Costa Brites  
 
               
início pintura azulejos critica de artes blogs critica de teatro biografia contacto
 
 
< voltar

O Guindaste

Publicado no Diário de Coimbra na altura da ocorrência

 

Desabafo de um vizinho à beira de um homem desesperado, empoleirado em cima dum guindaste!...

O desespero tem as mil e uma faces do drama e da comédia, mesmo não sendo uma forma de expressão artística.

Se excluo tratar-se de uma forma de arte, é por respeito pelas pessoas arrastadas por qualquer forma de indignação até ao ponto de enfrentarem o mundo com o sentido de ridículo que a todo o ser humano deve doer mais do que uma vulgar dor física.

Como acontece noutras ocasiões, o espectáculo irá ter lugar sem que se diga uma palavra sequer sobre algo que também tem a ver com toda esta situação e que, de certa forma, também faz parte do drama.

A obra que está em causa veio parar aqui no meio desta pseudo-urbanização onde resido e é uma barbaridade urbanística de todo o tamanho!...

O urbanismo é uma ciência destinada a arrumar cidades ou partes de cidades, de forma que as pessoas vivam o mais felizes que é possível e as actividades humanas nelas possam decorrer de forma harmoniosa, produtiva e adequada aos mais variados interesses: económicos, culturais, técnicos etc.

Depois de colocada aqui esta brutalidade de cimento (um autêntico “bunker” com uma muralha de pedras que até mete medo) que rouba à vizinhança todos os centímetros que nela restavam para que aqui se pudesse viver com um mínimo de conforto ou sentimento de liberdade, virão logo depois os seus utentes e funcionários e doutores e presidentes que, ao que parece ao observador menos avisado, terão belamente os já muito exíguos passeios à volta para estacionar.

Na traseira do prédio onde moro, inicialmente propriedade dos lotes a construir, e feito beco camarário por artifício de manobras pouco claras, o "bunker" não foi menos egoísta e abusador que noutros aspectos. O espaço disponível foi cortado ao centímetro e, contrariamente ao que acontece com qualquer edifício público ou particular, de passeio, nem um palmo!.

Sobre todas estas coisas e sobre a esmagadora ocupação do solo urbano disponível fecha esta Câmara o mesmo olho gordo e preguiçoso que a outra de antes usou para aprovar o projecto.

Pobres crianças que aqui (não) brincam! Pobres velhos (ou novos que vêm a pé), lá terão que se medir com os brutos dos automóveis, que ficam donos do espaço todo!...

Numa cidade moderníssima, capital de não sei quê, um beco camarário sem passeio dum lado, nem passeio do outro, então é ou não é uma pseudo-urbanização?

Ainda não são horas de me deitar, o homem a quem ainda não pagaram lá continua em cima do guindaste e eu não sei, com franqueza, que sonhos arrebatados me irá trazer este vizinho aflito, filho enregelado desta longa noite de desespero.

 

Costa Brites, morador na Rua Vitorino Nemésio, 20:22 h do dia em que um homem se candidatou a naufragar num guindaste

< voltar