Costa Brites  
 
               
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O caos sem razão, ou a questão do canudo

Por Costa Brites / estudante da FLUC

Publicado no Diário de Coimbra em 18 de Junho de 2002

 

O artigo de Paulo Archer, de 11 de Junho passado, sobre o estado do ensino superior, não pode ser mais claro.

O discurso evidencia, naturalmente, a matriz de natureza cultural do seu autor, não lhe faltando porém a contundência das muitas coisas que ouço dizer quotidianamente nos corredores da FLUC, por outras palavras, a tantos estudantes perplexos e insatisfeitos.

As palavras de Paulo Archer foram concebidas para um mais largo âmbito que o que diz respeito à situação que venho referenciar.

Aplicam-se no entanto ao caso vertente e soam – pela lucidez penetrante de todas as imagens desenvolvidas no seu artigo – ao grito urgente e necessário, em cujas ressonâncias é evidente a noção dum certo desespero: o dos tripulantes lúcidos duma nave que se afunda, rodeados duma multidão de espíritos que se abandonam à indiferença cúmplice ou ao oportunismo sem vergonha.

Se digo isto, peso as minhas palavras. E não excluo ninguém da responsabilidade respectiva, pela força das evidências que já compulsei em poucos anos de universidade e muitos mais de diálogo crítico com abundância de interlocutores.

Não excluo ninguém, e especifico: reitorias, cátedras, assistências, secretarias, conselhos de pedagogia ausente e de directoria ineficaz, pseudo-estruturas académicas – plataformas de lançamento de carreiras político-partidárias que nada têm a ver com a universidade, com os estudantes ou com o ensino, seja ele qual for.

Nem me excluo a mim, claro, e é por isso que aqui estou, na qualidade de estudante interessado e de cidadão sem poder que paga os seus impostos e propinas, atempadamente.

 

Ser ou não ser doutor, eis a questão!…

 

Estarei antes de mais, como Paulo Archer deve estar, preocupado com o destino dessa escola de cujo prestígio ninguém parece cuidar, levando no bojo escuro duma terceira classe sombria uma multidão de jovens ainda assim esperançados na vida, e tão fracamente apoiados e tão mal considerados pela generalidade das estruturas da instituição que frequentam.

Estamos numa sociedade que consagra a licenciatura como chave de entrada para um sem número de situações de benefício socio-profissional. Ser doutor é o fermento mínimo para que o pão levede nos arcazes em que se amassam situações, posições, competências e até o poder, o maciço e cortante poder se nutre dessa escala base de referenciação: se és doutor sabes, se não és doutor não sabes nada!…

É-me impossível, para além do que Paulo Archer formulou no seu artigo, avançar qualitativamente noutra configuração que o assunto concerteza mereceria, relegado que está para um plano de confidencialidade estranha e congelamento mediático. Silêncio por certo útil para muita gente, e continuo a não excluir ninguém no pressuposto de conveniências inconfessáveis que se dão as mãos no marasmo de tão confusa empresa.

Iria tão somente alinhar algumas referências quanto à enorme falta de consideração e de respeito humano e de cidadania que espera os jovens estudantes candidatos à faculdade onde me encontro matriculado.

Logo no início do ano um tormento de esperas e determinações confusas condena milhares de alunos desta universidade aos padecimentos duma burocracia obsoleta e miserável.

Não me venham dizer que estamos na Europa e que para ser doutor é necessário sofrer as penitências rituais de esperas de horas sem fim em bichas sem sentido num século de já velhas cibernéticas e de propaladíssimos avanços informáticos!…

A marcação dos horários e das turmas é outra praxe feita uns anos duma maneira outros anos de outra, em que já se insinua a manha de alguns perante o desconhecimento de outros, como se fosse o destino a bater à porta de cada futuro doutor, avisando que este mundo é "naturalmente" feito dessa argamassa de ultrapassagens subtis e casualidades da "sorte".

A coroar todo o processo, a obrigatoriedade subtil de depender duma entidade bancária para dispor dum simples e elementar cartão de estudante "universitário"!…

Onde contudo se trava a batalha contundente é na frente professoral. Exceptuando alguma espontaneidade comunicativa que é notória nalguns casos excepcionais, o professor não é, infelizmente, um aliado natural em que possa repousar a confiança e o desejo de integração do aluno.

O professor é entendido geralmente como uma entidade que sobrevoa, a grande altitude, o comum dos mortais. Não é um profissional como os outros. Não tem que respeitar horários. Escreve os sumários se quer e quando quer. Dá bibliografias de cima dum altíssimo plinto de sabedoria sem atender à atingibilidade dos livros em si, muitas vezes adquiríveis apenas para quem possa importá-los do estrangeiro, esgotados nas livrarias portuguesas ou entregues à prateleira ignota e inatingível dum instituto ou duma biblioteca, geralmente fechados na altura mais propícia a serem consultados.

O programa das cadeiras consta duma folha inscrita no Guia do Estudante, obra que a Universidade não oferece a nenhum aluno pagante de propinas. Mas não consta de mais coisa nenhuma, porque ninguém avalia se foi dado todo, ou em parte, ou de que modo foi dado.

Em certos casos de certas disciplinas parece-me corresponder ao embrulho daquela mercadoria onde vamos ver as características dum produto, sem saber ao certo o que vale, ou de que matéria é realmente feito. Dito isto já muito fica dito, mas muito pouco para o que fica por dizer!…

 

Dois semestres de aulas não fazem um ano – nem lá perto!…

 

Qual o número de tempos lectivos que foi "dado" este ano?

Alguém fará uma pequena ideia do número de faltas deste ano, na FLUC ?

Do número de aulas "dadas", qual a sua extensão em minutos de atenção qualitativa, duma das partes ou da outra? Se uma aula dura duas horas e começa três quartos de hora depois, quanto fica de aula? E se ela tiver começado rigorosamente à hora certa (o que é uma coisa que poria toda a gente a rir à gargalhada nos mil anos de aulas que contam milhares de alunos juntos) quanto tempo fica de aula se ela acabar meia hora antes, mais coisa menos coisa?

E as faltas a que as "estruturas académicas" foram "obrigando" (ou "oferecendo") ao colectivo de alunos e professores e demais funcionários?

E a república das tradições académicas tão catita e tão gaiteira, que manda mais que tudo e se está marimbando para o espírito de quem anda ali para ensinar, estudar e aprender?

E o que resta depois disto e são férias de Natal e Carnaval e Páscoa, e pontes devido a feriados ocasionais congeminados pela malta aliada aos professores, ou que estes aproveitam com pretexto naqueles?

Haverá alguém neste mundo que em favor do bom nome da escola faça alguma ideia de como trabalha esta máquina zonza que se despreza tanto a si mesma que não valoriza o tempo, nem o método, nem a continuidade, nem o simples e essencial brio da profissionalidade pedagógica?

 

Sofrer até ao fim

 

As aulas acabam com matéria dada às pressas até ao último minuto, em improvisos e omissões em que algum discurso final de autojustificação não vale a má consciência de ter de fazê-lo. A marcação dos exames e frequências é célere como um raio, as datas alternativas não existem em sentido prático e conveniente para quem quer preparar-se algo melhor.

Mas ao fim e ao resto tudo acaba em bem.

Os rapazes e as miúdas lá vão fazendo cadeiras, os canudos lá vão sendo entregues às dúzias e aos quarteirões, o sal e a pimenta de algum desgosto classificativo lá vai dando sabor à gesta estudantil mas nada, absolutamente nada, ressalta dum enorme sentimento de desnorte sem nexo, sem coesão mental e cultural que acontecem neste caso como nos casamentos de conveniência: esses, como o amor, virão depois!…

 

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