Mão cheia de recados para os estudantes da Faculdade de Letras
Por Costa Brites /estudante da FLUC
Publicado no Diário de Coimbra em 7 de Novembro de 2002
O meu artigo de 18 de Junho do corrente a respeito do funcionamento da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra foi citado em discordância pelo Presidente do Conselho Científico daquela faculdade, no discurso de tomada de posse, no dia 3 de Outubro.
O facto, que me foi gentilmente dado a conhecer pela referida entidade, revela que há pessoas e ideias que germinam no interior das instituições – neste caso a FLUC – e que contrariam o panorama pessimista que eu tracei no artigo referido.
Oxalá que sim, que a nave não se vá lentamente afundando, até ao ponto de ser a dura realidade das evidências a gritar bem alto o "basta" de uma enorme insatisfação.
A FLUC é uma importantíssima Escola e guarda no seu interior a complexidade de memórias diversas, inatingíveis por outros processos que não sejam o de abrir as suas portas aos homens e mulheres do futuro, dando-lhes o ânimo e a capacidade de enriquecer e divulgar esses patrimónios de forma livre e produtiva.
Se o Plano Estratégico da Faculdade de Letras que mereceu aprovação unânime do Conselho Científico de 27 de Setembro puder chegar às metas que designa, não pode haver dúvidas que transfigurará de forma profunda e excelente um panorama de horizontes diluídos pelo manto espesso de neblinas diversas.
Na extensão limitada que estas intervenções jornalísticas sempre têm ficou-me muita coisa por dizer no artigo de 18 de Junho. E há uma mão cheia de recados que não gostava de manter na gaveta por mais tempo, ou seja, aqueles que se dirigem aos outros principais responsáveis pelo destino da FLUC: os seus alunos.
A praxe, o que quer que seja
Passando há dias por um pátio universitário, alargava-se em círculo um grupo de jovens mulheres, ou meninas estudantes, conforme preferirem. Tudo seria normal se no meio delas, por terra, não se acocorasse meio estendida no chão uma outra estudante, eventualmente manchada pela "vil" condição de "caloira".
Celebrava-se daquele estranho modo, mais um, para mim incompreensível "ritual de humilhação", peça integrante dessa confusa e fragmentária mitologia a qual chamam "praxe".
Tolerância, paciência ou um enorme desejo de sofrer seguirão aquela jovem aluna por mais alguns anos. A praxe poderia servir até como prática iniciática ao funcionamento imprevisível e contraditório da Escola – metáfora do país – naquilo que têm de menos bom, mas receio bem que nessa condescendência forçada estejam amassadas a submissão moral e a indiferença cívica que alimentam o "deixa andar" e o "quero lá saber".
Queria trazer-vos, por isso, alguns recados simples:
Apreciai o melhor possível a liberdade fugaz que a juventude vos oferece sem deixar escapar esse perfume raro que se esgota, para tantos, à entrada da idade adulta, mas sem deixar de pensar e valorizar o dia com aquisições seguras, com uma genuína vontade de aprender algo daquilo que pode não vir nos livros.
A universidade universidade, e a universidade negócio
Não permitais que a Escola se degrade sendo vós cúmplices desse processo de desvalorização, desencanto e corrompimento.
A universidade não é só para vós. Pensai já agora nos vossos filhos e filhas, salvaguardando também para eles a Escola de que disfrutais, para que permaneça coisa de todos e para todos.
Se as licenciaturas em vigor se desvalorizarem paulatinamente, como parece acontecer, para passarem a ser cursos pouco mais que médios, obrigando todos à dita mobilidade dispendiosa, e aos complementos inevitáveis de pós-graduações e de mestrados de muitas centenas de contos, pode muito bem ser que muitos dos actuais universitários não tenham dinheiro para pagar aos filhos aquilo que os vossos pais puderam oferecer-vos: uma "simples" licenciatura", que nem sequer dá direito a emprego.
Deveis aprender a diferençar os mestres que poderão ser vossos aliados nessa difícil tarefa, premiando-os com o estímulo do vosso interesse e do vosso amor pelo saber. Dando-lhes razões para que vos estimem e vos respeitem como estudantes e como pessoas. Ajudando-os a perceber que, também eles, não devem deixar de lutar pela Escola.
Quanto aos mestres que não são bons, ou que não se envergonham de ser maus, deveis com a mesma frontalidade e coragem fazer-lhes ver, como num espelho, a imagem real do seu egoísmo e da sua mediocridade.
Todo o funcionamento da Escola vos diz respeito, e estais nela para cumprir deveres exigindo direitos próprios. Todas as portas que se fecham ou as portas que não se abrem, os maquinismos obsoletos que fazem rir quando não fazem chorar vos dizem respeito.
A falta de higiene nas casas de banho é coisa tão vossa como o mau funcionamento de alguns institutos, o encerramento e a inoperância de outros, o desleixo e desactualização dos materiais, etc.
O desrespeito pelos horários e todas as outras faltas de cumprimento podem e devem ser questionados por vós, como cidadãos cumpridores e honestos que tendes a obrigação de ser, exigindo que todos o sejam igualmente.
É muito importante também que se apercebam das manobras concertadas de certa manha instituída de quem quer valer-se da vossa própria voz, de certa determinação de aprendizes de políticas e de poderes, que começam a surgir com a vossa complacência, descaradamente alheios a tudo o que vos é essencial e do vosso interesse.
Rapazes fotogénicos que adornam já primeiras páginas de jornais e faladuras televisivas, e que da mesma forma que conduzem agora lutas que só eles percebem, mais tarde saltarão lestos para o comboio do poder, quem sabe para ajudá-lo a cortar apoio às universidades e assessorar ministros de novas austeridades.
Ficai atentos com toda a lucidez, toda a coragem e o necessário sentido de intervenção, porque nessa área tudo o que acontece, só acontece porque o colectivo adormece e se demite.
Com festas e bolos…
Quanto ao sentido hipnótico dos festejos (das tradições…) que se afirmam cada vez mais industrializados, orquestrados como bons negócios, é bom que penseis:
Não estará a vossa Escola a tornar-se um pretexto para aproveitamentos medíocres e duvidosos, no seio de uma sociedade sonolenta, de instituições cúmplices que não cuidam, nem vêem nem avaliam, e de famílias perdidas em serões televisivos de grande audiência e no "tenho muito que fazer" e no "não quero saber das coisas dos estudantes para nada"?
Não estará a Academia e a Cidade e a Escola deixando que se instale uma enorme máquina que progressivamente toma conta, se assenhoreia e explora uma juventude entregue a si mesma, sem ter noção para onde navega, tolerantemente submissa e encantadamente alienada?
Não seria tempo, passados todos estes anos de democracia, que a Festa fosse mais essencialmente dos alunos estudantes, mais chegada a valores positivos, à cultura, ao encantamento juvenil e à beleza da idade, e não tanto um negócio de moda, de alcoóis à bruta, de mau gosto à descrição, de gente alheia a tudo que deveria ser a memória dos valores que valem, porque não se resolvem e esclarecem no oportunismo do barulho e dos patrocínios?
Direi a cada um de vós para terminar por esta vez, aquilo que me apeteceu dizer à menina acocorada no chão, naquele dia de outono universitário:
–Levanta-te e caminha! Ninguém te obriga a rituais de humilhação, que camaradagem nenhuma vale, nem amigo nenhum merece!…
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