Costa Brites  
 
               
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A ponte, miragem transfigurada

Nota surrealista publicada no Diário de Coimbra em 16 de Março de 2003

(a respeito do impasse em que encontravam as obras da Ponte da Santa (Europa) Clara?

 

 

Estando a ponte encalhada em contradições de custosa solução, é meu parecer que poderia constituir-se como monumento útil e surpreendente.

Haja a coragem de erigir o disparate como façanha ou superlativo da imaginação, assumindo-nos como diferentes naquilo que podemos, exibindo a capacidade de entender o absurdo e de o colocar à altura da própria realidade.

A ponte deveria, pois, ser concluída o mais possível, com tabuleiros discordantes que se encontrem algures, ou que não se encontrem de todo, dando passagem para o vazio, entendível como poética monumentalização da infinitude.

Todas as verbas milionárias que se destinam a emendas que se poupem para uma nova ponte, mais bem planeada e localizada, ficando esta como espaço milagrosamente liberto de armas de destruição maciça (os automóveis, é bem de ver) e como lugar de passagem para o convívio entre as pessoas, onde os enormes tabuleiros vazios podem ser reservados para tudo e mais alguma coisa. Verbenas, romarias, “pic-nics”, festivais, “manifs”, instalações, “happenings”, representações, que sei eu?!...

A decisão, completamente inédita e radical, metáfora de todas as coisas sem continuidade nem solução, proporcionará o lançamento do nome da cidade para além de todas as fronteiras, e surreal descanso para todas as congeminações de culpabilização, inquéritos e indagações, que são pátria inútil de gente zangada, com complexos e sem a mínima graça.

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