Costa Brites  
 
               
início pintura azulejos critica de teatro blogs escritas biografia contacto
 
 
< voltar

Pintar azulejos, porquê?

 

No pátio interior da casa da Rua do Largo de Camões em Leiria, onde vivi até aos 10 anos, 3 depois de ter perdido meu Pai, havia uma barra de azulejos com desenhos geométricos, de composição raríssima, de que nunca mais me esquecerei. É como se estivesse a vê-los agora, e a sua memória faz vibrar em mim o diapasão agridoce dos mais variados sentimentos. Se é essa sensibilidade que persigo agora ao pintar azulejos, não sei ao certo, tal é a variedade de recordações que acordam em mim esses quadriláteros cerâmicos de vidrado colorido, que recobrem paredes de casas e jardins, com a mesma luminosa vibração com que neles se reflectem os ecos de visitas feitas, de passos perdidos, e de palavras há muito, muito tempo esquecidas.

O gesto dos pintores de painéis de azulejos torna-se ágil e fluente devido ao exercício intenso da vontade e do gosto, o que não permite adivinhar as dificuldades de que se reveste. Um conjunto de azulejos acabados de pintar, com suas cores de pigmentos baços e tonalidades cromáticas desviadas do seu real valor, é como o segredo nupcial das noivas escondidas pelas religiões distantes. Só depois do sofrimento e da metamorfose será possível conhecer-se a surpresa do encantamento ou a desilusão do insucesso. O rigor do fogo e o afinar de temperaturas há muito conhecidas irão revelar a verdadeira face das novas cores, trazer à luz a interacção dos pigmentos, desfazer aqui uma ou outra expectativa, quebrar ali algumas peças.

O exercício cerâmico é, para o pintor de quadros sobre telas, aquilo que para o piloto de aviões é o voo por instrumentos: habituado a navegar à vista, é maior o risco e diferente a forma de alcançar o seu destino. A arte contudo é una, e igual o sentido da inovação e da descoberta.

Se os gestos do pintor são quase identicamente os mesmos, idêntico e tão intenso será o olhar com que nos contempla o gesto pintado, em pleno centro do rosto revelado da pintura.

 

Costa Brites

Juncal de Porto de Mós, Março de 2 000

 

Texto inserido no catálogo da exposição realizada pelo 2º Encontro dos Professores de Filosofia do Distrito de Leiria, no castelo de Porto de Mós

< voltar