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CONVERSAS DE PINTOR

Coimbra 2003, o sucesso inquestionável ou as raízes do futuro?

Publicado no Diário de Coimbra de 24 de Maio de 2003

 

 Comentar a CCNC 2003 é uma tarefa difícil. A quantidade de iniciativas é inatingível pelo comum dos mortais, sendo pacífica a aceitação na generalidade de que terá de ser sempre um acontecimento de vincado interesse positivo.

Numa cidade onde a gestão cultural não é tarefa especializada e se divide, descontando as eventuais excepções, em territórios de dignitários ciosos de poder, a concessão duma tal capitalidade deveria ser aproveitada para a produção de excepcionalidades, com propósitos qualitativos bem determinados e olhos postos no futuro.

Ao tratar-se de um acontecimento efémero sem experimentadas estruturas prévias, num país que insiste em colocar a tanga para tudo o que é semear trabalho, inteligência e futuro (e é aí que se situa a questão das artes e da cultura) arrisca-se a ser confundido com uma super-vereação, com anexação de eventos que ocorreriam em grande parte mesmo sem a sua espectacular instauração.

De resto, o que será uma capital de cultura que só o é depois de designada para isso? (1)

 

Os responsáveis são sempre os outros

 

Também é de levantar uma questão que não é cómoda, mas que tem interesse científico: qual é o papel do público em tudo isto? Será que a vida cultural que a cidade normalmente apresenta tem a atenção e a assistência que merece? E que atenção merecerá uma vida cultural muitas vezes construída em torno de particularismos, regionalismos, individualismos...?

Quantos serão os interessados que seguem com método e proveito o fluir de Coimbra 2003?

Se os transportes públicos não funcionam como devem, se o espaço urbano é brutalizado pelo betão e se as instituições servem mal e raramente alguém se insurge, como é que há-de um colectivo questionar actos de cultura apenas por não serem excelentes, ou porque lhes falta visão de futuro? Não será essa indolência do espírito a mesma com que se vai (ou não) ao teatro? Não será ela que acorrenta os cidadãos ao “écran” dos serões do mau gosto, que os leva a trocar uma caminhada ao ar livre pelas cadeiras estofadas do automóvel até para ir ali abaixo comprar o jornal?

O que é a cultura afinal? Em que é que ela se distingue do resto total da vida? Existirá a “necessidade da arte”? Qual é a parcela de responsabilidade que nos cabe nas capitais e nas culturas?

 

Autonomia cultural ou “deficit” de modernidade?

 

As artes plásticas, e foi isso que nos trouxe aqui, são o parente pobre de Coimbra 2003, e ponto final. A exposição do Prof. Dr. Pedro Dias, que está muito bem localizada na rubrica do Património, é o acontecimento inaugural, tem ocupado por meses a parte central de várias rotundas da cidade e teve honras de comentário na imprensa de Lisboa, pelo que nada me resta acrescentar.

A exposição do Dr. Telo de Morais é a dos coleccionadores da cidade, continuará a ser apresentada por fascículos na pequena sala do Museu respectivo e é muito escassamente anunciada. A comparação dos catálogos respectivos revela o contraste que medeia nesta terra entre a antiguidade consagrada e a modernidade adormecida, sem que esse facto indique que exista um adequado respeito pelo Património.

O CAPC é presença assídua no folheto do evento, no estilo que lhe é próprio, e as coisas do CAV não fazem parte da tal capital que insiste em permanecer fora dos mapas, porque tanto ela como o tecido envolvente fraquejam na afirmação duma verdadeira autonomia cultural.

Na rubrica Cidade e Arquitectura é onde com mais pujança se pressente algo que pode e deve ter que ver com o rosto futuro da cidade. Oxalá não fiquemos pelos sugestivos documentos de apresentação, pelo belo fraseado e pela arquinotabilização curricular dos elementos participantes, dado que a cidade prossegue por maus caminhos naquilo que deveria tocar (e não toca) à Arquitectura, “inteligência física e cultural em movimento”!...

É impossível dizer tudo em pouco espaço a respeito de Coimbra 2003, ainda mais porque o acontecimento ainda não chegou a meio e estão acontecimentos a ser anunciados no próprio momento em que escrevo estas palavras, ao mesmo tempo que outro que já estava em programa como bastante importante acaba de ser cancelado.

A CCNC 2003 parece, por enquanto, ter tomado a decisão “segura” de “fazer muito”, conforme demonstra o pletórico programa da organização. Falando no programa, ainda não encontrei ninguém que o aprecie enquanto peça gráfica e coisa consultável. Para não falar do logotipo, que me abstenho de comentar. O bom gosto neste tipo de organizações é também um constituinte definidor da capacidade de realizar, sendo pormenores como estes razão de certa perplexidade.

O livrinho das actividades do CAE da Figueira da Foz, onde algumas actividades ostentam o logotipo de Coimbra 2003 é, para já, muito mais sugestivo e claro que diversos folhetos e agendas espalhados pelos balcões de cultura desta cidade.

A cidade necessita pois, urgentemente, de uma mais generosa atenção ao seu acentuado “deficit” de modernidade, de que a sua própria imagem é abundantemente esclarecedora, para que todos os interessados e instituições possam actuar em sintonia com as aquisições fundamentais da arte criada no mundo dos últimos cem anos, que são a espinha dorsal de qualquer cultura actualizada à qual, aliás, o próprio ensino universitário público da história da arte permanece distanciadamente alheio.

 

A participação activa, um espírito que falta?

 

Uma das coisas que não requerem orçamento oneroso e de que sinto imensa falta (tanto dentro como fora da Coimbra 2003) é de acontecimentos vivos que nos tragam a palavra de protagonistas reais da arte e da cultura, que sabem das coisas e as traduzem em espécie, que são os construtores das ideias que depois muitos outros passam a vida a comentar em segunda mão.

Poderia ser filosofia e atitude da capital da (nossa) cultura uma generosidade comunicativa, discursiva e convivencial que estimulasse a intervenção dos públicos nos acontecimentos.

A palavra em atitude crítica pode ser o que diferencia uma realização plenamente cultural dum simples acontecimento de utilidade político-burocrática em concurso de bem condimentadas estatísticas.

Uma peça de teatro onde todos entram mudos e saiem calados, é tão triste! Uma exposição onde nada se diz, e de que nada se diz, é um deserto de ideias!

Onde estão os numerosos sábios desta terra? Para que batalhas se reservam? Lembrando-me das “Maçãs de Orestes” de Natália Correia, ocorre-me perguntar: “ Senhores três quatro cinco e sete, que medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque?”

Coimbra 2003 deveria desafiar com tenacidade os jovens da cidade cultural, dando-lhes ferramentas para exercitar não só nesta, mas sobretudo nas capitais do futuro.

Quanto a essa expressão provinciana e equívoca de desejar “pôr Coimbra no mapa”, quer dizer que oitocentos anos de sapiências não conseguem evitar que tudo afinal seja à medida das coisas que fugazmente existem ou apenas parece que existem, como ingénua esperança ou objecto desejado que não sabemos se é real.

 

(1) Ler “Coimbra e a procura da paisagem”, de Jorge Gaspar, in “Coimbra”, edição do CAV, Encontros de Fotografia, Fevereiro/Março 200
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