da Noite
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 4 de Novembro de 2004
A primeira virtude de mais esta realização d’A Escola da Noite, com versão e encenação de Sílvia Brito e as magníficas actuações de dois bravos actores, Carlos Marques (Paco) e Ricardo Correia (Tonho) é a de trazer ao palco a obra de um brasileiro, Plínio Marcos, presença forte e interventiva da sociedade problemática e da época conturbada em que viveu.
A cultura da pressa e da falta de tempo tomaram de assalto o quotidiano, mesmo que insignificantemente improdutivo, e é raro encontrar quem se dê conta da riqueza imensa do inexplorado universo da autêntica cultura brasileira.
Chão vasto como um continente, mescla de povos vários e cadinho de culturas confluentes, o Brasil é esse outro lado do mundo que escassamente nos atrevemos a (re)descobrir, para mal dos pecados da nossa lusitanidade.
A estética da peça, afinada por um saber fazer e por uma sensibilidade requintada que são a marca distintiva dos trabalhos da casa, traz-nos mais uma vez o eterno tema da violência sob uma das suas inumeráveis roupagens.
Sobre a plataforma forrada de branco, como qualquer ring de box, saltam de tantos em tantos minutos dois lutadores acossados pelo rigor de carências duma sociedade impiedosa e madrasta.
Na sucessão de quadros que se organizam como autênticos “assaltos” dum combate muito menos que simbólico, nem faltam, a cada canto, o lugar do alucinado repouso dos contendores, a toalha que limpa o seu suor azedo e a água com que se dessedentam.
Interessará considerar a forma como termina o enredo? Valerá a pena debater a melhor ou pior justeza da solução encontrada para desenlace dos amargos conflitos daquelas duas almas errantes, irmãos gémeos de outros tantos homens a braços com a sua própria angústia, filhos doutras misérias e doutras injustiças?
É evidente que sim e bem o sabe a cultura desta Companhia de Teatro que sempre nos traz, dignificada, a arte do gesto e da palavra dramatúrgica.
Sensibilidades oriundas de um século que foi indelevelmente marcado pelos vícios e virtudes da “hollywoodesca” fábrica dos sonhos, bem sabemos de que maneira é que uma obra “contra” a violência pode fazê-la passar como razoável ou até indispensável.
Relembremos, a título meramente simbólico, um clássico de clássicos, ainda a preto e branco: “O homem que matou Liberty Valance” de John Ford. Para que James Stewart, o democrático e delicado protagonista pudesse fazer reinar a lei e a ordem e tornar-se prestigiado senador, lá teve que puxar o gatilho na sombra John Wayne, carisma vivo da mesma América profunda que apoia tão visceralmente invasões e bombardeamentos.
Longe do artificial tratamento das imagens e dos avassaladores ritmos de narração do cinema e da televisão, o teatro conserva, ainda felizmente e sempre, o metal fino da voz tremente, o claro escuro da autenticidade, as pausas, os ritmos à nossa medida e a face descoberta do actor, eco e reflexo do nosso próprio rosto.
Na peça de ontem houve uma cena que todos viram e que não fazia parte do entrecho, que não foi escrita pelo dramaturgo nem fora sonhada pela delicada encenadora.
Os dois rapazes, actores de mão cheia, cairam ao fim nos braços um do outro empolgados pela emoção do recado entregue de corpo e alma inteiros.
À espontaneidade irreprimível do abraço não terá faltado o brilho diamantino de uma lágrima. Se foi deles ou se foi minha, não sei bem.
Mas coisas destas, francamente, nunca as vi nos filmes de Holywood!...
O Cerejal, de Anton Tchekhov pel’A Escola da Noite
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2004
Ir a um espectáculo de teatro continua a ser uma das formas sociais mais inteligentes e interessantes de passar o tempo. Ali o espectador não é objecto de emoções injectadas pela paixão incontrolável ou pela excitação desabrida.
A pessoa que vá ao teatro é sujeito principal duma acção estimulante do espírito e nada há numa peça, por mais excelente, que não tenha de ser arquitectado na mente de quem vê, de forma sensível e perceptiva.
Mesmo que já se tenha visto antes, mesmo que se conheça o autor e o texto esteja bem presente na memória, a representação traz sempre consigo uma novidade, um desafio, uma renovação da nossa capacidade de ver.
Que coisas poderá trazer-nos esta obra, cem anos depois de ter sido estreada no contexto específico do colosso cultural da Rússia de Tchekhov?
Fixemo-nos apenas numa ideia que opressivamente condiciona todo o entrecho e que para mim é o personagem principal, sem ser actor nem figura material visível. A ideia de mudança, de princípio e de fim, de transitoriedade fatal de tudo aquilo que se agita sobre o palco cénico tal como no mundo e na vida.
A vida, palco infinito de miragens sobrepostas
No terceiro acto, enquanto Pétia e Liuba Ranevsky travam um diálogo absorvente e esta se confessa perdida e desorietada como num mar revolto, temerosa perante o desastre eminente, lá atrás no salão, decorrem festejos ao ritmo duma música excitante.
O interessantíssimo e eficaz dispositivo cénico dá ao espectador essa simultaneidade de mundos que entre si se confundem, dizendo uma coisa as palavras e anunciando outra os sentidos, tal como nas contradições universais da vida.
O que é a verdade? pergunta Liuba a Pétia, discorrendo sobre todas as coisas graves do envelhecimento, da perda, do sofrimento e da dureza da vida: o filho morto no rio, a casa mãe à beira do abismo, longínqua e perdida já a doirada tradição da abundância e a certeza num mundo seguro e imutável.
A intervalos regulares invadem todo o espaço a irrequieta música que não se cala, o bulício circense e a vitalidade sensual dos corpos que bailam.
Exactamente como na vida de todos os dias, há cem anos como agora, o amor e a morte dão-se as mãos num encadeado de contradições sem freio, de miragens sobrepostas, de breves feixes de luz colorida que a obscuridade triste da realidade envolve, pesadamente.
Ermolai Alexeevitch Lopakhin é o novo rico que está ali, cheio dos argumentos indestronáveis do poder e do sucesso, para demonstrar que a vida prossegue, implacável, dando razão a quem pode enfrentá-la com imensa energia, rudeza e uma indispensável fortuna rara e casual.
Ania, criança virginal de amor, acaba por fugir com Pétia depois de o ter simbolicamente armado com as suas perdidas polainas, frágil garantia de longa e proveitosa jornada direitos ao coração do futuro.
Para a nobre família a catástrofre inevitável consuma-se entre preparos e arrumações diversas, árvores que se abatem e servos para sempre fiéis, até no inevitável instante da morte.
Mil janelas, mil bandeiras verde rubras
Pateticamente ausentes já, olhar ansioso fixo num ponto indistinto do horizonte, os velhos aristocratas despedem-se ao sair para um Paris simbólico que não existe para eles, porque não existe, pura e simplesmente.
Fazem-me pensar nas varandas e janelas do meu país ilusório e festivo, inundadas de bandeiras nacionais, conclamando as gentes a uma estranha unanimidade de entusiasmos galvanizantes.
Será que os optimistas que assim se exprimem ignoram que o estandarte republicano, em seu contraste dramático de cores elementares, simboliza mais as dores e o sofrimento que a frescura da esperança? Quem há aí, dentre vós, que tenha reparado que o vermelho é muito mais que o verde, e apela à determinação, ao espírito de sacrifício e à aceitação do destino trágico?
Ou será que cem anos depois d’O Cerejal, a música fácil e a tontura das danças continua a iludir a palavra reflectida e o discurso incómodo da verdade?
Daquel Abrente, o Centro Dramático Galego na Oficina Municipal do Teatro
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 4 de Junho de 2004
O Teatro é um acontecimento para se festejar de pé, ombro a ombro, com alegria e lágrimas que fazem tremer os lábios por se ter soltado nas veias o sangue espesso da verdade. Se isso for em praças de gente madura, tanto melhor, para que não ecoe solitariamente a voz que deve ser de muitos, para toda a gente.
“Daquel Abrente”, memória de uma alvorada
Em visita de qualidade veio da Galiza a proposta cenográfica citada, em intercâmbio organizado pel’A Escola da Noite que também se apresentou em Santiago de Compostela com trabalhos sobre Gil Vicente, para trazer testemunho do corajoso acontecimento, há vinte e cinco anos, da fundação do teatro profissional naquele país.
Se digo país penso na vontade de afirmação cultural e na capacidade de organizar essa e outras modalidades de intervenção, das quais se salientam hoje as peças escritas por dois notáveis autores galegos : “Laudamuco, señor de ningures” , de Roberto Vidal Bolaño e “O velorio” de Francisco Taxes.
Obras escritas nos anos setenta, num momento de transformações importantes na Península Ibérica em geral e na sociedade galega em particular, recorrem a uma estética de clareza e frontalidade emocional onde é possível descortinar raízes da expressão artístico-literária vincadamente autóctones umas, e de perfil universalista, outras.
Inevitável é mencionar a qualidade de amadurecimentos acumulados neste quarto de século por alguns dos actores em cena. A figura imensa de Rouco, por exemplo, feita por Rodrigo Roel, encarna a figura do servo e sustentáculo único da paranóia de um rei que já não é, no plano de descolocação patética de uma farsa que abre caminho à mais certeira ironia e ao mais devastador retrato dos poderes absurdos, das proeminências ridículas e das dignidades putrefeitas.
“O Velório”, que foi na época em que estreou uma obra revolucionária e que já em 1978 arrastou uma multidão de entusiasmo ao FITEI do Porto, ao qual regressa este ano, é o traço expressionista a branco e negro de uma explosão de indignações recalcadas perante o ocaso do poder, simbolizado pela morte da figura opressora e tutelar. A acção desenrola-se no clima de excesso e destemperança das festas e ritualidades parateatrais, apetecendo ainda mencionar o “esperpento”: género teatral que surge com “Luces de Bohemia” de Ramón del Valle-Inclán, em 1924, e no qual se fundem de modo particular o sentido da farsa e da tragédia.
Na continuidade que estes espectáculos evidenciam há que referir também o conjunto musical dos irmãos Morán, protagonistas do roque galego dos anos setenta e que actuam ao vivo ao longo das duas peças com sublinhados e intervenções de efeito surpreendente.
A fala galega, só deles ou também nossa?
Se há razões que a noite húmida e quente deste fim de Maio oculta em seu segredo, não deixa de ser impressionante que tenhamos podido assistir a todo um serão de teatro em fala estrangeira que todos nós fomos percebendo de maneira intuitiva. Assim à maneira de uma coisa antiga que perfeitamente reconhecemos, sem termos sido obrigados a ter de estudá-la na escola.
Rappaport pela Bonifrates sobre a velhice com graça sem mentir
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 19 de Maio de 2004
Como é que é possível falar da velhice sem desmoralizar as pessoas que tenham mais de trinta anos, colocando na mensagem suficiente ardor de clareza e a dose certeira de verdade?
Como é que é possível falar da velhice sem aborrecer as pessoas com menos de trinta anos, essa magnífica porção das nossas vidas durante a qual a perda da juventude, sem ser por lampejos vagos ou fatalidades casuais, parece ser um país tão longe, tão para lá dum oceano de sonhos magníficos, ainda por atravessar?
Por uma vez na vida, caro leitor, à fé de quem sou, faça o que lhe digo: vá ver a peça que a Bonifrates leva à cena no teatro de bolso da Casa Municipal da Cultura, e não terá que se arrepender. As tarefas de dramaturgia e a encenação são de João Maria André, ficando eu triste por não poder detalhar toda a equipa de trabalho, tão eficaz e acertada que tudo na peça parece fácil.
A realização reflecte simplicidade sem falta de requintes: uma entrada através do cenário, ao fim dum amplo corredor atapetado com cascas de pinheiro a estalar debaixo dos pés que sugerem as coisas antigas e fundamentais da natureza; uma música de fundo composta para o efeito, sinalizando de forma inspirada as circunstâncias que viajam pela peça dentro; um lote de actores secundários perfeitamente credíveis que entram a tempo e fazem bem o que lhes toca sem vacilar e, para finalizar, como se fosse coisa simples, um par de actores principais dispostos a enfrentar denodadamente um texto que atravessou o Atlântico fazendo grandes sucessos em ambas as suas margens e tendo ganho esse raro e difícil galardão que é chegar a ser cinema, interpretado por actores mundialmente conhecidos.
A realidade maior também pode ser inventada
O entrecho desenrola-se num banco de jardim duma grande cidade em que a visita de intrusos maldosos parece ser coisa fatal e inevitável.
Os protagonistas são dois velhos que fazem do glaucoma, das cataratas e dos acidentes ortopédicos histórias contáveis a par de muitas outras coisas vividas, arduamente sofridas, risonhamente sonhadas ou simplesmente... inventadas. Isso, inventadas, porque a invenção é um navio sempre pronto a largar, tenha o piloto um coração forte e sejam largas e generosas as velas da imaginação!...
Ambas as figuras evidenciam a problemática universal das pessoas de idade avançada enquadradas, para mais, em contextos sociais desumanizados, indiferentes aos direitos dos cidadãos mais isolados e desvalidos.
Victor Torres e Fernando Taborda são “Nat” e “Midge”, duas figuras cujas caracterizações dicotómicas tocam extremos tão frequentes no romance e no teatro (um “D. Quixote” e um “Sancho Pança”). Se o primeiro se exalta na exuberância idealista e na bravata destemida e vulnerável o outro rasteja, terra a terra, em obediência ao mais pragmático conformismo.
Conseguem isso, aliás, operando essa coisa simples e tão natural em grandes actores de teatro que é o prodígio da transfiguração. Um é o cegueta assustado e escapista, o outro um impulsivo sonhador que ergue o braço frágil e a mão tremente como se fosse um desfraldado estandarte combativo, inebriado pelas palavras, como quem se olha ao espelho dos mais calorosos ideais.
Como acontece no discurso literário, além da acontecer na própria realidade, são duas figuras que se fundem numa amálgama de contradições produtivas, numa abundante percepção da vida, feita de uma imensidade de gestos com sentido e de raros momentos felizes com lágrimas ou sorrisos, em que a vontade coloca o destino nas mãos dos homens como uma flor gentil, demasiado frágil para que dure, demasiado preciosa para que desistamos dela.
Vá leitor, faça o que lhe digo: vá ao teatro! Vá, que é com isso que pode dar à vida um dos seus sentidos principais. Vá, enquanto é tempo, não venha a velhice um dia por aí apanhá-lo irremediavelmente desprevenido.
Ridiculum Vitae, solos para duas atrizes em noite de sonhos e de sombras
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 14 de Maio de 2004
Helena Faria e Alexandra Silva são duas atrizes excelentes, cuja persistência nas artes de palco já granjeou um abundante lote de recursos expressivos de que dá testemunho abundante a peça que tem ido à cena no Inatel, depois dum largo percurso de representações noutros locais.
A peça é constituída por diversos quadros que fazem desfilar perante nós um variado grupo de casos femininos, criaturas situadas naquela margem da vida em que os desencontros e a caracterização problemática se cruzam com essa debilidade a que chamamos ridículo, e que tão mais frequentemente abunda do que à primeira vista pode querer parecer-nos.
A densidade de conteúdos e o primoroso desempenho ficam na memória de quem tenha visto a peça, como segredo e privilégio bem guardados.
Com efeito, numa noite de festas estudantis como há tantas, em que milhares de jovens saturam a cidade de ânsias naturais e alguma sofreguidão incerta de futuro, entra o espectador na sala enorme de espaços vazios e assusta-se, transido pela solidão que rodeia o culto excelente das palavras sentidas.
Leio o modesto folheto editado pela Associação Cultural Camaleão e reparo que a ficha técnica do cuidadoso espectáculo pede meças ao número de espectadores presentes.
E não é por ser esta a peça, nem por serem estas as actrizes (que já sublinhei serem excelentes), nem por ser esta a sala (que até está situada no caminho de toda a gente que atravessa Coimbra numa noite de sombras e sonhos!...)
A falta de meios, uma história mal contada
Cada sociedade elege os ídolos que quer e que entende, e as suas maiorias estão atentas a tudo aquilo que comporte uma compensação imediata, uma facilidade, um estímulo gratuito, mas nem sempre inóquo, partilhado pelos ecrãs da notoriedade.
Estar na crista duma onda iluminada, tonitroante de fama e de sucessos, eis o que cativa e reune multidões. E os pastores de entusiasmos sem sentido não regateiam os meios, os milhões estão ali, palpitantes, que não me deixam mentir.
Daí que me canse, e ofenda até, ouvir a cantilena roufenha da falta de meios para tudo o que seja um esforço semeador e inteligente.
O futebol é a mais milionária das encenações, a que agita mais dramas vazios e anima mais conflitos, a que está mais à mão de toda a gente para alívio de tensões diárias, de entusiasmos que sufocam sob a pressão de carências sem nome.
No Inatel, com as mesmas velhas roupagens que lhe conheço de há um ror de anos, um par de fervorosas beatas em delírio de idolatria folclórica, uma atriz porno remoendo no seu íntimo medos e desejos desordenados, uma feirante de língua de prata em fuga com filhos nos braços e várias outras figuras de vivo recorte cénico, desfilam perante nós com toda a eloquência de trajectos difíceis, verdadeiros, pungentes ou complexamente ridículos!
Na rua, a caminho da festa maior, vários grupos de estudantes caminham duvidosamente alegres (ou quase tristes...) alguns demasiado ébrios para darem bom nome ao vinho que beberam.
O teatro fica à espera deles. Um dia, quem sabe, talvez com ele se cruzem, em sua ilusão e ânsia de futuro.
Estreia de Fuenteovejuna pelo CENDREV, no TAGV, no Dia Mundial do Teatro
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 19 de Março de 2003
A estreia nacional de uma obra tão fecunda como Fuenteovejuna de um dramaturgo tão enorme como foi Lope de Vega honraria uma cidade capital de cultura que fosse capaz de encher uma sala de teatro como o TAGV, no Dia Mundial do Teatro.
Porque assim não foi, uso o modo condicional, na fé de que, mais por ignorância simples ou por simples cansaço de tantas inaugurações e cerimónias, haja muita gente que ali não veio para dar fé da palavra clara de Lope, “ poeta máximo del cielo y de la tierra”, génio imenso, figura vibrante e quase indescritível, protagonista sem margens do bem chamado Século de Ouro de Espanha.
O primeiro utensílio notável usado pelo encenador Pedro Alvarez-Ossório foi a talentosa versão textual de Natália Correia que, escrito em 1973, “exalta e justifica a rebelião de um povo” pelas razões de opressão, prepotência e abuso que em qualquer parte ou em qualquer momento possam, infelizmente, verificar-se.
À elegância poética que o vigor de Natália soube associar qualidade dramatúrgica, acrescentou a concepção do espectáculo uma estética de claridade e de explicitude que é raro ver-se.
Séria e replena de sentidos históricos e literários, a peça de Lope é apresentada em registo de festiva exaltação do gesto e da palavra, sendo criteriosa a utilização que é feita do potencial de razões contraditórias que o entrecho disponibiliza.
Se digo criteriosa não quero dizer enfraquecida, pelos motivos que levam Laurência a invectivar, olhos nos olhos dos espectadores, a cobardia cívica, o escapismo e a moleza indiferente dos que se deixam afundar no abandono da sua própria honra.
Se digo criteriosa, repito, não é porque a configuração do inimigo não esteja bem explícita, no Comendador e nos partidários da sua laia, sem rodeios ou complexos de dúbia complacência.
Lope de Vega deu um sentido de utilidade política à sua obra, como um dos mais distintos criadores do barroco espanhol face ao fim da Idade Média e à ascensão do poder central do estado no dealbar da época moderna. Nesta encenação de Fuenteovejuna, porém, o ódio da colectividade pelos seus opressores é temperado por uma facilidade evidente na mudança de registo que da revolta vingativa por imperiosa necessidade se transforma em alegria ingénua. Para não falar da forma explicitamente irónica com que é tratada a figura dos monarcas, a rainha prepotente e sem escrúpulos e o rei amorfo e sem carácter.
A abrir o espectáculo veio ao proscénio uma atriz que leu o discurso de Tankred Dorst para o dia Mundial do Teatro. Entre muitas coisas interessantes ali foi referenciado o seu carácter de “arte impura”, por lançar mão abertamente de tudo o que se atravessa à frente do homem e à frente da vida. Parece-me aliás que posso utilizar essa ideia para elogiar esta peça que o Centro Dramático de Évora (CENDREV) estreou no TAGV, para honrar Coimbra, com a galhardia e talento duma pequena multidão de artistas de teatro.
Se não eram tantos assim e não chegavam a ser multidão, tanto lidaram e viveram em cena que, pelo menos, foi essa a ideia com que fiquei.
O Teatro de Marionetas do Porto, sobre Magritte, no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 21 de Março de 2003
A projecção universal do sucesso serve mal o génio dos verdadeiros artistas criadores, aqueles que implantam no cenário do mundo o rosto mais apreensível das suas contradições e perplexidades.
Particularmente a publicidade, como praga invasora de vulgaridades parasitárias, capaz de tudo para cativar o olhar incauto do consumidor potencial, é um dos processos mais fatigantes do esvasiamento e até da falsificação da imagem como factor de encantamento sensível ou de descoberta reflectida.
O espectáculo de teatro que apresentou a companhia de Teatro de Marionetas do Porto defronta-se com a sobre-utilização a que a obra de Magritte tem sido sujeita , por ser um escaparate fortemente sugestivo de paradoxos e surpresas.
A leitura da peça tal como foi explicitamente anunciada tem que contar, preferencialmente, com a familiaridade da obra do famoso artista belga, nacionalidade de criadores surrealistas de inquestionável talento e nem por isso tão universalmente aceites, como é, entre outros, o caso de Paul Delvaux.
Isto como resposta aos meus amigos que questionavam, à saída do teatro, a impenetrabilidade duma grande extensão do espectáculo, de cuja linguagem só escassamente se haviam apropriado, e aos quais fui dizendo que me parece que o trabalho das Marionetas do Porto trouxe até nós um ensejo generosamente abundante de interessantes alusões Magritteanas.
Acontece que na transmutação de reinos que vai da pintura ao teatro, a mediação que nos oferece a propensão literária e filosófica da obra do pintor, não é fácil nem é imediata.
Uma peça desta natureza não conta com nenhuma espécie de enredo, foge ao convencionalismo de um entrecho, cabendo à nossa disponibilidade a aceitação de alusões subtis, o entendimento do jogo cénico como tal e, por acréscimo, como veículo dum certo tipo de universo comunicativo.
De muito bom efeito me pareceu a sonoplastia, reforçada por uma acordeonista em palco que até a partir de simples toques mecânicos nas chaves do instrumento ia acentuando efeitos e sublinhando ruídos.
O misterioso silvo marítimo que varre incessantemente o “plat pays”; o tic-tac dum relógio de sala, quinta-essência de todos os mistérios e de todas as contradições que o pintor incansavelmente glosou, assumindo com certa volúpia o convencionalismo burguês e urbano que a própria obra contradiz e o rumorejar da água nocturna que amortalha a mais dolorosa ausência, a mãe, a dona do rosto oculto pela “écharpe”.
Vieram até nós igualmente a surda respiração íntima, os sinos e as gargalhadas, e um sem número de palavras/aforismos que na obra em apreço são tão abundantes e essenciais.
Para matizar um pouco o sentido de apreciação positiva que suscita este espectáculo, como tantos outros que nos visitam, uma pequena confidência lateral, em jeito de pergunta: será possível que algum dia irrompa do palco, sem que ninguém espere, algo de verdadeiramente provocante e inovador, que desafie o sentido de medida da tal trivialidade balofa e burguesa de que Magritte foi tido como provocador e sabotador tranquilo?
Será que a linearidade intelectual, o humor comedido e a reincidência poética serão os únicos destinos possíveis das nossas timoratas pretensões e que “ceci n’est pas ...”?
Baal de Brecht, pelos Artistas Unidos, no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 13 de Março de 2003
Por efeito da ideologia de crise há uma série de hábitos culturais que se vão perdendo, fingindo todos que é natural que assim seja, e que não há nada a fazer.
Lembra-se o leitor duns libretozinhos que se davam ou se vendiam antes de qualquer peça de teatro? Para agravo da minha ignorância noto que rareiam nos vestíbulos teatrais. Os que sobrevivem, ganham por vezes em aparato gráfico, mas limitam-se a ser a lapela de curricula que ninguém lê ou das notabilidades patrocinantes.
Baal, Brecht, os pavores da guerra de catorze, o expressionismo alemão, todos os seus antecedentes e contemporaneidades, abrem para um universo tão imenso, que eu não sei ao certo que parcela do estar, do dizer e do sentir daquelas figuras teatrais poderá habitar entre nós como aquisição da nossa sensibilidade ou do nosso saber.
Parece-me óbvio que este tipo de acontecimentos corre o risco do equívoco se ao processo faltar uma indispensável aquisição de cultura, ficando apenas como figuras de estatística, alimento curricular para quem organiza, promove e patrocina, e pouco mais...
Abre o espectáculo o grande coro de Baal, poeta com nome de deus bíblico, tremendo em seu desespero de rupturas elementares, transitário insatisfeito da vereda incómoda que do desejo cego conduz ao embotamento e que deste leva à morte.
Ficamos sabendo, pois, que é no território da expressão poética que se situará mais essencialmente a condução do espectáculo. Nem a vertente cabaretística, nem a contextualização histórico-política, nem as notações erotizantes (é evidente o pudor no desenvolvimento das figuras femininas, tão ousadas noutras encenações) virão a assumir espaço equivalente ao mito de Baal, poeta associal, devastado pelo seu radical sentido do prazer e pelo seu egocentrismo sem margens, mais do que pelo álcool, cuja fruição é um combate permanente e obsessivo, como se dum símbolo ou dum destino se tratasse.
O cenário da peça é constituído por uma volumosa estrutura multifuncional produtiva de perspectivas artificiais, onde escassos elementos de diferenciação, nomeadamente a luz e os efeitos de fumo, vão introduzindo as necessárias alternâncias ao desenrolar da acção dramática.
A música é, como vulgarmente em Brecht, um poderoso mediador, para o que muito contribui a capacidade expressiva do protagonista (Miguel Borges) no traçar duma figura musculada, impiedosa e destemida. Declamando envolto pela neblina nocturna ou cantando de guitarra eléctrica em punho como um autêntico “rock and roller”, oferece-nos uma alusão a mitologias doutras gerações, sustentando o texto de Brecht o espectáculo, a um nível de inconfundivel caracterização.
Finda a representação, que no conjunto pode caracterizar-se como uma impressionante e notável realização de teatro, atardei-me mais um pouco pelo vestíbulo, francamente emocionado, circulando por entre os grupos de presentes, procurando sem excessiva subtileza escutar uma ou outra ressonância ou comentário apreciativo.
As vozes, moderadamente colocadas, davam-me conta duma escassa paixão interpretativa, sendo evidente que o rio de gente que ali estava se ia esgueirando, como fresca água corrente, sem estremecimentos de exaltação poética, para dentro dum quotidiano cheio do pipilar dos telemóveis e de outras imperiosas necessidades e acertos dum descuidado porvir.
O Gato inquietante, a andorinha frágil e o amor perseguido, pela Bonifrates
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 2 de Março de 2003
Descer aos fundos de garagens da Casa Municipal de Cultura em busca do labor teatral da Cooperativa Bonifrates é diligência sempre premiada com o benefício da descoberta.
Que à Companhia deveria ser reservado melhor espaço, é coisa que nem se discute, e já foi anteriormente salientado pela “coxia central”. Em espaço tão exíguo o grupo consegue sempre, não obstante, materializar propostas refinadas pelo sentido de pesquisa da estética do teatro.
A interpenetração das culturas lusófonas, de que fazem parte os autores tratados neste trabalho de cena, é como o estudo das galáxias. Tarefa difícil e imensa, mas apaixonante. Os modernos meios de comunicação vêm auxiliar a aproximação e deixam perceber que o termo galáxia não é metáfora despropositada.
Jorge Amado, cuja nacionalidade é ocioso mencionar, e Daniel Filipe (escritor nascido em Cabo Verde mas referido como autor português), dão a carne de palavras a esta composição dramatúrgica de João Janicas, que levou à cena um trabalho denso de referências simbólicas, apoiado por mais uma notável cenografia de Carlos Madeira.
A peça exige, por efeito da já referida densidade, e pela sobreposição de discursos literáriamente muito distanciados, uma permanente atenção descodificadora da riqueza de intenções comunicativas. Mas com isso não se importam os espectadores da Bonifrates, habituados que estão a ir ali em busca de autos para mentes despertas, e não espectáculos previsíveis ou entretenimento ocioso e inóquo.
Todas as figuras de animais da parábola de Jorge Amado aparecem aqui abundantemente assimiladas a contradições e tendências dos humanos, distanciadas talvez da matriz poética em que as concebeu o seu autor para presentear o primeiro aniversário de seu filho.
Mas nem uma coisa nem outra se perdem neste espectáculo reforçado, em contrapoder de angústias, pela ficção premonitória da Invenção do Amor de Daniel Filipe.
A totalidade produz um leque variado de momentos de reflexão social e de prazer estético, ao qual não é alheia a banda sonora, centrada numa outra figura de oceânico talento como foi Heitor Villa-Lobos.
É muito ingrato referenciar nomes de actores, dado o acerto talentoso que se verifica no grupo de artistas da Bonifrates onde sempre militam, a par das figuras já mais experientes e até consagradas, um renovado número de jovens intérpretes.
Parece-me inevitável, contudo, deixar de mencionar mais uma presença magnífica de Rui Damasceno que, excelentemente apoiado pela vaporosa e saltitante Andorinha Sinhá, Alexandra Silveira, tem a seu cargo traçar uma das figuras mais expressivas deste entrecho, o Gato Malhado, o que faz com uma convicção trespassada de sentidos, que abrem janelas para a multitudinária essência do actor como ser plural e multicolor.
Almocreves e outras cousas que se fizeram, pel'A Escola da Noite
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 6 de Fevereiro de 2003
A malta dos saltimbancos ou a trupe dos cómicos chegava às localidades arrastando consigo uma pequena aragem de novidade que ruas além se divulgava pelo acaso de encontros com vizinhos e correrias de miúdos.
A tralha de envelhecidos adereços, carregada com lentidão de cansaços antigos, condizia com o trajar desencontrado dos actores cujo aparato mais revelava da pobreza geral que da opulência do equipamento.
A avaliar por cartazes e jornais é a encenação desse momento, feita por Sílvia Brito, que mais interesse mereceu aos fotógrafos que documentaram este trabalho d’A Escola da Noite.
O grupo de actores em marcha, coeso no silêncio e no sentido de fadiga, tem a força estranha das gentes que se preparam para embarcar algures sem objectivo certo ou destino promissor. Abrem e encerram o espectáculo oferecendo um ensejo precioso de reflectir sobre a vida, refluxo de esforços sem fim, eterno regresso às dores e busca incessante de expectativas.
Alojadas as mulheres aqui e ocultos os homens lá atrás, como convém à decente separação dos sexos, eis que descansa finalmente a trupe e ganha forças para a primeira representação que calha ser a Comédia sobre A Divisa da Cidade de Coimbra. Reservada ao grupo das mulheres, transporta-nos a claridade menineira do seu falar risonho ao universo propiciatório dos sonhos sem cuidados. Os desacertos da cerimónia descritiva dos símbolos da própria Divisa da Cidade remetem para a tradição do anedotário académico, aparentemente tão necessário à própria sobrevivência do seu carácter.
Segue a Farsa dos Almocreves que trata “da crise profunda em que a cidade e o país estavam mergulhados “(Oh, como a História é preversa, encurtando o que é glorioso e perpetuando o que é nefasto!).
Sendo esta questão mais cáustica que a da narrativa anterior, de princesas, leões, serpentes e outros encantamentos, é representada por homens, uns na figura de pelintras pedinchões, outros como emproados e balofos cavalheiros. Penso que isso é razoavel por dizer respeito às carências do Estado e às preocupações da Sociedades Civil, uma coisa que eu não tenho a noção exacta do que seja mas muito falada agora nos jornais por ser talvez o lugar secreto e difuso das incapacidades e defeitos de todos nós.
Vem por fim a Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela cujo menor talento não será o de reunir por fim sexos opostos e corações desencontrados. Tal como na vida é de forma casual e contraditória que esse encontro se dá, demonstrando que o destino só existe porque o configuramos apenas depois de ter acontecido.
Muito rico de associações plástico-dramatúrgicas, elegantemente tratado pelo amadurecido grupo de actrizes e actores que em nenhum momento abandonam o espectador ao ócio do enfado, fazendo de novo um inteligente aproveitamento do invulgar espaço cénico, a Escola da Noite prossegue este ciclo de trabalhos, tão útil para uma descoberta proveitosa do manancial vicentino.
No fim da peça estive a falar com um actor sobre a preciosa ideia das máscaras e toucado da primeira representação. Não, não foram importados da China nem foram feitos num “workshop” em Lisboa. É ele próprio que os inventa e confecciona em casa, com rafia, o que demonstra que nos meandros ignotos da nossa Sociedade Civil ainda há cabeças com espaço disponível para ideias e capacidade autêntica de realizar.
Mais conveniente, contudo, é que haja quem nos apresente na Corte para termos a vidinha boa dos que frequentam o Paço, como já tão bem sabiam capelães, ourives e almocreves do tempo de Mestre Gil e nos foi dado a conhecer por mais este trabalho d’A Escola da Noite, a não perder.
A Barca do Inferno no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 2 de Dezembro de 2002
A Mostra de Teatro Vicentino prossegue com prazer e proveito. Dia 18 teve lugar mais um prólogo com apresentação de Joaquim Correia, ilustrado por intervenção do actor Nuno Pinto. A seguir esteve em cena a co-produção ENTREtanto Teatro, Trigo Limpo e Teatro ACERT, com uma Barca do Inferno que não vai esquecer facilmente.
A apresentação, com multiplicidade de participações estético-teatrais que não é possível referir em tão breve espaço, quase dispensa uma apreciação crítica pelo facto de atingir aquele objectivo primordial em qualquer realização deste tipo, mas raramente conseguido: é um verdadeiro espectáculo, prodigalizando tudo o que é desejável num serão destinado à fruição do teatro, "escaparate de todas as artes" como diria José de Almada Negreiros.
A distribuição dos papéis, repartidos por apenas três actores, como pode ter acontecido na companhia de Gil Vicente, é apoiado por um registo musical expressamente composto para o efeito que chega a transportar-nos ao clima sumptuoso duma encenação operática.
O artefacto cenográfico principal, a barca, foge completamente ao convencionalismo da verosimilhança, conjugando a funcionalidade dum brinquedo de montar e desmontar com o fascínio que a sua concepção estrutural transmite, a qual um simples efeito de luzes transforma, ao bel-prazer do enredo Vicentino, de barca do inferno em barca do paraíso.
Tal ambivalência estende-se à consideração que nos é proposta para as pessoas do drama. O diabo, representado por uma insinuante presença feminina, transfigura-se em anjo, pela simples adjunção dum lenço branco, translúcido e angelical.
Iria jurar, contudo, que é diminuta a convicção posta nessa transmutação milagrosa. Com efeito, nem o anjo assume a transparência ingénua dos tripulantes do seu Batel Divinal, nem o diabo, tratado com evidente sobranceria por alguns dos condenados à Ilha Perdida, é tão assustador assim.
Essa sobreposição de contrários, esse claro-escuro, enriquecem de complexidade a projecção produtiva do entrecho, na mente dos espectadores de uma outra época.
A predilecção de Gil Vicente vai claramente no sentido da provocação e da crítica, e eu pergunto qual é a capacidade que poderá existir nos dias de hoje para trazer à luz da ribalta um tão completo elenco de figurões, traficantes e oportunistas como os que são ali desmascarados pelo julgamento explícito e clarificador da sátira.
Mais pergunto se é possível descortinar por aí, na actualidade, patrocínios tão abertos e tolerantes como foi, no seu tempo, o da Rainha Dona Leonor para com a produção vicentina.
Terminada a peça tive o privilégio de falar com um actor brasileiro, director artístico do ENTREtanto, que vive e trabalha em Portugal, na cidade de Valongo, cujas cinco freguesias possuem, cada uma delas, um teatro equipado em actividade devidamente apoiada.
Gostava de comentar também o excelente trabalho dos actores e mais a circunstância de todos os papéis do artista que menciono terem sido falados com sotaque brasileiro, mas o meu tempo de antena acabou e por isso me despeço, até um dia destes, numa sala de teatro perto de si!…
"O Clérigo da Beira", no TAGV, pelo Teatro das Beiras
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 21 de Novembro de 2002
A Praça da República, descontando o urbanismo duvidoso que a tornou pequena, é um local enobrecido pelas memórias dos que por ali têm passado e pela merecida convivência que se deseja cheia de cultura e de paz.
Mesmo ao lado, o TAGV, obra que envolveu figuras gradas da nossa arquitectura tais como Cristino da Silva, Alberto José Pessoa e João Abel Manta, também autor dos graciosíssimos painéis de azulejos (quase) escondidos pelas paragens de autocarros, onde um rio caudaloso de trânsito torna desconfortável a requintada avenida que nos legaram os homens de há mais de cem anos!…
A Mostra do Teatro Vicentino continua a derramar os seus frutos. Na Segunda-feira, às 18 horas, teve lugar o habitual "prólogo de Vicente" com uma apresentação sobre O Triunfo do Inverno, por José Cardoso Bernardes, que pediu uma sensibilizada salva de palmas para a Sociedade de Instrução Tavaredense, senhora de amplo historial no ofício do teatro que ali foi declamar textos ilustrativos do que foi dito.
Nos dias 12 e 13 foi à cena O Clérigo da Beira, pelo GICC, Teatro das Beiras, sediado na Covilhã, que ostenta um brilhante palmarés de realizações, com um núcleo duro de trabalhos sobre Gil Vicente.
Este "Clérigo" foi-nos oferecido num registo de ampla comunicabilidade, graça e colorido, tendo na música uma componente especialmente cuidada e efeitos cénicos que chegaram a certo requinte.
Um conjunto instrumental presente no palco, com a naturalidade cúmplice que alguns "efeitos de distanciamento" puderam evidenciar, foi-nos apresentando música composta para a peça, o que lhe conferiu um toque de quase exotismo, a fazer lembrar algumas sonoridades aparentadas, senão com Kurt Weil, pelo menos francamente alusivas ao clima do teatro expressionista.
Sendo bem equilibrado o conjunto de actores, dois houve que excederam a bitola do comum, reservando aos espectadores surpresa e entusiasmo: o "negro" e o "filho do Clérigo", sem desprimor para todos os outros, claro.
Em virtude da largueza de espaço que oferece o TAGV (em tudo diferente dos locais onde Gil Vicente teria actuado com a sua pouco numerosa companhia) e devido à vivacidade e movimento cénicos, perde-se por vezes uma larga porção das falas dos actores.
O Teatro Vicentino, de discurso tão vibrante de ironia e acinte, remete-nos desta forma para uma necessidade suplementar: a de irmos ler depois (se o não fizemos antes…) o texto literário que lhe corresponde. Contudo, é aí que começa uma "romagem agravada" pelas debilidades da nosso panorama editorial.
Experimente o leitor dar uma volta pelas livrarias, tente comprar umas obras completas de Gil Vicente e ficará a saber do que é que estou a falar!…
Para aquelas almas cujo pesadelo é a invasão espanhola, recomendo vivamente uma visita às enormes colecções de divulgação popular do país vizinho (livres dos entraves que os nossos editores não podem ou não querem abandonar) baratas, práticas e riquíssimas de anotações.
Gil Vicente, memória e criação, pel'A Escola da Noite
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 14 de Novembro de 2002
Perante a estimulante ofensiva de espectáculos de teatro convém reforçar a notícia: A Escola da Noite deu início aos seus "actos de memória e criação" tão felizmente corporizados pelo seu surpreendente trabalho "Vicente na Escola", em cena na nova Oficina Municipal do Teatro.
Se o leitor pensa que o palco cénico é uma abertura dinâmica sobre os mais vastos horizontes e uma explosão natural de segredos e surpresas; se não deixou enregelar dentro de si a memória dum clássico como Gil Vicente e acredita que a convergência de diferentes modalidades artísticas não estorva, antes reforça, a entrega da palavra como acto cristalino da mais pura transparência; se tudo isto for, associe-se prontamente ao grupo exigente dos admiradores do trabalho desta companhia.
Desde o encaminhamento dos espectadores através dum "túnel de palavras" à visualização dos mais diversos ângulos do espaço cénico, desde a geometria variável de espectáculos proliferantes dentro do espectáculo propriamente dito, tudo amplifica o conceito de cena ou de acto, numa sobreposição de linguagens, ritmos, percussões, desfiles, acrobacias, onomatopeias e variedade abundante de outros utensílios, que um coeso e bem exercitado conjunto de jovens vai desenvolvendo em contraponto, ou eco, ou retrato simbólico das palavras ditas.
Contradições entre esta exuberância expressiva e o património, para alguns inamovível, do texto dramático? Não vi nenhumas, antes pelo contrário.
Momentos tocantes e figuras encantadas não faltam ao longo desta apresentação de Gil Vicente, inovadora, cultíssima de referências e que apetece rever.
Lembro a elegantíssima Ama, tão bela e cativante, mas tão longe da imagem usual e fácil da adúltera, que trata os amantes com a mesma serena ternura com que acolhe o esposo, homem-barco que perde seus passos no mar e deixa as naus de papel, à deriva, no palco dos sonhos.
E o reencontro com um Vaqueiro tão autêntico e vital, tão palpitante de suor e de sorrisos, que entra em nós com um entusiasmo quase épico, com camaradas que brincam e saltam e dão a deixa para a palavra esquecida na torrente da alegria emocionada.
Que dizer de Maria Parda que surge como saída de uma gravura de Goya, da profundidade fantástica duma banda desenhada ou da lonjura dum longo "travelling" cinematográfico, transfigurado o solilóquio insatisfeito de securas e queixumes pelo cortejo de ritmos e acentuações dramáticas?
A figura do Velho da Horta, para mim geralmente arrumado naquela área menos espampanante do elenco vicentino, surgiu-me inteiramente humanizado e reforçado em toda a sua pujança de figura sensível e vulnerabilizada pela paixão.
A metamorfose por excelência é a daquela pobre mulher desvairada que se transforma em árvore pronta ao plantio e regada, que desperta feita uma das mulheres mais lindas que há no mundo e vai colher flores no próprio céu, para as oferecer a um homem encantado, como só encantados e iludidos podem ser os velhos, não por serem velhos, mas por serem apaixonados.
Estas e tantas outras figuras incontáveis, apaixonadas como nós por este novo e revitalizado Mestre de Teatros que foi Gil!…
"Visitação, Farelos e Índia", pelo Teatro de Portalegre, no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 9 de Novembro de 2002
Se o leitor foi deixando arrefecer dentro de si a bela paixão pelo Teatro Vicentino, se as disciplinas de Língua e Literatura Portuguesa lhe prejudicaram a figura do grande dramaturgo ou se, pura e simplesmente, nunca teve a possibilidade de entrar muito nesse nobre assunto, "coxia central" vem relembrar o fortíssimo ciclo de realizações teatrais que trazem aos públicos de Coimbra aquela imensa figura da nosso património cultural.
A programação do TAGV vai ao ponto de oferecer, cada Segunda Feira às 18:00 horas, um encontro/conversa que se debruça sobre aspectos específicos do tesouro dramatúrgico implícito em cada peça que vai à cena.
Coimbra 2003, "uma cidade viva", apresenta o seu ProjectoVicente – celebração dos 500 anos da representação do Monólogo do Vaqueiro – que se designa como Mostra do Teatro Vicentino, até Junho do próximo ano.
Atentos, pois, a este conjunto de realizações, e ainda outras, que não se esgota com isso todo o interesse que merece Mestre Gil.
O Teatro de Portalegre, companhia profissional residente – activa desde 1979, com outra participação muito recente nesta cidade e no próprio TAGV, a peça "O Meu Caso", de José Régio, no 75º aniversário da Presença – veio agora até nós com "Visitação, Farelos e Índia".
Gente da raia, habituada a uma convivência permanente com o falar de além fronteira, traz-nos essa dimensão expressiva da cultura da época, fortemente impregnada de bilinguismo luso-castelhano.
A composição, mescla de três peças de Gil Vicente, aponta directamente para o tratamento pedagógico deste e doutros aspectos, que incluem a utilização extensiva do castelhano numa magnífica versão do "Monólogo" e noutros papéis, tirando partido duma evidente familiaridade linguística.
Em mais de que um momento o valor da voz como elemento puro de intervenção dramática nos é oferecido através dum longo grito modulado, escura ainda a sala e ausentes os seus actores.
A esse expediente de surpresa adiciona o grupo a valorização dos muitos "apetrechos" do actor, as interpolações do canto, do ritmo e das inflexões da fala que se sobrepõem aqui e ali ao discurso dramático, além de gestualidades e trejeitos intencionados, demonstrando a aplicação do bem preparado conjunto de profissionais de Portalegre.
A figura do marido enganado e da mulher desocupada e ociosa pela sua ausência (aqui primorosamente recortada por actor-homem); a felonia de empregados maldizentes, bem dispostos apesar de tudo; os exageros mal sucedidos do poltrão conquistador e o sucesso caricaturizado do namorado oportunista, a tanto monta o capital de contradições de conteúdo deste espectáculo donde todos podem retirar um valioso e bem tratado momento de convivência com a palavra do "pai de teatro" que foi Gil Vicente.
O grupo foi aplaudido por uma sala menos bem composta que o que mereceria o espectáculo, contando a plateia com um bom número de jovens destes que, nos bancos da universidade, aprofundam o seu interesse pelo tesouro da nossa dramaturgia.
III Festival Escolar de Teatro de Tema Clássico
A magia do teatro grego, aqui tão longe, aqui tão perto…
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 18 de Maio de 2002
Aquilo que me ocorre dizer a respeito de vários dos últimos acontecimentos ligados ao "III Festival Escolar de Teatro de Tema Clássico" a que tive o prazer de assistir, não caberia em 20 "coxias centrais"!…
Espero que os leitores venham a ter em breve mais detalhadas informações a este respeito, dado que a iniciativa se encontra – com a maturidade que todos os interessados lhe reconhecem – a prestar um serviço da mais nobre excelência para a sociedade escolar em particular, e para toda a comunidade culta que queira interessar-se pelo Teatro.
Entretanto, umas breves palavras sobre três acontecimentos que me impressionaram imenso, e que reflectem o precioso labor do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras e da Liga de Amigos de Conímbriga:
Um deles, integrado nas diversas Oficinas de prática teatral que o Teatro Thíasos levou a cabo, foi dirigido por Emílio Flor Jiménez, director artístico do grupo Balbo (Cadiz), em que participaram alguns dos muitos grupos de todo o país convidados para o efeito.
O Balbo é um grupo que trabalha com adolescentes e estudantes em zonas economicamente deprimidas, recupera jovens com problemas diversos incutindo-lhes autoestima e força de carácter necessários para se recuperarem para a vida.
Alguns desses jovens estiveram presentes e foi qualquer coisa de empolgante vê-los trabalhar, sob a orientação cheia de talento do seu director, com o apoio dum ex-colega recuperado da solidão das ruas, agora actor de teatro de grandíssima qualidade.
Quanto aos dois espectáculos que foram à cena em S. João de Almedina no dia 2 de Maio corrente, Electra de Sófocles e Lisístrata de Aristófanes, pelo grupo Calatalifa, meus amigos, venho de lá com os olhos rasos de admiração incontida e com o coração pleno de alegria!…
A primeira peça, uma tragédia, com versão e tradução do seu ensaiador Pedro Sáenz de Almeida, deu-nos um espectáculo de grande seriedade e imensa qualidade estética, que demonstra que é possível trazer aos jovens de hoje os valores universais do grande teatro grego, sem que isso seja um acto sacrificado de aborrecimento estóico. Tudo pelo contrário. Vi ali jovens portugueses vibrando um prazer cheio de respeito e admiração, enlevados pela poderosa actuação do grupo, rico na convicção, na postura, na palavra e na claridade lúcida com que derramavam sobre nós emoções com milhares de anos, tão novas como no dia em que foram concebidas!…
A segunda peça, uma comédia, foi servida com imenso sentido de humor e raríssimo instinto teatral pelo mesmo grupo, constituído por estudantes do Instituto de Villavicioza de Odón, que usa como seu nome o topónimo árabe da sua localidade: Calatalifa, em Madrid.
O conjunto dos dois trabalhos, apoiado por um reduzido número de pessoas e pelo seu director, ressuma genuína paixão e alegria do teatro, revela uma intensa maturidade de propósitos e mete respeito, diria eu, que é o que me apetece dizer porque não me sobram palavras.
José Ribeiro Ferreira, alma impulsionadora destas preciosas iniciativas, lamenta-se-me da quase indiferença com que o premeia o meio envolvente, o que eu confirmei pela quase ausência de gente de Coimbra. As salas estavam cheias, mas de jovens que vêm de longe, ávidos e encantados pelo lauto manjar de cultura teatral que lhes é oferecido.
Um detalhe cheio de simpatia e de generosidade pedagógica: o bilhete para cada uma destas realizações, a preços bem menores que uma entrada numa discoteca, é um livro com o texto integral da peça que vai ver-se, com comentários e notas feitas pelos respectivos tradutores.
O riquíssimo programa anda por aí, estende-se a vários pontos do país, Coimbra e Conímbriga os mais bem servidos.
Não perca tempo leitor. Aproveite, apareça, viva, se quiser, o prazer do Teatro Clássico!…
Talvez Sangue, talvez Yerma, talvez Bernarda – O TEUC no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 15 de Abril de 2002
Talvez eu leve isto tudo a sério demais, e talvez não seja a vida uma coisa assim, tão preto no branco.
Talvez tenha de me rir também uma vez por outra com coisas sérias, num país onde a única coisa que os compatriotas levam a fio de espada é não serem ultrapassados quando vão de automóvel. Tão a sério, por vida minha, que se matam uns aos outros que mete dó.
Talvez me tenha desmesuradamente convencido que entrar em Lorca é como vestir o fato da minha primeira comunhão.
Talvez, como diria um outro Cesário Verde, eu sinta "este desejo absurdo de sofrer" porque me atinge de frente o destino tremendo de Yerma, a mulher que sofreu a secura incompreensível do seu sangue, matando mitologicamente o próprio filho no corpo do marido que a não amava com ternuras de paixão.
Talvez me tenha sentido demais mulher traída pelo destino, fugindo a galope pelo plaino de vento, no dia de sangue das bodas recusadas por ausência de amor sentido.
Talvez me tenha habituado demais a ter medo de Bernarda Alba naquela casa repleta de luto compulsivo, onde a paixão incompreendida se esconde na dobra de todas as toalhas, no delírio de escuridão dos leitos escaldantes onde perdem as horas mulheres sem esperança de amor.
Talvez aqueles jovens do TEUC que ali estiveram no palco do TAGV sejam os melhores e mais merecedores de toda a universidade, aquela escola "lá em cima" onde tanta coisa se passa que também parece uma autêntica brincadeira!…
Como estavam ruborizados e vibrantes no fim da peça, recebendo abraços de amigos, de namorados, de pessoas de família.
Os mesmos, uma escassa minoria, que enganadamente se foram rir com Lorca.
Lorca não é para rir!…
Talvez eu não devesse, quem sabe, acreditar em Torrente Ballester quando ele diz que "A Casa de Bernarda Alba" é o drama formalmente mais perfeito de todo o teatro espanhol, e talvez não devesse ser este o exercício dos estudantes do TEUC, que tinham tanta peça por esse mundo enorme do teatro para exercitarem a sua vocação magnífica.
A encenação, que estava carregada de coisas interessantes em seu projecto, acabou por falhar – naquela primeira vez que foi à cena – por um conjunto de pequenos deslizes, de coisas aparentemente sem propósito, nem intenção, nem culpa formada de ninguém. O que deu azo àquela gargalhada insidiosa do público distraído, hesitante ao começo, mais contundente depois, que começou a perfilar-se por detrás de cada frase, de cada gesto, não deixando pedra sobre pedra do silêncio vertical que é uma exigência em Lorca.
Espectadores assim perdem (e roubam) o direito à tradução inteligente das palavras, à percepção sensível dos gestos dramáticos, perdem direito – enfim – às lágrimas, que são a coisa mais bela que podemos deixar numa sala de Teatro.
O paroxismo de causa e efeitos foi atingido no momento em que deveria ser mais alto o luto trágico de Bernarda Alba. A "Casa" mais me parecia um colégio de miúdas desmioladas a dançarem na tuna e Bernarda uma tia velha e chata e depois ninguém deve ter percebido porque diabo se enforcou aquela miúda que se vestiu de vermelho e que, ao fim ao cabo, até era a única que já tinha namorado!…
Tenho a certeza que aquele grupo de jovens é do mais brilhante que pode haver naquela escola "lá em cima" onde pouca gente vive com paixão séria o genuíno amor pela comunicação da cultura, das artes e da vida.
Sei (e basta olhar para a beleza intocada da sua mais tenra juventude) que têm pela frente muita paixão, muito sonho, muito teatro.
Talvez alguém leve a mal que eu não diga que era a estreia de uma peça de um teatro de estudantes, um trabalho dificílimo, uma composição dramatúrgica de três peças de Federico Garcia Lorca!…
Mas ser indulgente como crítico logo na primeira noite da estreia duma peça feita por actores tão autênticos e tão vivos, isso nunca! Seria a mais desastrada maneira de considerar o seu trabalho sério, apaixonado e generoso.
Vivam os Jovens do TEUC, viva o Teatro, viva Lorca!…
Com Tchekhov e o Fernando, num café ao lado da Sereia
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 9 de Abril de 2002
Foi há quarenta anos mais ou menos que eu vi pela primeira vez uma peça de Anton Tcheckov, que começou a guerra em Angola, e já por essa altura sujava os dedos num semanário que relatava os problemas na Palestina.
Para que não esmoreça em mim algum perfume dessa já distante juventude fui ver "Malefícios e outras virtudes do Tabaco", pelos Bonifrates, com encenação de João Paulo Janicas, e fiz muito bem, para me retemperar de uma semana alucinante de tanques de guerra rugindo e guerreiros ferozes por ruelas desérticas de cidades desconjuntadas e almas em desespero.
"Os Malefícios do Tabaco", curto monólogo de qualidade antológica, é tema de abertura deste interessante trabalho de composição dramatúrgica e derrama por sobre os espectadores a poalha de estrelas da palavra única e prodigiosa de Anton Tcheckov.
Literatura de humanidade pura, saturada de vestígios do quotidiano universal, foi-nos falada com mansidão de gestos consabidos por um rosto feito macilento que oscila entre o temor e o cansaço. Um actor de figura cerimoniosa e vacilante como o nosso próprio anseio de felicidade, vacilante e inconformado como a nossa urgência de justiça e de paz.
Fernando Taborda, um grande Senhor do Teatro, vem até nós, mais uma vez, vencer-nos de prazer e encantamento.
Eu sei bem como anda o mundo e como parece descabido este assomo de sincera admiração, face às alucinações mediáticas dos nossos dias conturbados. É vital, contudo, que os nossos olhos permaneçam bem abertos para poder ver tudo aquilo que não é nem da morte, nem da tristeza, nem da bárbara violência.
Também Francisco Paz, um actor sempre rico de recursos expressivos, nos oferece um trabalho muito difícil, repartido por dois personagens diferentemente compostos entre o frívolo expedito sem estados de alma, e o enfermo psíquico a braços com as pequenas obsessões da enorme e lastimável solidão.
Fico triste por não me sobrar espaço para falar dos outros actores, todos tão jovens, todos tão belos, de palavra tão clara e de gestos tão precisos.
Angola, viva a paz em português!…
Há quarenta anos Fernando Taborda preparava-se para combater em Angola e eu via desfilar homens fardados de kaki amarelo em ruas cheias de lágrimas. Há quarenta anos já sofriam amarguras os futuros pais das crianças que atiram pedras aos tanques na Palestina.
Há quarenta anos eram petizes os generais que na semana passada, luzidios e fardados com esmero, se abraçavam convulsivamente em Angola, prometendo a paz.
O serão, após a peça dos Bonifrates, acabou bem, num café ali ao lado de Sereia, com cerveja e todos conversando alto.
Além das bonitas actrizes e dos simpáticos actores e encenador, sentaram-se mesmo a meu lado o Anton e o Taborda. Discutimos a peça com paixão e rimo-nos imenso de certas coisas ridículas que a vida tem.
Lorca pela Escola da Noite, no Dia Mundial do Teatro
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 2 de Abril de 2002
"…Para que quiero tu alma? Me dice. El alma es el patrimonio de los debiles, de los heróes tullidos y de las gentes enfermizas. Las almas hermosas están en los bordes de la muerte, reclinadas sobre cabelleras blanquíssimas y manos macilentas. Belisa! no es tu alma lo que yo deseo! sino tu blanco y morbido cuerpo estremecido…"
Quem quer que tenha dito estas palavras, onde ou como ou a quem as disse, que importa? Certo é que, só em dizê-las, se desenha a porção mais intensa do drama sem resposta: o encontro dum corpo-só-alegria-breve e duma alma sangrando as lágrimas últimas dum desejo impossível de concretizar.
Na noite escura do palco ou no palco escuro da noite, é de mãos dadas no leito que desabrocha a flor intensa da mais duvidosa paixão: a de um homem que inventa – escondido dentro do vulto da sua capa – o próprio aroma intenso da paixão juvenil, convencendo a bela amada duma alegria surpreendente oferecida à margem dos códigos sacramentais mais solenes.
Há contudo, na frase citada, um horizonte mais alargado que se adivinha, uma percepção mais aguda que a do simples equívoco passageiro da arrogância juvenil, ou do irremediável convencimento da morte: o que me ficou, no cruzamento de luzes que a acentuação cénica conferiu a esta pequena quantia de palavras, foi um estremecimento de verdade e de autêntica decifração do peso ou do segredo íntimo da alma, estupefacta por não ter de correr mais em procura das fronteiras últimas da realidade possível.
Só na versatilidade contraditória dos poetas, nas paisagens inventadas pelos pintores ou nas arcadas agri-doces do texto musical é que existe solução para tramas tão profundas e comoventes!
Sobretudo se forem servidas pelo expediente sagrado do palco cénico, em trabalho de bom gosto inexcedível, como foi aquele que nos foi oferecido pela Escola da Noite, no TAGV, como prenda de Teatro, no dia internacional do mesmo.
Num variado cruzamento de géneros de expressão teatral, desde a farsa aos títeres, ao canto lírico, ao drama mais subtil e recolhido de intensidade poética, o trabalho em referência foi ainda enquadrado por uma exploração do espaço cénico feita com uma inteligência funcional e estética de singular efeito.
É impossível e quase ridículo acrescentar conceitos e imagens que procurem dizer mais qualquer outra coisa sobre Federico Garcia Lorca, na sua enorme compaixão dramática e na sua reverência por tudo que é feito de palavra poética.
As varandas trespassadas pela luz matinal que escondem com seu brilho os mais intensos segredos da noite, a revoada dos pássaros nocturnos que são augúrio dos amores inconfessáveis, a opção trágica duma morte auto-infligida, tudo por ali passou e muitas outras coisas, no registo duma prática artística que interliga um surpreendente amadurecimento da técnica teatral e da cultura respectiva.
Operação Tempestade no Deserto
Foram muitas as outras acções decorrentes na comemoração do dia Mundial do Teatro.
À tardinha, teve lugar em Santa Cruz uma acção de autoria do "Teatro Anónimo". As jovens artistas, exageradamente ornadas e em trajes sugestivamente "impróprios", feriram a curiosidade geral provocando todos os circunstantes com os ademanes e piscar de olhos que a nossa sociedade só tolera à noite, às escondidas, ou em qualquer outro caso digno de excepção.
Como se divertiam elas mostrando a (bela) coxa doce, e como se babavam os maduros que, salutarmente provocados, as viam.
Reparei que os jovens que por ali estavam, também se babavam muito, mostrando assim que, também eles, são convictos e apaixonados admiradores do verdadeiro Teatro!…
O Doido e a Morte, oriundos de Montemor
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 27 de Março de 2002
Tenho uma predilecção irremediável pelos heróis anónimos, por esses a quem ninguém oferece flores, ou medalhas, ou perante os quais ninguém se curva em homenagens de merecida glória.
Penso que os professores do ensino médio, esses que cumprem rigorosamente as suas obrigações (e não são todos, é bem de ver…), que insistem em acreditar piamente na turbamulta de rapazes hiperactivos para quem ninguém tem tempo, deviam ser olhados com o respeito reverencial de autênticos salvadores da humanidade.
Em Montemor-o-Velho, alguns desses professores e mais alguns funcionários públicos, esses modestos obreiros do quotidiano imprevisível – aparentemente os únicos responsáveis por todos os "déficits" deste país de nababos inconsequentes – têm formada uma companhia de teatro que procura restituir a palavra e o gesto ao reino empolgante da curiosa fantasia, lá, donde nunca deveriam ter saído.
Fui ao Inatel ver a sua versão de uma peça de Raúl Brandão, autor a respeito do qual releio algumas páginas deixando-me envolver pela nostalgia das suas dores de consciência e pela coragem confessional que atravessam muitas das suas criações.
"O Gebo e a Sombra" e "O Doido e a Morte" são monumentos da língua e do teatro que bem merecem ser renovados e revisitados, tal como está fazendo o grupo de "theatro dos castellos".
Um grupo de bravos actores, apostando toda a sua enorme disponibilidade, trazem até nós, em arranjo dramatúrgico cheio de soluções poéticas e bem conseguidas, a segunda das obras citadas.
Lida a peça há muitos anos, recordo-me sempre com o sentido de glória que o teatro sempre transmite às palavras dos actores, da fala do Doido, quando diz, com desapiedada lucidez:
"– Tu não podes chamar-te Baltasar Moscoso e existir por cima o céu estrelado!…"
Acontece que "o Doido", nesta peça vinda de Montemor, estava a adivinhar-me o pensamento e parou um instante, enfatisando, com uma pausa cheia de intenção, aquelas palavras terríveis!…
Sem saber, restituiu-me esta sensação mágica que por vezes nos transmite o teatro, de sermos personagens eternas, desfilando por entre as nuvens.
O crítico, para não se esquecer que o é, poderia mencionar talvez um ligeiro "déficit" na concepção plástica do arranjo dos actores. Mas é tão bem vista e tem tanta subtileza aquela solução da caixa bombista que é feita de luz, que tudo isso não passa de um detalhe que a fé de quem ama o teatro vai concerteza ultrapassar com sucesso, um dia destes.
O registo "clownesco" e estentórico foi escolhido pela direcção de actores, mas há nisto uma determinação condicionada pela categoria comunicativa dos próprios artistas, que tem de ser entendida.
E como devem ter-se divertido em Montemor os alunos de Matemática e de Filosofia com a figura daquele governador civil com medo, autoridade que corresponde a alguém que eles, por mais que puxem pela cabeça, jamais poderão imaginar que significado tinha aqui há mais de cinquenta anos!…
Três horas esquerdas e a memória (inútil) da utopia
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 22 de Março de 2002
De nada vale falar aos mais jovens de como era a baixa de Coimbra, há 30 anos, quando para cá vim.
E de nada vale construir na mente as utopias fáceis do coração pulsante da cidade onde todos poderiam encontrar-se, desaguando no verdadeiro rio de gente calorosamente livre, servida por portas abertas de hospitaleira luz.
Papagaios sonolentos continuarão carpindo a deserta noite, o soturno fim de semana, a pequena saudade dos cafés espaçosos, com espelhos, onde se cruzariam todos os olhares.
A noite chuvosa e fria de 15 de Março ofereceu-me, apesar de tudo, um estimulante exemplo de resistência activa às vicissitudes da razão prática: a Companhia de Teatro Marionet apresentou no Inatel o seu precioso trabalho de "Três Horas Esquerdas". Integrando dois artistas cheios da vontade e do prazer do Teatro, oferece-nos qualquer coisa entre o absurdo e o surreal, numa sucessão de quadros amparados por uma constante invenção do jogo cénico.
Os breves textos do russo Daniil Kharms, recheados duma quase tristeza irremediável, são transformados por Mário Montenegro e Nuno Pinto numa agradável sequência de quadros movimentados, espirituosos e lucidamente absurdos.
A cena divide-se entre algo imaginário que acontece do lado de cá, onde duas figuras se multiplicam nos mais variados personagens, e breves desfiles irreais que se passam do lado de lá, onde planetas luminosos se revelam e se extinguem com a fugacidade nostálgica dos seres de vida breve.
Tudo isto desfilando perante o nosso olhar a metamorfose constante de dois actores cuja inventiva dramática e cujo talento histriónico multiplica por muitos a modesta quantia de duas pessoas.
O catálogo editado por altura da actuação do grupo no TAGV afirma textualmente a intenção de nos "fazer um paralelo entre questões sociais, políticas e culturais, sobre as quais Kharms escreveu na Rússia dos anos 30 e a situação em que vivemos nós agora, em Portugal e no mundo".
É por essas e por outras que eu prefiro nunca ler os programas dos teatros antes de ver com os meus próprios olhos e ouvir com os meus próprios ouvidos.
O humor tão subtil e a caracterização cenográfica que nos oferecem os Marionet é tão longe, paira tão deliciosamente acima da nossa compacta desilusão, que é bem melhor assim, mesmo quando ironicamente configura o fantasma de alguma horrível coincidência com o real assustador.
A homenagem feita a Daniil Kharms, poeta que supostamente morreu com fome (como tantos milhões de pessoas que jamais leram uma poesia e que continuam a morrer, certificadamente, de fome), a opção em ter mantido no texto os nomes russos e a graciosidade dos desenhos do autor presentes no átrio desamparado e frio do Inatel, ficaram a pairar na minha mente como um bailado de espectros gentis.
Como será linda a Rússia dos músicos, dos pintores sacros e dos poetas!
Como será linda a Rússia dos grandes rios e das mulheres claras de rosto amendoado!
Como é empolgante a esperança grande das coisas novas e generosas e inatingíveis!
Vá lá leitor amigo, não faça caso nenhum de mim, mas por favor: da próxima vez não deixe de ir ao teatro. Quanto a isso não há dúvidas: vale sempre a pena!…
Album de cromos de riso a preto e branco, em estreia da Bonifrates
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 6 de Março de 2002
A peça “Cromos” estreada na sexta feira pela Cooperativa de Teatro Bonifrates recuperou-me de uma tarde de alguns desgostos culturais deste meio tão avaro e tão soturno duma capital de cultura que ainda não é.
Ver tanta gente, sobretudo tanta gente nova, a trabalhar em teatro com tanta alegria espontânea dá ânimo a quem tenha o privilégio de ir ver o espectáculo.
A peça apoia-se no já habitual acerto cenográfico e de encenação cujo talento é o de parecer que não existe, sabendo nós – porque vemos – que tudo foi feito com a sobriedade elegante que só a maturidade inteligente permite.
Alguns momentos (e estou a falar duma récita de estreia) roçaram o apuro formal do profissionalismo, fluindo o discurso teatral muito para além das margens do texto, na afirmação dum jogo cénico desenhado pela naturalidade solta dum grupo permanentemente renovado, que sabe capitalizar uma experiência de vinte anos de trabalho, em instalações modestas e com meios muito reduzidos.
É evidente que a peça não é de autor português, que o tipo de linguagem e o nível de introspecção não correspondem à problemática tal qual se põe entre nós, povo de dramas surdos e silêncios bem guardados.
Falta-nos o desplante blasfemo que têm na fala os outros povos da hispânia, falta-nos o destemor frontal e a inteireza de caracter de nos confrontarmos com os outros, se nem connosco próprios o fazemos.
Nós somos do sorriso enviezado, do silêncio estratégico, do “não me quero chatear”, das soluções cinzentas e do não dar confiança.
Ao português basta-lhe sonhar em ir para a cama com a cunhada. Se acontecesse, porém, não era com a irmã dela que o assunto iria ser discutido.
O pai das nossas esposas nunca terá sido gay (como é que isso se diz em português que já não me lembro?!…) e as mulheres daqui, quando discreteiam sobre questões íntimas ou problemáticas, há-de ser sempre com as palavras reservadas do mais razoável pudor.
Na energia comunicativa destes Bonifrates a apresentação dos problemas secretos e universais resulta em processo purificador porque se situa entre a consciência e a catarsis, entre o colocar e o retirar da máscara, entre o choque da surpresa e o seu desenlace revelado com humor.
O final, que recupera benevolentemente algum coração condoído de mãe iluminada, remete para uma aparição do arco-íris, poética de criaturas que não se deixaram abater por nenhum desencanto, prontas para novas contradições, novos mitos e decisivos recomeços.
Como espectador, o que me dói, é regressar mais uma vez, e sempre, àquele desarrumado ambiente inóspito no qual vão laborando abnegadamente os Bonifrates.
Sempre pela mesma escada dos fundos tento esquecer os sanitários bem visíveis e desembarco quase às escondidas numa autêntico fundo de garagem com palettes carregadas de materiais diversos, quando não com caminhetas estacionadas, em convívio difícil com uma sempre entusiástica plateia que a autoridade camarária, agora renovada, não vai com certeza desiludir durante outros tantos anos.
“Sexo, drogas & rock n’roll”, no TAGV
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 25 de Outubro de 2001
“Coxia Central” apresenta-se aos leitores do Diário de Coimbra.
Desse ponto estratégico é onde o espectador melhor observa tudo o que se passa em cena ou no écran e, caso o espectáculo seja enfadonho, pode sair facilmente antes do fim, sem ter de pedir licença a ninguém.
“Coxia Central” não tem o intuito de “ir a todas”. Prefere escolher, procurando ser cúmplice do espectador médio de Coimbra, o tal que é dito, pelo menos nas entrevistas dos actores visitantes, ser “dedicado e exigente”.
Uma coisa que está a dar são os espectáculos a uma só voz, protagonizados por artistas de televisão que fazem o “seu” espectáculo para refrescarem as raízes frente ao auditório vivo.
No TAGV, nestes últimos tempos já são três os que pude ver nessa versão. José Pedro Gomes em “O último a rir”, com muita gente, foi engraçadíssimo. André Gago em “Acerca da música”, em formato recital e com a cumplicidade de um pianista, foi um serão cheio de finura e muito menor assistência (terá sido mero acaso?!…)
Dias 21 e 22 esteve Diogo Infante com “Sexo, drogas & rock n’roll” com texto dum autor norte americano e patrocínios de mais vasta escala (a citação da marca patrocinadora no texto da própria peça não passou despercebida…) que foi, dos três, o que menos me agradou. A casa rebentava pelas costuras, e com isso se alegram sempre os amigos da palavra viva do teatro, da acção dramática rosto a rosto, em directo (que nunca é o mesmo que um reality show…).
Das cinco figuras ilustradas, três eram consumidores inveterados e outro era bêbado perdido, o único que parecia ter uma réstia de juízo dado que tinha preocupações ecológicas e com um discurso que o aproximou dum óptimo momento de burlesco desconcertante.
Outra das figuras, machão assumido, era-nos mostrado preso com algemas e tudo. Não ficámos a saber porque é que havia de ser, além de machista, recluso. Passou o tempo a fumar e a ajeitar as entre-pernas, o que estimulou gargalhadas com que a sala foi premeando o actor, às vezes mesmo antes de ele dizer fosse o que fosse.
A juventude é uma coisa muito bela e rir por tudo e por nada não se pode levar a mal a quem tem toda a vida pela frente. Eu por exemplo, depois de ter conhecido uma pessoa cuja filha lindíssima e talentosa foi completamente esfrangalhada pela droga, tenho imensa dificuldade de me rir com o tema.
Todos os factos, mesmo os mais severos, podem ser abordados pelo humor, seja na perspectiva do absurdo, do fantástico ou do surreal. Registos que a peça de Bogosian raramente atingiu, pelo menos no tratamento que lhe foi dado por Diogo Infante. Isto para não falar da falta que me fez ali a carictura do traficante ou, não podendo ser de forma nenhuma, um “dealer” já era quanto me bastava.
Ah, havia ainda um sujeito ridículo que oscilava entre o maricas e o impotente (que o que gostava era de fazer amor pelo telefone) e a finalizar um artista (dito frustrado) que afirmava desejar ser famoso e ganhar muito dinheiro, além de ser potencialmente muito vingativo, nihilista e uma série de outras coisas que não chegou a explicar bem.
Estes dois últimos, como o arrumador de automóveis, eram tão ofensivamente reais na sua vulgaridade patética, que não é preciso ir ao teatro para vê-los.
Acabou a peça, o actor viu prendados os seus dotes com muitos aplausos, e eu saí da minha coxia, com toda a agilidade, para respirar o ar fresco de Outubro.
Dom Juan de Molière pela Bonifrates, 18 anos depois
Crítica de teatro publicada pelo Diário de Coimbra, na minha coluna “conversas de pintor”
As luzes da sala já se apagaram, dando lugar à intensidade luminosa dos focos que animam o palco de vida própria, como em flutuação de sonho.
Ouve-se uma música vibrante e os primeiros actores surgem. Vêm lá do fundo, em marcha solene, até ao proscénio. No pequeno teatro de bolso em que actuam tocariam nos espectadores da primeira fila se acaso estendessem um braço e uma mão. Mas não fazem isso. Oferecem-se sem palavras à curiosa paixão de vê-los, envolvidos por aquela música sincopada quase encantatória. O espaço que ocupam na nossa mente não está perto nem longe nem acima nem abaixo de nós. Evoluem no território que reservamos às nossas concepções abstractas, reflectindo em cor e luz a imagem que traçamos de nós mesmos, dos nossos desejos íntimos e da nossa concepção do mundo.
José de Oliveira Barata, encenador de mais esta peça, reserva para os actores mais alguns minutos de silêncio expressivo. Ele, que justifica no catálogo da peça as características do trabalho feito face aos meios com que labora a cooperativa não desatou ainda a corrente das palavras que nos levou ali e conseguiu – desde já, e de forma exuberante – pôr a rolar a locomotiva das nossas emoções e desdobrar, como num escaparate de sensações, a mais aguda curiosidade de todos os presentes. É essa a magia do Teatro? Não sei nem vou explicar. Mas vale a pena pensar nisso.
Tempo para dizer, tempo para escutar e entender
Tenho visto encenações de peças do Teatro Clássico em que o espaço da palavra é reduzido em beneficio da exuberância gestual e interpretativa dos actores. Faz-me imensa pena ficar preso a toda aquela “vis dramática" e sentir que as frases cavalgam soltas sem que possa captar o seu sentido próprio, gozando ideia a ideia sentido a sentido. É com certeza uma atitude consabida de encenadores e actores, receosos de que o discurso dramatúrgico roube alento e traga o sono às plateias. Noutras encenações é a plasticidade radical de trajes e do espaço cénico que tenta aliciar a atenção, constituindo parte essencial do espectáculo. Neste trabalho da Bonifrates não é assim. Ao desenrolar do texto foi dado um tempo próprio e um ritmo ideal para que do texto nem uma palavra se perca do princípio ao fim de toda a peça O que, aparentemente, não foi difícil a
José de Oliveira Barata e a todo o excelente grupo de actores, por disporem dum precioso e imprescindível elemento de coesão no jogo cénico que é corporizado pela interpretação de Fernando Taborda. O actor está continuamente no centro de todas as atenções, repercutindo as vibrações mais íntimas do discurso dramático em acentuações de efeito diverso e sempre renovado,
À figura de Esganarelo foram reservadas contudo outras significativas responsabilidades. Ele não é apenas a personagem que faz flutuar à tona do sorriso (e até da gargalhada franca) todo o decurso da peça. Modificando e actualizando os propósitos do texto clássico de Molière está-lhe confiada a tarefa de efectuar a ponte entre o espectador atento e a figura invejável e controversa do mito de Dom Juan.
O trágico burlesco em vez da mentira do "happy end"
Transfigurando o seu rosto a partir do momento em que as contradições do seu amo atingem o limiar do insustentável, Esganarelo despede-se da comicidade quase ingénua com que nos embalara até esse ponto. Naquela brancura nova e artificial do seu rosto iremos poder projectar as interrogações a respeito já não apenas de Dom Juan e do seu mito, mas a respeito de outros libertinos, e de menos românticas libertinagens. O aplauso relaxante e o fim feliz não poderão deste modo vir connosco até que a noite se consuma num sono reparador. O alerta contra a hipocrisia massificada, planificada e cientifica, deixa a milhas de distância o engenho do sedutor de capa e espada. A consciência séria dessa opção fez com que Esganarelo, no momento em que enverga, ponta acima ponta abaixo, a casaca do seu truculento amo, transporte para um trágico burlesco a condição dos ingénuos e das ingénuas prontos a indultar não apenas os magníficos desvarios do aventureiro, mas sim todo o rol de enganos em que nos mergulham os "vícios do século".
O protagonista cavalheiresco é interpretado por João Paulo Janicas, que confere â personagem uma presença consistente e bem torneada. No discurso final de legitimação da hipocrisia diz-nos que a mesma "é um vício que está na moda e que todos os vícios que estão na moda passam por virtudes". O débito destas palavras é atirado, ao espectador com uma porção tão convicta de energia e raiva, que soa mais como um anátema ou uma severa advertência.
Dos actores e restantes técnicos digo muito pouco, quase nada, por falta de espaço. São vários os rostos bem conhecidos do grupo que de há anos prestam o seu
contributo de forma excelente. Constituem já um conjunto desenvolto e coerente, capaz de assimilar no seu seio aqueles que com menor continuidade por ali têm passado e continuarão a passar, graças ao prestígio que a companhia tem vindo a granjear como praticante de um autêntico teatro experimental.
O pintor Carlos Madeira e a cultura estética do teatro
Não é possível fazer teatro que seja digno desse nome, sem fazer de cada nova peça um adequado estudo prévio, que domine o opulento quadro de referências culturais que lhe são próprias.
As caracterizações de estilo, a escolha dos elementos de acentuação simbólica, a recusa do óbvio e a preferência pelo que é distinto marcam presença ao longo da carreira de qualquer companhia desde os primeiros esquissos que irão configurar o espaço cénico até à descoberta do último adereço.
A linha de continuidade cenográfica que tem caracterizado ao longo destes anos a Cooperativa de Teatro Bonifrates e a contextualizacão visual de cada trabalho apresentado, com produções de baixíssimo orçamento, constrangimentos de espaço etc. tem estado a cargo do Pintor Carlos Madeira. Para além da notória competência dos diversos encenadores que tem passado pelo grupo, penso ser aquele um dos elementos chave dos êxitos artísticos alcançados e por todos reconhecidos.
No conjunto das cenografias anteriores da Cooperativa é visível a intervenção do artista numa grande variedade de opções plásticas, consoante o tipo de peça, e a abordagem – com engenho e grande comunicabilidade – das problemáticas da sociedade e do mundo actual.
Pelo cruzamento muito intenso de ideias oriundas das artes visuais e da comunicação, recordo apenas o último trabalho levado à cena ("A Família Dupond") que infelizmente não foi possível trazer a estas crónicas. De autoria da Espanhola Alicia Guerra e sob a direcção de João Maria André, efectuava um "raid" alucinante ao universo da violência social e familiar, no contexto dos diversos meios de comunicação social, ao qual não era alheio a própria banda desenhada ali evidente através das referências à obra do artista galego Miguelanxo Prado.