Publicado no jornal “O Trevim”, da Lousã
suplemento cultural “Alicerce”
Sobre azulejos
A relação que os portugueses têm com o azulejo decorativo é da maior familiaridade. Todos temos uma ideia particular do que significa e de qual o efeito que produz se colocado numa parede seja qual for.
Perante o grande número de pessoas que frequenta igrejas ou visita monumentos, fica descrito um quadro de relações marcado pelo sentido de prestígio e de dignidade estético-simbólica.
Para sublinhar a representatividade desse singular apetrecho das nossas artes decorativas falta mencionar o espaço que lhe é dispensado em museus, a importância de estudos e publicações que alimenta, não olvidando a realidade económica que a sua produção representa, o número de trabalhadores envolvidos, o volume de negócios, etc.
Num jardim público ou nas paredes duma vivenda particular, olhamos do longe aquela mancha azul e branca ou de colorido variado, e sempre nos parece bem, tal a vivacidade expressiva que comunica ao espaço envolvente.
Peças antigas ou modernas, umas bem estimadas outras arruinadas pelo passar dos anos, umas de bom fabrico e outras de evidente mau gosto, não são iguais na sua concepção e no seu valor intrínseco.
Se nos aproximamos da tal mancha colorida, se a olhamos de perto, é fácil reconhecer as diferenças entre os trabalhos realmente merecedores de melhor atenção e os outros, destinados de preferência a serem vistos de longe…
Desafiamos portanto o leitor a efectuar esse exercício de classificação observativa, e esse saboroso esforço de crítica construtiva. Olhar de longe primeiro, olhar de perto depois, se for possível. E fazer um juízo pessoal que coloque a obra no nível merecido de consideração.
A defesa dos patrimónios culturais é um assunto que fornece as mais acesas declarações, onde a pessoa que fala tem sempre razão pelo que diz, mas nem sempre tem razão pelo que faz.
Aqui como noutros sectores da vida pública o discurso teórico tem a reprovável tendência para se transformar numa cortina que oculta uma prática de teor radicalmente oposto.
O património vivo, o das memórias ainda actuantes no gesto criador dos artistas é tanto ou mais raro e valioso que o das pedras falantes dos monumentos antigos e quer as entidades públicas quer as pessoas particulares, individuais e colectivas, deveriam estar atentas a essas fontes de entesouramento de valores perduráveis.
Um espaço ou uma parede vazia não valem o mesmo que outros onde se aplique uma obra com valor artístico sensível. E desse esforço de valorização ganha o individual e o colectivo, conforme se prova por toda a tradição da cultura dos povos.
Costa Brites
Dezembro de 2003
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