Costa Brites  
 
               
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Carta enviada para o Diário de Coimbra, e publicada não sei já quando, há mais de 15 anos

 

Resposta ao meu filho

 

Muitas são as cartas publicadas no Diário de Coimbra que dão nota do descontentamento que atinge os conimbricenses por verem a sua cidade tão mal estimada, crescendo de forma tão anárquica, tão longe daquilo que muitos desejariam e de que todos certamente gostariam….”

“…Todos os dias vêm a lume notícias com projectos opíparos de desenvolvimento espectacular, e o triste cidadão pagante – angustiado pelo acumular de erros que o presente transporta do passado para o futuro, com o respectivo e implacável agravamento do estado das coisas – vai cruzando os braços, esquecendo que também a sua opinião tem poder.

Surge, com a razão dos simples, o direito às seguintes exclamações:

– Tanta gente nesta terra que viaja! Tanta Autoridade, tanta Competência a ir "lá fora", ver como é bom e bonito o viver organizado, dimensionado, limpo, seguro e racionalizado! E nada disto chega até nós?!...

– Até quando teremos que ir suportando anestesiadamente o bacoco "urbanismo do mestre de obras", até quando teremos de ir contemplando Coimbra de longe para podermos acha-la bonita, até quando a acumulação irracional do cimento armado, até quando a segregação fatal da inteligência ( e até da legalidade!...), até quando as crianças sem espaço livre para brincar, até quando as ruas sem conforto nem segurança, até quando a morte do verde, até quando o lixo e a lata invadindo os passeios (onde os há!...), até quando, até quando, até quando?...

Perguntáva-me um dos meus filhos, há tempos:

– Achas que não há remédio para isto, papá?

Com algum esforço, e para não deixar o rapaz mergulhado num justificado pessimismo (que nele próprio se instala, pela observação mínima dos factos) lá lhe disse por palavras simples a mensagem final desta carta, que aqui deixo, com votos de felicidades para a Cidade de Coimbra:

– Olha Meu Querido, as soluções fáceis, não existem. É preciso que todas as pessoas ajudem. Com a opinião e a sensibilidade para as coisas, também se pode colaborar. As pessoas não podem cansar-se, nem desistir. Quando tivermos direito, temos que reclamar. Quando tivermos razão devemos falar. Se tivermos poder, devemos intervir – cada um na medida das suas possibilidades. Os homens maus e egoístas tem que ser desmascarados. A estupidez tem de ser denunciada. As melhores soluções têm de aparecer à luz do dia e defendidas. Se todos os homens dedicarem o melhor da sua boa vontade, é possível avançar um pouco. Se deixarmos crescer o que está mal e não exigirmos mudanças para melhor, as coisas não cessam de piorar.

Com instituições deficientes e cidadãos adormecidos, triste é o futuro da sociedade.

 

José da Costa Brites

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