Um painel de azulejos para as terras do fim do mundo
Publicado Diário de Coimbra em… de 2005
O meu amigo Ernesto Insua tem o privilégio de viver mesmo ao pé do fim do mundo. É galego de Finisterra, e assume com sentimento e sensibilidade cultural o facto de ser duma região cujo nome traz memórias de tragédia e assusta o visitante que não conhece a sumptuosa paisagem e a paz das suas enseadas de mar adentro: é a Costa da Morte!…
Lugar de muitos mistérios vividos e de muitos outros inventados comunga desse património lendário dos sítios dos quais se diz que ali a terra acaba e o mar começa. Quando ainda não se tinham consolidado fronteiras nesta parte da Europa, foi ali porta de entrada de santos e piratas, invasores ferozes e muitos viajantes marinheiros.
Do concreto conhecimento que Ernesto tem de Portugal, uma coisa lhe prendia a atenção: na sua terra não havia ainda ninguém que se tivesse lembrado de mandar executar um painel de azulejos, esse jeito tão nosso de revestir paredes e cativar imaginários.
Foi em conversas de serão que surgiu a ideia de fabricar essa última coisa que não havia ainda no seu acolhedor hotel rural, finamente instalado em residência antiga de família.
O painel era para uma parede de pedras de granito à ilharga do belo jardim, no extremo dum pórtico, virado para o poente ou seja, para o lado do grande cabo que assinala o fim das peregrinações, sítio mágico de onde se vê o Sol mergulhar no mar longínquo.
Ernesto foi idealizando o seu imaginário painel e eu tomando notas, sem me importar se iria ser possível ou não colocar lá todos esses fins do mundo, essas figuras e céus testemunhas de tanta lida e tanto querer.
Meses depois, com cartas e visitas pelo meio, vejamos então o que já lá está, para durar anos e anos, colocado na parede e olhando para todos os hóspedes e visitantes:
O elemento central é uma rosa dos ventos, objecto simbólico distribuindo o nosso olhar em direcção a quatro paisagens de outros tantos “fins da terra”: Cabo da Roca em Portugal, Lands End na Cornualha, La Pointe du Raz na Bretanha, e o Cabo Finisterra, ali ao pé, na Galiza.
Ao centro, num globo terrestre, aparece a visão distante e sugestiva “do outro lado do mundo”, sonho e destino de vida de tantos milhares de galegos: o continente americano.
À esquerda, em cima, o “painel do peregrino” ostenta a concha de vieira como referencial simbólico, dá-nos conta da proximidade e convivência entre o mar e a serra que o país galego tão abundantemente nos oferece, e da sua enorme componente rural de que o “hórreo” é um adereço insuperável.
No lado superior direito, pairam acima de Land’s End desenhos inspirados na arte rupestre galega, sinais antiquíssimos que sugerem barcas e seres que entendi inscrever no céu, à distância das coisas mágicas e indecifráveis que estão na mais remota memória dos homens.
Em baixo, de ambos os lados da Pointe du Raz, alusões à fauna marítima no seu espaço submarino e à presença das mulheres como protagonistas fundamentais do hercúleo combate travado entre mar e homens na conquista do sustento diário.
Aparece também o indispensável perfil duma traineira que, por sinal, também faz parte do meu imaginário infantil, vivido muito perto do litoral com barcos, mar e pescadores à vista.
Como envolvente dessa variedade de temas foram utilizados grafismos inspirados na arte Celta, cultura referível às áreas geográficas desses quatro grandes Cabos. Isto, em jeito de cercadura, elemento presente em grande quantidade de painéis de azulejos, agora utilizado de forma muito livre, para aglutinar ideias de difícil conciliação visual.
A tradição do azulejo artístico português está pois, a partir de agora e por obra minha, presente em Finisterra, por decisão de um galego amigo e conhecedor das tradições culturais da nossa terra.
Honra seja feita a Ernesto, galego das sete partidas que já foi às Américas vezes sem conta mas que não deixa de olhar Portugal com carinho e atenção de todas as vezes que o visita!...
ARCO 2005, crónica duma peregrinação anunciada
Publicado Diário de Coimbra 23 de Fevereiro 2005
Para os interessados nas artes, com maior ou menor nível de envolvimento profissional, há um fenómeno que tem adquirido nos últimos vinte anos, como nenhum outro, o carácter de acontecimento altamente interessante e, por isso, frequentável.
A ARCO, feira das artes de Madrid, lá pelos inícios de Fevereiro de cada ano, recebe a visita regular de um contingente numeroso de portugueses que, envolvidos na multidão de outros visitantes, ali vão dar fé de “como vão as artes”, de quais são “as modernas tendências” e do que é que “está a fazer-se lá fora”.
A cidade de Madrid, com uma enormidade de recursos variados, sempre cobre as eventuais insatisfações que o acontecimento em si possa suscitar, explorável de modo superficial no decurso de uma só tarde muitíssimo fatigante.
Tratando-se de uma feira, por isso com intuitos mercantilistas, não deixa de evidenciar um imenso apoio institucional, o que se harmoniza bem com a invulgar energia que os espanhóis colocam nas suas organizações.
O certame, como justaposição de galerias de todos os géneros e proveniências, oferece um caleidoscópio confuso e excessivo de experiências as mais desencontradas, convivendo em dois largos pavilhões obras dos autores mais consagrados com outras de cuja real valia temos todo o direito de duvidar.
Gozando do privilégio de poder fotografar ou filmar todo e qualquer objecto exposto, tem ainda acesso o visitante a editores de obras de carácter artístico, além de representações institucionais como departamentos de cultura de diversas autonomias espanholas, etc.
A ARCO, um marco que se afirma no “nosso” horizonte cultural
Ao fim de vinte e tal anos de participações portuguesas (o que corresponde à atribuição de subsídios de parte do estado, em condições cujo detalhe desconheço) julgo que era tempo de começarmos a ver também resultados, ecos ou aproveitamentos activos de definição e reforço de um comércio artístico de iniciativa própria.
Têm surgido, e são conhecidas, certas iniciativas ao longo de todos estes anos, ao nível de Lisboa e Porto principalmente, nenhuma contudo do género e da pujança que é patente na ARCO, nem ostentando o grau de continuidade que a mesma tem afirmado.
Não haverá entre nós interesse que justifique alguma dedicação a assuntos deste tipo?
Existirá ou não alguma conveniência em estruturar um mercado das artes autónomo, pronto estimular e satisfazer inclinações, carências e aspirações que nos são próprias?
Um interesse artístico que apenas sobrevive
Segundo referências mais que evidentes é abundante o número de agentes artísticos interessados em adornar o seu curriculum com uma presença na ARCO, onde coleccionadores portugueses vão para adquirir obras de artistas nossos e em galerias da mesma nacionalidade.
O facto denuncia, a nível da iniciativa privada, que o nosso meio não é capaz de gerar suficiente dinamismo para pôr em marcha as suas potencialidades, que um simples ensejo de compra “lá fora” começa a gozar de certo apelo e constitui teor de certificação de qualidades que entre nós ninguém ousa, ou deseja, ou pode colocar em evidência.
A nível das instituições públicas de intuito cultural, a despeito de alguns acontecimentos de êxito incontestável cuja ocorrência é mais excepção que regra (referíveis geralmente a individualidades de percurso ou nacionalidade estrangeira) o calendário nacional preenche-se de inumeráveis realizações heterogéneas, prejudicadas no seu todo por uma descontinuidade de critérios expositivos, longe de esquemas programáticos capazes de formar novos públicos e de mobilizar o interesse dos apreciadores já consolidados.
Em muitas outras circunstâncias não está o interessado visitante livre de se encontrar em salas vazias tocadas por vícios de hermética incomunicabilidade, palco de dignidades mais ou menos solenes detentoras do privilégio duma intocável auto-suficiência.
A esse respeito interessaria conhecer de forma clara qual o nível de aproveitamento de todo esse funcionalismo cinzento metalizado, quais os seus critérios de valor e qualidade estética, qual o seu sentido de futuro, de projecto cultural, etc.
Se ninguém persistir na colocação destas perguntas, como poderá ganhar significado e produzir resultados o interesse artístico que apenas sobrevive entre nós, mas de modo disperso, confuso e improducente?
Se não forem jamais respondidas tais questões quem é que vai livrar-nos desta solidão, deste sentimento de andar sempre a correr em círculos?
Ficaremos assim para sempre, a ir cada vez mais, uma vez por ano, às ARCOS?
Os painéis cerâmicos de Querubim Lapa nos Hospitais da Universidade de Coimbra
Publicado Diário de Coimbra 27 de Dezembro de 2004
Vistos já certamente por milhões de pares de olhos, bem merecem uma cuidada inscrição no mapa das nossas referências estéticas para Coimbra do sec. XX..
O autor é um artista excelente no panorama das artes plásticas do seu tempo, com preparação académica em pintura e escultura, com uma notável actividade pedagógica na área das artes do fogo e com um estruturado talento que lhe permitiu afirmar-se como desenhador, pintor, escultor e ceramista. É esta a disciplina que mais notoriedade lhe granjeou, não figurando no grupo dos pintores que apenas concebem e projectam obras de arte cerâmica.
Querubim, mais do que isso, afirma-se como executante, intervindo directamente na produção dos trabalhos de sua autoria que atingem um nível de expressão invulgarmente rico e original. Daí que tenha conseguido o acesso a facilidades técnicas notáveis, em meio fabril, mediante as quais pôde conduzir larga actividade experimental.
Uma imensa produção de objectos cerâmicos de todo o tipo, moldados de acordo com as suas determinações, são depois recobertos pelo artista com esmaltes cuja cozedura produz o efeito mais feérico e surpreendente que é possível neste domínio de expressão plástica. Uma das propriedades desses esmaltes, vertidos sob forma líquida, é a de reagirem entre si, produzindo inesperados efeitos de cor, que o artista utiliza com especial maestria.
Quanto ao revestimento parietal essa técnica designa-se da “cerâmica relevada”, e representa uma modalidade artística que oscila entre o relevo e a forma escultórica, muitíssimo mais requintada e dispendiosa que a dos mais modestos quadriláteros cerâmicos pintados a pincel com cores lisas a que chamamos azulejos.
Os esmaltes cerâmicos e os mistérios do corpo
As placas rectangulares que compõem o extenso painel que se encontra no átrio principal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, não sendo azulejos clássicos de cores planas, também não são classificáveis na categoria do revestimento cerâmico relevado.
Evidenciam, é certo, acentuações relevadas separando as diversas zonas de cor ou reforçando a perceptibilidade de certos grafismos, oferecendo por isso uma plasticidade enriquecida e aproveitando muito bem a penetração de luz exterior naquela área do edifício.
Concebida para ser contemplada desde o momento de entrada no vasto espaço em que se encontra, a obra apresenta na zona central uma sugestão das estruturas internas do nosso corpo, conferindo acentuada monumentalidade a detalhes orgânicos que têm tudo a ver com a misteriosa vulnerabilidade de que somos feitos. As largas avenidas por onde transita o sangue, os mais recônditos alvéolos pulmonares até aos quais o ar é incessantemente inspirado, produzindo depois, através de faringes, larínges e traqueias, o milagre da voz, a aflição de um grito e o mistério encantado ou funesto de um gemido.
De cada lado desse núcleo aparecem alguns rostos mergulhados numa indeterminação de branco e azul, porventura sugestiva do intervalo doloroso que a enfermidade abre na vida daqueles que entram no Hospital, esperando, na bondade da ciência, socorro na aflição ou alívio no sofrimento.
As proporções da obra, a sua distribuição ao longo de uma superfície articulada e o carácter plástico do material de que é composta libertam-na, de certa forma, da necessidade duma análise de conjunto, o que ajudará a mole de visitantes a procurar na obra o melhor que ela tem para lhes dar ou seja, um certo ar festivo e optimista que é reforçado pela luz intensa das melhores horas do dia.
É nas bandas inferiores e laterais da composição que vai sendo esquecida a disciplina de figuração temática a que a obra se sente vinculada, afirmando ali a expressão mais personalizada do universo do autor.
O painel de Querubim Lapa carece de... intervenção cirúrgica!...
Causa um certo desgosto ver uma obra tão importante, numa cidade onde não abundam os sinais da presença de artistas do nosso tempo detentores do perfil excelente que é Querubim Lapa, de tal forma afectada por contingências da superfície de suporte e das técnicas utilizadas na sua instalação.
Não é preciso ser especialista para notar a abundância de cicatrizes que retalham a obra ao longo de toda a sua extensão. Aqui e ali também são visíveis acções “de restauro” que não ajudam à melhoria nem técnica nem estética do seu estado de “saúde”.
Os painéis deste tipo devem ser aplicados com argamassas de certa elasticidade que possam neutralizar as tensões mecânicas sofridas pelas paredes de suporte. Mesmo que tais efeitos ocorram, as fissuras ocasionais apenas se reflectem ao longo das linhas de separações das unidades cerâmicas, que podem depois ser recolocadas após adequadas ações de restauro.
Segundo o que sei da melhor fonte, contudo, a recuperação deste magnífico conjunto está muito a tempo de fazer-se, restando esperar que bons olhos o vejam e que se coloquem mãos à obra nos cuidados intensivos de que tão urgentemente necessita. E nunca melhor dito, atendendo ao local onde se encontra!...
Azulejos de Eduardo Nery no Montepio Geral, à Portagem
Publicado Diário de Coimbra 15 de Novembro de 2004
É muito vulgar que o custo de grandes obras dispare a certa altura do seu processo construtivo, acabando muitas vezes num preço cujo montante iguala, e por vezes supera, o dobro da verba orçamentada.
Não é preciso ilustrar com exemplos a enorme saga da “multiplicação dos milhões”, de tal modo se tornou vulgar o aparecimento de casos com o picante anexo das famosas faltas de “transparência”.
Se, contudo, um artista apresentar uma proposta para inclusão de uma obra de arte dignificante dum empreendimento, seja ele qual for, “ai Jesus que não há meios, ai meu Deus que grande crise”!... Mesmo nos casos em que o custo da peça artística não atinge sequer uma modesta fracção das alcavalas da nebulosa “intransparência”...
Do número incontável de propostas a quem ninguém respondeu, das que tiveram resposta ínvia ou, ainda pior, das que foram encomendadas e nunca foram adquiridas, nem é bom falar!...
O que seria de Coimbra se os homens dos séculos passados tivessem tido os mesmos critérios e evidenciassem a mesma indiferença perante os valores da arte?
Existiriam a capela da Universidade ou a Biblioteca Joanina? Os retábulos da Sé Velha e a sua Porta Especiosa? A talha dourada, as pinturas e os azulejos de mais de cinquenta palácios e igrejas? A pedra talhada dos relevos, as esculturas de vulto, a nobreza das torres, os campanários luminosos, a musicalidade comovente dos sinos e a ressonância orquestral dos órgãos?
O património, as expressões da modernidade e as novas formas de ver
As excepções existem, apesar de tudo, como migalhas esquecidas sobre a toalha enorme das edificações destes últimos 80 anos, mais coisa, menos coisa.
É sobre esse género de exemplos que estas “conversas” já começaram a debruçar-se, considerando certo tipo de obras notáveis poucos “vistas” e escassamente entendidas.
A instituição encomendante da obra mencionada em título já colheu, em termos da notoriedade alcançada pela mesma, o imenso reconhecimento que é patente em capas de livros, catálogos de exposições de âmbito nacional e internacional, cartazes de acontecimentos, menções em obras de autores estrangeiros, etc.
O painel foi aplicado naquela parede de fundo da agência, superfície quase impossível de conceber como portadora duma tal obra, por alcançar dois pisos diferentes que a não deixam ver inteira e situada detrás duma escada de dois lances, felizmente de concepção interessante pela relativa leveza da estrutura à base de metal e madeira.
A solução do artista, perfeitamente inserível no itinerário das suas preocupações estéticas no domínio da azulejaria e da pintura dita “op” ou seja, produtora de efeitos ópticos, foi uma composição abstracta que pudesse resistir à visão por sectores, evidenciando uma pujança cromática apoiada na riqueza de 16 cores organizadas numa sequência contínua retirada do espectro solar que, entretanto, parecem muito mais numerosas devido às interacções respectivas.
Ao nível da técnica cerâmica constitui uma inovação impossível até há poucos anos, dado que durante séculos a paleta do pintor de azulejos se encontrou reduzida a certo grupo de pigmentos, devido à instabilidade das cores que se situam na zona mais “quente” do espectro, os laranjas, os vermelhos, os roxos, os liláses, etc.
Atribulações de um quadrado amarelo em fundo de várias cores
O estudo da dinâmica cromática pode bem ocupar a imaginação criativa de qualquer cliente que espere para ser atendido e se ocupe decifrando planos que se interpõem, a interacção das cores e o jogo de efeitos visuais muito complexos.
De facto, ali se pode dar uma aprofundada lição sobre teorias da cor, entre as quais recordo os célebres tratados de Johannes Itten e as aprofundadas experiências dum artista como Joseph Albers, de quem recordo uma explêndida mostra, há um bom par de anos, levado a cabo pela saudosa Casa Alemã, sob o impulso raro e inolvidável de Karl-Heinz Delille.
Um quadrado amarelo será sempre igual a si próprio, ou pode “transformar-se” consoante esteja em fundo verde, azul, roxo, vermelho ou alaranjado?
E uma tira verde claro ou vermelho forte sob o efeito de quadriláteros de cores diversas é sempre categorizável como “cor de fundo” ou emerge, a certa altura, como “figura” de primeiro plano?
Sobram várias perguntas como estas , mas eu deixo à perspicácia visual do leitor, quando ali se deslocar, a tarefa de desmontar planos, ritmos, intersecções e interacções as mais diversas, com o privilégio de tal exercício ser possível de todo e qualquer ângulo de observação.
É de realçar que o painel apenas se compõe de azulejos simples de cor lisa de 14 cm que somente nalgumas sequências ostentam a “complexidade” de duas cores, por serem os que definem as linhas diagonais ascendentes ou descendentes.
Interessante será a observação do painel para quem suba ou desça a escada entre a cave e o rés do chão dada a confrontação prependicular entre a estrutura da mesma e a dessas barras diagonais.
Se o leitor se afirma incondicional apreciador de painéis de azulejos não deixe pois de refrescar o seu elenco de fruições estéticas com mais este produto genuíno da obra de Eduardo Nery adquirido, em tão boa hora, pelo Montepio Geral.
Azulejos de Ferreira da Silva no IPO de Coimbra
Publicado Diário de Coimbra 26 de Outubro de 2004
Falando com uma senhora dos quadros do IPO de Coimbra que se referia de modo sensibilizado aos trabalhos de Ferreira da Silva que ali se encontram como parte do património artístico da instituição, ouço algo que alude com especial importância aos mecanismos de percepção e entendimento das obras de arte em geral:
“...A primeira vez que vi aqueles painéis de azulejos, senti-me perturbada. Ultrapassavam a minha capacidade de entendê-los com aqueles cavalos enormes de vultos decompostos; as manchas inextricáveis; a acumulação de sinais!... Um dia alguém lhes fez umas fotografias destinadas a um interessante trabalho gráfico, e essa atitude analítica, distante do compromisso da visão conjunta, foi a porta que se abriu para uma leitura, primeiro da riqueza cromática, depois do imenso universo de vestígios simbólicos. No dia a dia, cada entrada e cada saída me iam revelando um aspecto novo, uma nova faceta. Até que dei comigo, na abundância de valores plásticos, a gostar de tudo, a perceber a totalidade das forças presentes, os detalhes como detalhes e as grandes figuras como interlocutores principais, no seu poder de animar percepções mais além do real, mais perto da ideia, do símbolo!...”
O amor, esse momento principal da atitude criativa
Não vou elaborar sobre este encadeado de observações mais do que o leitor pode e estou certo que sabe fazê-lo. O enredo das nossas percepções não depende apenas do acumulado de noções sobre esta ou aquela realidade.
Os afectos; o querer gostar; o achamento das entradas por onde passe a aragem dum entendimento produtivo das coisas; o amor afinal que é, como sabemos, um acto deliberado da consciência valorativa.
Passando o observador uma e outra vez defronte do importante edifício do IPO, ficam-lhe os olhos suspensos no tropel de cores e de formas dos painéis de azulejos que ali estão.
Se entrar no edifício, e oxalá não seja por motivo de doença, outros sinais verá da presença artística da obra de Ferreira da Silva, mestre das artes do fogo que para os lados de Caldas da Rainha reside e exerce o seu mister de artista frequentador duma enorme diversidade de disciplinas das artes visuais: da pintura à gravura, da multiplicidade de abordagens da arte cerâmica à escultura, à arte do vidro, etc.
Na área de Pombal da A1, à vista de todos, ali se encontra um painel de estrutura decorativa muito expressiva e cheia de alegria comunicante. Na Quinta do Pinheiro, em Valado dos Frades, Nazaré, é toda uma multifacetada intervenção que o artista desenvolveu e que contempla os mais variados aspectos da visualidade do empreendimento turístico ali situado.
Quanto ao labor que tem desenvolvido nas Caldas da Rainha e sobre uma continuidade de trabalhos de arte que se estende por decénios e se tem espalhado por todo o mundo fica por dizer o essencial, falha que procurarei aliviar, resumidamente por certo, em próximas “conversas”.
A presença da arte lenitivo e estímulo para quem ama a vida
Em evidência nos azulejos do IPO encontra-se abundantemente explicitada a enorme familiaridade que o artista desenvolveu nas suas profundas incursões pelas artes do fogo em geral e pela linguagem da decoração azulejar em particular.
Como autor de projectos Ferreira da Silva efectua em cada obra uma espécie de mergulho de corpo inteiro, fazendo com que a atitude da concepção não se detenha no momento inicial. Até ao último gesto de aplicação de pigmentos, até ao acto de montagem de cada quadrilátero cerâmico e se preciso for em gestos de composição final fora da própria sequência previsível de associação das peças, ali encontramos uma surpresa, uma decisão inventada que desafia o espectador e o coloca perante as mais sugestivas variantes da expressão plástica que o azulejo oferece.
A materialização da luz, preocupação central do artista
Quanto à pintura sobre azulejos propriamente dita, não se esgotam os recursos de novidade e encantamento.
Uma técnica dominada pelo experimentalismo confere ao simples quadrilátero cerâmico a categoria duma peça em relevo, cujos pigmentos borbulham e ressaltam numa inquietação que a cozedura impôs, modulando as cores muito para além da monotonia de lisura de certa azulejaria vulgar.
A utilização de processos de execução automática, ou máscaras, abre em negativo imagens que noutros locais se apresentam em positivo, e inúmeras variantes decorativas de fundo aparecem muitas vezes seccionadas por sinais de uma gestualidade resoluta e inesperada.
Fissuras e vibrações de todo o tipo acrescentam a casualidade que só obras com vários séculos de idade podem oferecer ao apreciador inveterado.
Bem fizeram os dirigentes e responsáveis do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil de Coimbra, ao terem adquirido os diversos trabalhos de Ferreira da Silva, ali presentes.
Além duma atitude de bom gosto, foi de certeza um acto destinado a estimular a inteligência vital e a capacidade de encarar cada momento de vida com o mesmo desígnio intencionado de encontrar a luz que a obra de Ferreira da Silva tão coerentemente persegue.
Eduardo Nery no CAE da Figueira da Foz, azulejo, mosaico, vitral e tapeçaria
Publicado Diário de Coimbra 1 de Setembro de 2004
Até fins de Setembro é ainda tempo para visitar a notável exposição retrospectiva de Eduardo Nery no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, que abarca a actividade do artista durante mais de quarenta anos em disciplinas tão variadas como o azulejo (com parte de leão), o mosaico, o vitral e a tapeçaria.
De assinalar a qualidade da exposição quanto à distribuição espacial, ao desenvolvimento estético-pedagógico e à natureza especialmente valiosa dos conteúdos.
Foi organizada por entidades museológicas nacionais, mostrada em Lisboa e Porto, e deveria ser chamada a desempenhar um importante papel junto de públicos diversos para além dos que são assíduos na visitação de actos artístico-culturais.
À atenção de donos e mestres de obras
Se tivesse o privilégio de escolher leitores, gostaria hoje de chamar a atenção de donos e mestres de obras, empreiteiros, empresários, arquitectos, autarcas ou outras entidades que tenham a ver com a preservação e desenvolvimento do nosso património edificado.
Muitos dos edifícios que são construídos no nosso país ostentam, no que toca a processos de resvestimento exterior e interior, soluções que nada têm a ver com a cultura artística do país ou com as suas características climáticas, estendendo-se a questão ao interesse arquitectónico que deveria merecer o chão, as fachadas, as paredes, os vãos e os tectos.
As imensas superfícies envidraçadas e os cinzentos ou castanhos metalizados, por exemplo, bem podem fornecer o toque de espavento pseudocosmopolita, mas carecem da nobreza de materiais e técnicas mais conhecidas entre nós, obrigando em certos casos a vultuosos dispêndios energéticos em aquecimento, no inverno, e em ar condicionado, no verão.
Onde contudo mais rotundamente falham é na ruptura com modelos de caracter estético que conferem ao nosso contexto urbano as suas características próprias e a sua marca de individualidade.
Os hábitos dos agentes construtores e o isolado elitismo da cultura artística institucionalizada são realidades que entre si se ignoram, donde a fácil vitória do novo-riquismo invasor e do facilitismo consumista, eivados muitas vezes dum eriçado e lamentável mau gosto.
Parece que o país enjeitou ou é incapaz de defender e criar os seus próprios modelos, desperdiçando riqueza na importação de outros que lhe são completamente alheios.
É por isso mesmo que desta vez não me dirijo aos intelectuais, aos ilustrados professores e aos estudiosos, tão atentos às vertentes históricas consagradas e tão distanciados das realidades concretas do hoje, com suas determinações e exigências naturais.
A exposição de Eduardo Nery devia ser visitada pelos homens que vão ter na mão o lápis que faz os esquiços dos ante-projectos, os que têm a incumbência de elaborar os cadernos de encargos ou que empunham a caneta que assina a ordem de construir as obras.
A cidade de Coimbra, onde não abundam os exemplos da utilização moderna de meios cerâmicos para revestimento ou decoração parietal, dá mostras crescentes de já ter adoptado a famosa receita das fachadas envidraçadas, das precárias superfícies de fosco metalizado e aquelas coisas espelhadas que brilham muito, estereótipos copiados não se sabe donde, reflectindo o gosto, ou falta dele, de quem tem pressa no acto de escolher e completamente ignora os imaginários que fizeram de Portugal um país com arte e cultura próprias.
Os painéis antigos também foram arte contemporânea
Algumas importantes e prestigiadas empresas que durante muitos anos produziram cerâmica com finalidades construtivas, decorativas ou simples utilidades de uso quotidiano saíram já de cenário. O seu trabalho ficará na memória dos que tiverem a coragem de querer saber quem somos, páginas de um presente “passado” ao qual se virou costas porque importar é mais “barato”, e aquilo que por cá se faz “já está mais do que visto”.
O desfilar de exemplos oferecidos pelas intervenções urbanas de Eduardo Nery são duma imensa variedade e riqueza, não deixando de evidenciar um desejável sentido renovador.
São outras tantas vitórias do operador estético junto da sociedade produtiva na qual se insere, e da qual depende inteiramente no acto esclarecido da encomenda.
A renovação e o reforço da capacidade produtiva dum país não caiem do céu aos trambolhões, e é preciso que todos os agentes construtores se lembrem disso.
Os magníficos painéis de azulejos que foram produzidos em Portugal durante os séculos passados eram, nessa altura, arte contemporânea e, muitas vezes, fortemente inovadora. Muitos deles foram exportados e, onde quer que se encontrem, são ainda motivo de enobrecido prestígio e admiração.
Quem quer que os encomendou fez o melhor dos negócios: serviu o presente e garantiu o futuro.
Se os homens deste início de terceiro milénio não sabem disso, como poderão ganhar alguma vez o direito e o mérito de ser lembrados como verdadeiros agentes de evolução e progresso?
Como poderão alguma vez enunciar com honra, a par do proveito imediato, a qualidade e o valor do produto do seu trabalho?
Malick Sidibé no CAV, ou o glorioso espectáculo da humanidade
Publicado Diário de Coimbra 21 de Maio de 2004
Pensar em África resulta sempre num imenso encadeado de associações de ideias em que se dão as mãos a mais deslumbrante paixão vital e os mais dolorosos sentimentos de prejuízo humanitário.
Malick Sidibé, homem que nasceu em 1936 no Mali, estado vizinho da Guiné Bissau, fez parte das gerações que testemunharam “uma época de mudança resultante do fim dos impérios coloniais”.
Acho que vale a pena mencionar que o Mali, antigo Sudão francês, apesar de ser o primeiro produtor de algodão da África subsariana, ocupa o 4º lugar entre os países mais pobres do mundo.
Olhando pois para as datas em que foram tiradas as fotografias expostas no CAV, causa-me um assombro de luto concluir que o esplendor de juventude e de vitalidade palpitante evidenciados pelos figurantes das mesmas pode entretanto ter-se extinguido, bastando saber que a esperança de vida não ultrapassa naquele país a barreira dos quarenta anos.
Visitemos o CAV, não obstante, colhendo de cada imagem o deslumbramento de que formos capazes, aceitando como perene a natureza revelada e a juventude sem limites, porque convictas da sua própria autenticidade, ostentando todos os símbolos possíveis de exuberância afirmativa, quer de natureza tradicional e autóctone, quer de importação recente, sujeita aos ditames duma outra sociedade, cujas excelências podem nunca ter sido experimentadas pelos retratados.
Malick Sidibé, de quem se diz “ter fotografado sempre por gosto e dever de ofício, jamais pensando numa carreira artística”, teve o talento de fazer passar pelas suas objectivas todas essas figuras saturadas de naturalidade, muito embora entregues por vezes, com a cumplicidade óbvia do próprio autor fotógrafo, a um jogo de atitudes artificiais comandadas pelo desejo de representação de subjectividades e de anseios pessoais.
À primeira vista fáceis de organizar tipologicamente, as fotografias de Sidibé revelam-se abundantes na variedade de propósitos de cada um dos protagonistas, ou grupos de protagonistas, e na captação peculiar que dos mesmos foi efectuada pelo artista.
Aparece a fotografia a três quartos e de meio corpo, evocativa da sumptuosa tradição da arte do retrato, as figurações conjuntas de colectivos em poses que sempre nos dizem muito pela energia e coesão respectivas, a galeria de figuras isoladas cuja personalidade é evidenciada pelos expedientes mais simples e a daqueles que se preocupam em ostentar certos símbolos aculturantes de efeito pretensamente convincente.
Sabemos que o artista, já no virar do milénio, e depois de ter caído em desuso a fotografia de retrato tradicional, iniciou experiências com retratos de pessoas que figuram viradas de costas para a objectiva.
Sem qualquer informação adicional, a opção não deixa de parecer misteriosamente simbólica de todo o encadeado de problemas em que mergulha o homem africano, ensimesmado na solidão do seu drama, afastado cada vez mais das fontes ancestrais donde parecia brotar uma pureza de vigor sem limites, e nem por isso mais próximo dos padrões afirmados pela envolvente e invasora civilização do homem branco.
Nos “Project Rooms” estão duas realizações, uma da autoria de Ricardo Valentim e outra evocativa da experiência em África dos familiares de Manuel Santos Maia.
A primeira das duas faz convergir várias modalidades de intervenção artística: o registo mural, a pintura sobre tela e algo que me permitirei designar, sem compromisso de rigor, como uma “elaboração escultórica”. O diálogo travado entre essas componentes é-nos apresentado num espaço esguio e alongado, o que acentua o efeito cenográfico do conjunto. Toda a instalação, realizada com materiais francamente modestos, opera uma fusão dinâmica com a iluminação do compartimento, particularmente expressiva para os elementos situados na parte mais elevada.
Quanto ao projecto de M.S. Maia é de salientar o interesse histórico, etnográfico, cultural e até afectivo que evidencia, não sendo legível de forma imediata, antes solicitando uma cuidada observação.
O espaço concentrado em que se encontra e o facto de a projecção de slides ser de fruição intimista (através de auscultadores), é inversamente proporcional ao âmbito do projecto, dotado de amplas áreas de significação que abrem para questionamentos da mais variada índole.
“Espaços de projecto” deste tipo demonstram que as obras que figuram, por necessidades compreensíveis, em salas algo mais recuadas, não são menos merecedoras duma apreciação cuidada e atenta se fornecerem, como é o caso, e traduzindo do inglês, “alimentação para o pensamento” (food for thought!...)
Jemima Stehli e Pedro Cabrita Reis no CAV
Publicado Diário de Coimbra 13 de Fevereiro de 2004
Regresso a casa de mais uma visita ao CAV nesta tarde de ameno inverno que envolve na luz as mais desencontradas ilusões dum quotidiano ferido por vulgaridades atrozes e contingências que só o tempo resolverá, na sua incessante máquina de reproduzir instantes.
Manuseio com prazer o material de apoio estético que trouxe comigo, resultante do esmero habitual da instituição.
Resisto à tentação de mergulhar já na contemplação do livro branco que guarda o segredo de Jemima Stehli, a carne “cromogénica”, a epiderme feminina em “gelatina de prata” e o “velcro” em “plexiglas”.
Dos pátios com vocação lírica à insignificância dos críticos
Para já, o átrio exterior e as “Longer Journeys” de Pedro Cabrita Reis.
Quando vi no jornal a primeira foto de divulgação da obra, mostrava-se a mesma num espaço interior, quase exíguo, de paredes de tijolo maciço e tecto de travejamento em madeira, soturnamente evocativo duma atmosfera fechada na humidade do silêncio.
“Onde ela ficava bem era no pátio do CAV”, pensei de mim para comigo!
E ela ali está, de facto, para benefício de quem visita, acrescentando valor ao sítio, “projectando-o”.
As proporções humanizadas daquele quase recinto de teatrais enredos conferem à estrutura a sugestão interminável de pórticos sobrepostos, como se se tratasse de encenação operática ou labirinto para ritmados desencontros.
Aquilo que o trabalho de Cabrita Reis foi de nave luminosa no espaço fechado, transforma-se ali numa sugestão de mergulho no firmamento, sobretudo se tivermos, como eu, a sorte de visitar aquele espaço à hora final da tarde em que mais hesitante e colorida é a luz que rodeia o mundo.
Afirma PCR que “...A arte tem a ver com questões e nunca com declarações” e isso é algo que não vou aclarar, posto que o leitor melhor saberá fazê-lo que eu próprio já que, como bem afirma Barry Schwabsky no seu texto sobre Jemima Stehli “Só um louco tomaria um crítico de arte como uma autoridade em qualquer assunto...”
O interminável corpo da mulher
À parte a presença, pateticamente irrisória dos co-figurantes de algumas das obras propostas por JS (ou exactamente “por causa” dessa presença intencionada...) o corpo da artista erige-se em monumento ao acto fotográfico, não deixando contudo de nos embalar na evidência carnal e trágica que consigo transporta.
É curioso que só às co-figurantes tenha sido conferida a gravidade problematizante da nudez . Como se aqui a nudez de pé fosse um privilégio de mais segura eternidade, e o riso equívoco de homens sentados o passaporte para uma relativa dignidade, redutora e burocrática.
Como é monumental e decidida a figura perpendicular de JS, vestida ou nua, em paralelo, deixando para trás a superfície branca da tela de fundo!
Como é literária e pictórica nas fotos coloridas, em movimento ou desconcerto posicional se em fundo vermelho!
Grace e Karen são empurradas até nós num quase perturbável “exagero de proximidade” pelo esplendor tecnológico-fotográfico dos laboratórios londrinos. Nessas duas situações JS “apaga-se” numa surda presença oficinal, sendo apenas evocada na semelhança longilínea das duas mulheres figuradas, ambas escorreitas e de bem marcada genitalidade, como ela própria.
O “Strip” da artista frente às personalidades sentadas é impiedosamente ruidoso, sinalizando mais do que evidenciando as contingências do mostrar dúbio, convencional e estratégico, não se esgotando nisso uma variedade de outros aspectos do conjunto de fotografias que nos é mostrado.
Project rooms, o futuro e o juízo rigoroso
Nas minhas andanças de pintor sempre ouvi dizer aos meus críticos mais lúcidos e pertinentes que a obra é que conta, e só ela, para a ponderação do seu valor intrínseco. A explicação, o enredo, os preâmbulos que a respeito da obra possam ser aduzidos em nada contam, e nada pesam a favor ou desfavor da dita.
A esse respeito muito caminho terá de andar a arte contemporânea para que transponha o portal das suas importantes intenções, se não corporizar de forma universalizante o teor dos seus conteúdos.
O esmero estético das obras de Catarina Felgueiras e Nuno Ramalho, e o impacto problematizante de que se revestem alguns dos seus argumentos expressivos dependem demais do texto de Miguel Amado para que possamos “lê-los”.
E isso entende-se na rapidez fugaz que certo público dispensa à visita dos espaços reservados a essas duas contribuições.
Gabriel Orozco, no CAV (Centro de Artes Visuais), ao Pátio da Inquisição
Publicado Diário de Coimbra 23 de Maio de 2003
A visita à exposição de Gabriel Orozco, rapaz que nasceu no México quando eu já tinha os meus vinte anos, proporcionou-me um daqueles momentos raros na vida que permitem pôr de lado uma série incontável de relativismos, necessidades e tensões da mente. Desligar defesas às quais a crispação dos dias nos obriga, para deixar entrar por janelas escancaradas a deliciosa carícia do vento antigo que traz notícias da criação do mundo e que, no mesmo trajecto de impulsos, aponta lá para diante, para onde pensamos que mora o futuro.
Vagueei por entre os variados motivos que no elegantíssimo espaço se encontram dispostos, sem qualquer necessidade de referenciação cronológica, social, histórica ou geográfica, captando em cada família de objectos o nexo imperioso de inter-relações formais, simbólicas e estéticas que desenvolvem no observador.
Das cidades ancestrais aos gestos do futuro
Ao entrar recebe-nos uma primeira e sumptuosa visão de grande angular que mostra uma cidade de um país antigo feita de arquitecturas de terra, telhados frágeis de colmo e terraços áridos de secura. Ao fundo dessa fotografia ergue-se a sentinela vigilante que separa as almas da lonjura da planície e das serras distantes, uma monumental formação pedregosa, fortaleza natural esculpida e afeiçoada por ventos e por milénios.
Esse primeiro elemento encoraja-nos a descolar das coisas que deixámos lá fora na rua poluída e ruidosa onde todas as atitudes vitais parecerem depender do esquematismo de sapiências controladas.
Em cima das mesas, cheias da nobreza expressiva do material singelo de que são feitas, encontram-se objectos de barro cozido, a primeira das famílias que referenciamos. Impressionam pela robustez estética e pela variedade de conceitos plásticos, situados nos extremos distantes da funcionalidade para a sobrevivência, na determinação do gesto construtivo e no reflexo das configurações do corpo. Uma dessas figuras transmite, na antiguidade do material de que é feita, a explícita alusão às branduras do corpo íntimo, tal como outras remetem para uma ortopedia ciclópica ou sugerem modelos reduzidos de compactos megalitos.
Nas paredes outras fotos e outros desenhos transpõem para distintos planos de significação os objectos referidos, enquadrando-os no contexto de uma civilização bem próxima da terra, de formas e gestos universais onde as linhas da própria mão se apresentam impressas, tal como as nervuras delicadas das folhas de uma planta.
O fenómeno mais intenso e a descoberta que fará flutuar o visitante encontra-se exactamente nesse cruzamento de sentidos. Das fotografias aos objectos e destes às elaborações desenhísticas e pictóricas há uma acumulação de itinerários que conduzem da gravidade remota de silêncios arqueológicos até às sínteses mais depuradas das visões da modernidade.
Nas fotografias não é o pitoresco de circunstâncias etnológicas ou folclóricas o que mais impressiona mas sim a memória duma antiguidade transcendente na qual o vulto do homem, tal como nas grandes narrativas mitológicas, aparece apenas de forma austeramente simbólica confinado às imagens que reflectem a sua labuta pela sobrevivência: uma epopeia de pegadas em chão de terra seca, carreiros de pedra solta ou lajes afeiçoadas ao caminhar sólido e lento que conduz à eternidade.
A responsabilidade cultural e os cerimoniais inúteis
Exposições como esta, somatório de atitudes de rigor e generosidade formativa/informativa, responsabilizam imenso o visitante.
Se houver olhos para ver e entendimento aberto para o fenómeno que está presente actualmente no Centro de Artes Visuais (CAV), e de que a exposição de Gabriel Orozco não é nem o primeiro nem o único sinal disponível, a comunidade dos apreciadores das artes vai ter cada vez mais dificuldade em entender a trivialidade baça e sem sentido de pendurações inconsequentes de objectos desconexos e abandonados à sorte da sua própria circunstância, por mais respeitável e entendível que tenha sido o seu momento criador (e muitas vezes, infelizmente, nem é esse o caso).
Não vale a pena conceber a arte e a cultura como uma fatigante colecção de formalismos mais ou menos credenciados pela dignidade transitória de notabilidades encadeiradas. Se a cultura ou a arte não atingirem a serenidade fecunda da substância realmente comunicante, não passarão da fragilidade dum quotidiano sem raízes, nem memória, nem semente que floresça no ventre do futuro.
Arte moderna, Arte do sec. XX, no Museu da Cidade (2)
Publicado Diário de Coimbra 13 de Maio de 2003
A exposição que se encontra no Museu da Cidade, comissariada por Telo de Morais, continua a suscitar uma merecida atenção e um elevado número de visitas, revelando-se uma iniciativa esclarecedora de alguns aspectos, infelizmente ocultos, do sentido de modernidade em Coimbra no que toca às artes plásticas, para o período a que diz respeito.
Tendo tido ocasião de referenciar o primeiro de tais acontecimentos (a exposição é projectada no tempo em capítulos distintos que vão estender-se até Janeiro próximo) muito ficou por dizer, e é por isso que volto a estas “conversas”, sem receio de que me falte assunto.
O desejo e a capacidade de ler a actualidade
A realização tem por base um limitado número de peças dum limitado número de artistas e não abrangerá naturalmente a totalidade de coleccionadores de Coimbra. Como já disse no primeiro comentário escusa-se ainda (compreensivelmente?) à inserção de valores residentes.
A espiral descendente que assim se desenha em nada diminui o mérito da iniciativa que pode a vários títulos considerar-se percursora, numa cidade que não se envergonha de um acentuado “deficit” de modernidade estética que é traço grosso da sua própria fisionomia urbana e dos vocabulários da sua representação socio-cultural.
Sendo difícil classificar exaustivamente todo o tipo de impulsos que conduzem à formação de colecções de arte moderna, é claro que implicam pelo menos o desejo e a capacidade de entender e acompanhar fenómenos de cultura da própria actualidade.
A incapacidade de fazer a leitura e de conviver com objectos estéticos cuja antiguidade pode ter quase um século tornam imperioso o estabelecimento dum amplo debate de ideias, por todo o tipo de razões, até de natureza não exclusivamente artística.
Depois do comentário feito à primeira das exposições deste ciclo, impunha-se à minha curiosidade a avaliação das ideias e do sentimento de um dos coleccionadores colaborantes da mostra, uma das tais pessoas cuja identidade foi – ao que me parece injustificadamente – mantido no âmbito duma cautelosa confidencialidade, a que a curiosidade incontida acaba por conferir a volatilidade daquilo que em teatro se apelida um “segredo de Polichinelo”.
O estabelecimento do contacto acabou por fazer-se de forma perfeitamente natural, e nem à pequena história interessam os detalhes que me levaram à presença duma pessoa apaixonadamente interessada, intelectualmente inquieta e repleta de todos os atributos do espírito que eu acho condizentes com o estatuto interessantíssimo do genuíno coleccionador de artes. Numa coisa tive de concordar, por respeito às conveniências idiossincráticas da cidade que todos (mal) conhecemos ou seja, a manutenção do anonimato do meu interlocutor!…
Arte em diálogo, precisa-se!…
A presente crónica não conseguirá resumir o vastíssimo leque de sensações fortes que a troca de impressões me proporcionou, após uma visita à esclarecedora e surpreendente reserva de obras na posse do coleccionador, e ao longo de um jantar de amigos que, noite fora, nos permitiu “assentar ideias” a respeito duma variedade muito ampla de temas e problemas: o ensimesmamento e o passadismo artístico-intelectual vigentes; a carência dum verdadeiro encontro entre pessoas interessadas e respectivo debate de ideias; a subalternização de certas iniciativas através da negligência promocional; a pobreza de entusiasmo dos “funcionários da cultura”; a inexistência de “gestores culturais” devidamente habilitados; o ascendente que o “político” e o “burocrático” possuem no plano das realidades concretas; o enfileirar estatístico de acontecimentos avulsos, à margem dum sentido de projecto cultural, etc.
Por último, nem foi esquecida a falta de galerias de arte suficientemente pujantes, com projectos dinamizadores e desejo de credibilizar a arte e os artistas!...
Crónica de entrevistas adiadas
O Coleccionador (chamemos-lhe assim, e ponhamos maiúscula por ser equivalente de nome próprio) prometeu alinhar, para publicação oportuna, algumas ideias interessantes a respeito da atitude e da substância da colecção de obras de arte.
Fica portanto prometida sequência para este início de “conversas” sobre a “Arte Moderna, Arte do Sec XX”, para as quais ficam todos desde já formalmente convidados, neste mesmo sítio e lugar.
Arte moderna, arte do sec. XX, no Museu da Cidade
Publicado Diário de Coimbra 1 de Abril de 2003
Escrevi esta “conversa de pintor” abismado pelo horror dos dias que passam, confuso e revoltado pela violência super-organizada, super-tecnocrática e super-hipócrita.
O destino aparente do largo mundo dos conflitos sangrentos não pode, porém, impedir-nos de falar sobre factos como uma retrospectiva das colecções particulares de Coimbra, que tem lugar no Museu da Cidade, no edifício Chiado, comissariada por Telo de Morais, e que merece bem, por motivos diversos, uma atenta e interessada visita.
Estamos pois “condenados ao impossível”, conforme citação de Rocha de Sousa no prefácio que, com lucidez e elegância discursiva, abre o catálogo das obras cuja presença virá visitar-nos ao longo de vários episódios expositivos, até ao fim do ano.
“Toda a Cidade é um Museu Encoberto”
O espaço reduzido da sala de exposições temporárias recebe as primeiras 17 de 88 obras que o evento pressupõe, e que se encontram reproduzidas em catálogo desacompanhadas de matéria de consideração crítico-informativa, se descontarmos a valiosa, mas muito genérica, abordagem de Rocha de Sousa, que tem por título a bela frase poética acima citada.
Teria sido fácil inserir elementos de caracterização pedagógica a respeito das obras apresentadas, numa cidade onde rareia o apego e a informação a respeito da modernidade da arte, sobretudo daquela que é portuguesa, pelo que é pena e o visitante lamenta a lacuna que se observa.
Sendo mostrada uma só obra de cada autor, é de supor um delicado trabalho na escolha das peças a associar em cada fase, para que a montagem resulte bem, como acontece sem dúvida nesta primeira realização.
As obras estão dispostas, por assim dizer, em duas margens que se defrontam num diálogo de valores contrastantes ou complementares, revelando um vincado critério de bom gosto que nem sequer deriva, aliás, da estruturação estilística efectuada no texto de Rocha de Sousa.
Vale a pena observar, por exemplo, a sequência formada de um lado pelas obras de Joaquim Rodrigo, Cruzeiro Seixas, Carlos Calvet, Rogério Ribeiro, etc. e pelas de Pedro Croft, Cabrita Reis, Casqueiro, etc. do outro.
É ainda curioso o emparelhamento “fora de margens” dos trabalhos de Fernando Calhau e Raul Perez, totalmente contrastantes no teor de forma e conteúdo respectivos.
Falar um bom pedaço a respeito de cada uma das obras mostradas, ou das sinergias que a sua confrontação produz, mereceria o espaço não de uma, mas de várias “conversas de pintor”.
Responsabilidade e importância do coleccionismo
Ao fim deste ciclo de exposições não ficaremos a conhecer senão uma porção diminuta das obras coleccionadas em Coimbra, permanecendo misterioso o critério que as terá reunido, se mais de natureza estética e afectiva ou de natureza financeira.
O já referido prefácio de R.S. abre para as importantes questões da descentralização e da autonomia culturais, da necessidade de estimular “a contemplação e o debate”, de renovar os “modos de formar”, etc.
A exposição, classificada como acto “com forte alcance cultural e de cidadania” é, não obstante, visivelmente tributária de estratégias aquisitivas dificeis de definir, mas que não deixam de reflectir centralismos e subjectividades pouco associáveis à afirmação de “autonomias”, apresentando-se cautelosamente asséptica quanto a possíveis valores locais.
O coleccionismo é um pilar essencial do progresso criativo, e não perderia nada em contemplar novos valores, incluindo sem complexos nomes autóctones, para além dos casos raros que apenas se puderam afirmar longe, ao abrigo de outras realidades.
O criério dos “valores consagrados” tem lançado no mercado da arte, aqui e no resto do mundo, uma quantidade enorme de obras de segunda linha que valem apenas pela assinatura que trazem aposta, abundando as histórias picarescas quanto ao modo como algumas foram parar ao circuito da comercialização.
Numa obra de arte o único valor seguro é aquele que deriva dos seus conteúdos estéticos e do prazer intelectual e espiritual que comunica, havendo ainda quem pense com razão que vale mais uma obra boa dum artista desconhecido que uma obra medíocre dum nome prestigiado.
Com esta me acabo, fazendo votos que o vento do deserto possa soprar de novo liberto dos venenos semeados pela guerra, que assustam os povos dóceis e lhes causam tanta dor.
Sara Maia no edifício Chiado, ou a vulgaridade do assombro
Publicado Diário de Coimbra 27 de Janeiro de 2003
A arte condescende muitas vezes em ser liricamente distante da realidade virando para o lado o olhar necessário e impiedoso.
Solicitam-lhe outras vezes que salte de paraquedas lá de trinta mil pés de altitude onde ar não há que se respire e não se ouve a voz de quem fala por imposição desconfortável da máscara de oxigénio ou descomprometimento conveniente da máscara só-máscara.
Acontece então ser tão vazio e tão inútil o seu discurso que não nos dá cansaço algum ouvi-la somente porque temos o bom senso de não lhe ligar atenção e vamos em busca de outra ocupação da mente ou outra mais séria alegria do corpo.
O que me espanta na pintura de Sara Maia não é aquilo que tem da expressão alucinante com que tantas vezes me surpreendi na obra de Paula Rego ou da moralidade feroz e esclarecida que de longe me persegue em Otto Dix ou da desconcertante abordagem figurativa ou da virilidade cromática que me habituei em Max Beckmann.
O que me espanta é que não leio nos traços da sua contudente linguagem a atitude que poderia pertencer à generalidade das criaturas da sua idade ou da sua geração cultural.
Como é possível pergunto-me que possa ter atravessado a porcelana translúcida da sua carne adolescente a antiguidade relativa de tão pesada herança de percepções.
Como é possível pergunto-me que não esteja ali o humor planificadamente cruel dos Simpson a sua claridade plastificada as suas cores metálicas e a vibração de sonoridades que sintetizadores aceleram por goelas abaixo dos devoradores de multimedia.
Uma pintura assim sejamos claros põe-nos os cabelos de pé. Altera os nossos planos de não sei que cultura predisposta a não sei que especulações.
Os escândalos da reality são tão matematicamente condimentados de horário conteúdo e sequência publicitária e tão meticulosa e mesquinhamente pré-anunciados e digeridos em resumos de roda pé que já muito pouca coisa nos faz realmente ficar com medo ou genuinamente inquietos ou autenticamente tristes. Tantas vezes nos sai uma gargalhada no momento exacto em que melhor poderiamos ficar apreensivos. Tantas vezes nos ocorre um impropério pela visão desconcertante do inimaginável tornado comezinho ou da impingência da mais boçal vulgaridade transformada em ocorrência de prodígio.
Em Sara Maia a lei da gravitação universal é posta em causa e não apenas pela ausência do velho compromisso do equilíbrio tectónico tão reconfortante para as nossas mais justificadas convicções. Em Sara Maia os anões abundam alguns são verdes e outros impúdicos. A tutela da guardiã é ornada de medalhas e empunha cacete os pássaros esquisitos levantam vôo de cabeça a fundo as bruxas desequilibram-se pelos paus de vassoura abaixo tudo ao contrário das lendas previsíveis e de certos efeitos especiais.
Na realidade oh como é frequente que uns se ponham a cavalo de outros e que estes por seu turno tenham que alancar com os primeiros. Tanto homem cão tanta mulher bicho. E aquela da coxa grossa que ficou quase de fora da pintura e se larga à unhada à outra que está por baixo contrafeita pálida e quase ausente.
O anão de feltro mole ladra para dentro da saia (é dum padre preto ou duma viúva alucinada) e o anão careca abraça numa preversão de apetites o frango assado tão conformemente arrumado na sua frigideira inox ou na sua embalagem de hipermercado.
Figurões piratas lançam os dados e puxam das cartas viciadas como vemos acontecer todos os dias baloiçando-se por cima de patetas distraídos ou de outros patetas com miolos alimentados a pilhas como aqueles que passam aos cardumes aqui na minha rua mas sem que a história nos seja contada assim fazendo de conta que tudo está como deve e que as magníficas leis da natureza não falham e que se cumprem todas as regras da ciência conhecida.
Oh paz podre oh santas alianças oh sociedades discretas oh almas simples oh bem intencionados oh ingénuos oh distraídos oh hipócritas venham cá todos que isto é connvosco este é o vosso retrato o vosso bilhete de identidade o vosso passaporte para o lado de cá da mentira.
Uma mulher gorda monta-se às costas dum homem cão gordo de chapéu e fato preto e há outro homem em mangas de camisa que lhe apalpa as mamas empoleirado num anão exausto e desfigurado pelo esforço. Outro anão palita os dentes com uma bandeira e outro acaba por estatelar-se rapidamente para fora da própria pintura.
Oh meu Deus como é vulgar este cenário.
Oh meu Deus como isto é de hoje e de sempre.
Carel Verlegh e Armando Martinez na Casa Municipal da Cultura
Publicado Diário de Coimbra 3 de Dezembro de 2002
Abre na Casa Municipal da Cultura uma exposição de pintura de Carel Verlegh, artista cuja obra já tive o gosto de apresentar com mais detalhe, noutra ocasião, aos leitores destas "conversas". Vem mostrar-nos, desta feita, uma longa série de pinturas, organizadas de forma a dar-nos uma visão retrospectiva da sua obra.
Em contraponto são apresentadas peças de escultura de Armando Martinez, galego de origem e cidadão de Coimbra pela constância com que regressa a esta terra e pelo modo como deu início – aqui mesmo, há mais de vinte anos – ao seu trabalho artístico. É especialmente laboriosa a actividade que desenvolve nas pedreiras e oficinas de escultor da região de Cantanhede.
Carel Verlegh ou a cor como metáfora da energia do mundo
Carel Verlegh evidencia, desde os seus primeiros trabalhos, uma enorme capacidade de transformar em paisagens interiores a sua leitura do mundo circundante, captando em sínteses de elevada densidade cromática uma floresta de seres em permanente luta corpo-a-corpo, cuja configuração, já muito distanciada do referencial que lhe deu origem, se autonomiza na mais alargada fantasmagoria, fronteira ou referência da indescritível energia do mundo. Aparentemente centrado em torno de esquematismos que o afirmaram como pintor facilmente reconhecível são, contudo, muito alargados os recursos da sua gramática expressiva.
Armando Martinez, a "pedra-mãe" e a alegria sem fim da viagem
O artista que escolhe a pedra como meio favorito de trabalho tem de ter, além da cultura e da sensibilidade respectivas, algo de mais enérgico, ou mais antigo, que o sólido saber necessário a todas as disciplinas da criação artística.
A escultura de Armando Martinez reflecte a experiência viva de contactos com a ampla diversidade do material lítico, e atestam o sentido de ofício que liga qualquer escultor de pedra à crepitação de antiguidade e aos metamorfismos da formação das rochas.
Ouvi-lo contar histórias de fósseis e blocos de pedra descobertos, mencionando o seu nome e a sua abundância, situa-nos algures entre o cenário imenso e mitológico das montanhas e o labor industrioso e poeirento das pedreiras donde saiu a matéria de que são feitas as catedrais.
Sem espaço para poder trazer-vos aqui um estudo sistemático de toda a sua obra, espalhada ao longo duma activa carreira internacional, iria referir principalmente o predomínio dum sensualismo sólido e fundamental, em sínteses regidas pela moderação e pela economia de meios.
A pedra esculpida permanece, apesar de esculpida, como forma simbolicamente compacta à flor da qual se desenvolvem configurações humanizadas, geralmente surpreendidas no gesto protector do abraço, no esforço titânico da maternidade ou no apelo fundamental da paixão.
É acentuada a modernidade sintética de formas opulentas, de cunho por vezes megalítico, apenas reduzidas no seu impacto por serem concebidas desta feita como trabalhos de reduzidas dimensões e mais fácil apresentação.
Noutro tipo de esculturas a forma alonga-se na perpendicular, atingindo o esquematismo totémico dum grito agudo de pedra, onde as mesmas sugestões de referência sensual e afectiva podem surgir, umas vezes de forma quase explícita, outras vezes mais francamente abstractizadas.
Em elevado número de obras é posta em evidência a variedade expressiva do material, que chega a incluir espécies rochosas muito raras, sendo habitual o contraste simultâneo de zonas lascadas e outras polidas.
Artista que viaja intensamente, mantém acesa a chama dum sentido de convivência que tem produzido frutos no estreitamento de laços entre Portugal e a Galiza.
Presente em largo número de obras públicas no seu país natal e em diversos outros, da Itália à Escócia, tem também um largo número de obras em jardins e praças portuguesas, numa clara demonstração da sua energia comunicativa, em tudo compaginável com o génio irrequieto do povo Galego, que connosco partilha a irrequietude insatisfeita de trota-mundos, fura-vidas descobridores e empreendedores de torna-viagem.
Gão Vasco em Salamanca, ou São Pedro do olhar triste
Publicado Diário de Coimbra 25 de Julho de 2002
As capitais de cultura multiplicam-se, como sinal possível de que a humanidade progride e o espírito vale.
As aceitações das candidaturas são sempre noticiadas como grandes vitórias, há grandes abraços e toda a gente parece feliz, porque o que vai passar-se irá perdurar na memória, por longos anos.
Desde os preparativos se levanta uma poalha doirada de expectativas, como se aquilo que nunca foi, pudesse vir a ser.
Porém, nada disso é intuitivo ou natural. O que desce, lenta e secretamente, vem suspenso pelos estranhos fios que sustêm o palanque doirado dos sonhos, e é mais do domínio das prendas inesperadas ou das revelações inauditas.
Há dias fui visitar Salamanca.
Soube pelos jornais que ali se inaugurara, com solenidade, uma exposição do grande pintor português e confesso, quase envergonhado, que fora apenas isso – para além da simpatia que nutro pela cidade – que motivou a decisão.
Na excursão de finalistas da minha escola, já lá vão tantos anos, foi-me dado ver o S.Pedro de Grão Vasco, num velho e soturno museu mesmo ao lado duma igreja antiga, feita de pedra escura.
Desculpem-me se falo assim mas, com os meus dezasseis anos, com chuva de inverno, foi mesmo assim que o S. Pedro me ficou na memória: um velho de olhar triste, vestido com uma roupa solene de oiro e pedrarias, de rosto fatigado, preocupadíssimo.
Acontece que, de momento, Salamanca está "Ciudad Europea de la Cultura"!…
Lamentavelmente distraído nem me passava pela ideia que coisas ia encontrar que pudessem ser do mundo inaudito dessas venturosas cidades.
Povo, muito povo enchendo todas as ruas, conversando e rindo alto. Casas bonitas, bem tratadas, ruas largas e grandes jardins, animação nuns sítios, serenidade sobrante para todos, em clima de enorme asseio.
Praças, largas praças onde os ecos flutuam, multiplicando sonoridades imperceptíveis como o bater de asas de milhares de vozes livres, que é som que não se compara com nenhum outro.
Bandeirolas e folhetos anunciavam esse acontecimento magnífico e é certo que havia uma abundância de factos culturais e artísticos de que toda a gente parecia estar inteirada pelo burburinho que ocorria aqui e acolá.
Entrei em vários monumentos magníficos e neles me perdi, olhando, olhando. A pedra antiga era quase loira de manhã, e à tarde – ao fim da tarde – parecia terra incendiada.
S. Pedro lá estava, como há muitos anos atrás. Um velho de olhar penetrantemente sério, desconfortavelmente sentado, oprimido por um traje pesadíssimo de ritualidade.
A exposição ocupa um edifício de proporções não muito amplas, generosamente enquadrado arquitectonicamente e com o interior tirando excelente partido de elementos de diversa natureza, antigos e modernos.
Dispondo a cidade de Salamanca duma alargada área histórica monumentalmente muito rica, onde também o conforto moderno tem lugar e presença estética, não tem o automóvel – felizmente – uma presença obsessiva. Circula por onde pode e lhe é permitido, deixando às pessoas que visitam e convivem ampla liberdade de paz e movimentos.
Será tudo isso que é ser uma capital de cultura?
Se for, então, estou plenamente de acordo.
Que desça também sobre nós essa benção. Que a cidade nos receba como uma casa enorme onde cabem todos os filhos e, mais folheto menos folheto, mais peça de teatro menos concerto de Jazz, eu possa também aqui ter esse sentimento caloroso e simples de poder navegar por entre gente serena de todas as idades, bebendo os que têm sede, sentados olhando a vida aqueles a quem não apeteça qualquer outra coisa.
O logotipo de Salamanca, capital da cultura, é um semicírculo azul, ornado de uma constelação de estrelas brancas e alaranjadas, uma das quais se destaca do semicírculo, tudo em fundo vermelho.
Que me perdoem os autores do logotipo de Coimbra, capital da Cultura, mas – com toda a sincera honestidade a que me sinto obrigado – dizer que não o aprecio é o mínimo que me pede a consciência.
A propósito, outra crítica construtiva, a título meramente exemplificativo: tenho passado pelas traseiras da Sé Velha e está lá perdido num pátio esconso um barraco com telhado de material ondulado, onde se acumula o lixo desleixado e é manifesta uma falta de aprumo sem limites.
Eu sei bem que tanta coisa mal arrumada e suja é capaz de não ir a tempo da capital da cultura, mas queria só avisar que em Salamanca não vi nada que se parecesse com aquilo que para ali está.
Ah! também gostei imenso da ponte romana completamente restaurada e que é só para peões. Fui até lá ao fundo e regalei-me com a barulho das águas do rio Tormes a correr, por entre o verde das folhagens. Já de noite as pessoas continuavam, numerosas, por todo o lado.
Gostei muito da capital da cultura de Salamanca e, se for assim em Coimbra – oxalá que sim – tenho a certeza que vai ficar na memória de toda a gente!…
João Abel Manta, um artista muito difícil de nomear, no Museu da Cidade
Publicado Diário de Coimbra 10 de Maio de 2002
É preciso ter cuidado com o nome com que classificamos este ou aquele artista.
Podemos estar a chamar-lhe alguma coisa que ele não é, ou a criar uma conotação tão diminuta das coisas que nos revela que, mais do que o conceito da pessoa, é o nosso olhar que fica preso nas determinações elementares de uma categorização que nada diz.
As crónicas abundantes vão à prateleira das classificações técnico-profissionais e tiram um, dois, às vezes mais termos caracterizadores e colam no artista etiquetas preguiçosas, apertadas como fatos mal feitos, no rodapé do discurso elogioso.
Também acho que não deve dizer-se bem dos artistas. Isso faz falta para as pessoas que já morreram e para as figuras desinteressantes que atingiram prestígios incontestáveis.
Dos artistas deve dizer-se o sentimento da verdade, já que devem trazer consigo o risco dalguma inquietação e combustível para algumas discussões entusiásticas.
Todos os nomes?
Que artista será, então, João Abel Manta, em breve resumo visitável no Edifício Chiado, na sala de exposições temporárias do Museu da Cidade?
Chamar-lhe-emos pintor? arquitecto? encenador? enciclopedista?
Quando olho para as suas coisas é como se estivesse à conversa com um caudaloso inventor de conceitos, ou perante um palco repleto de personagens servido pelo mais inesperado e surpreendente dos cenários.
Conceitos e cenários levados por vezes bem para além dos limites da "conveniência" da sua relação com a realidade visível, em incursões pelo mundo estranho dos seres que povoam o universo instável da invenção poética e pelo exercício da mais cálida ironia.
Ao enciclopedista – ou seja, ao homem culto de recursos imaginativos inesgotáveis – vou buscar o que me falta para entrever todas as coisas que não sei, nem saberei, mas que causam o mais secreto entusiasmo e a mais misteriosa surpresa.
Sabemos que a arte de J.A.M. é deliberadamente "impura", possui uma elevado teor de qualidade técnica, de ressonâncias emocionais e que está saturada de "sentidos". Sabemos como essas coisas são distantes da arte politicamente correcta de agora, que tem pouco a ver com a mão e muito pouco a ver… com o olhar!
Hoje a arte é mais grandes acontecimentos "sponsorizados", empresas de altos comissários, multimédias financeiro-administrativas de exótico gabarito. Os artistas e as ideias ficam lá na fila do fundo; o gesto estético é um corpo espremido por conceitos de vanguardistas-gestores de "novas linguagens", "desmaterializadas" e efémeras.
As vanguardas históricas passaram fome, deram quadros mal aceites por cama e mesa, combateram e derrotaram antigas convenções académicas sem imaginar que um dia viriam a ser leiloados por bilionários nas Londres e Novaiórques.
As vanguardas burocratizadas do sec. XXI vão ser muito mais difíceis de desmistificar, porque tomaram as suas precauções académico-políticas e não se iludiram com sonhos de generosidade artística.
Mas eu quero lá saber de tais coisas se estou a olhar para um desenho, uma pintura, um mecanismo mágico ou um "drama per musica" de João Abel!…
A capacidade acrobática do riso mais escarninho, o registo condoído da dor mais aguda, a percepção do gemido mais ténue, a gargalhada mais contundente e o clarão da mais viva sinceridade, está tudo espalhado por ali, para quem queira colher o fruto do olhar incisivo.
O cair ondulante das sedas, a transparência das organzas, a espessura repelente de certos uniformes, o ranço dos hábitos inquisitoriais estão todos por ali, em referenciações expressivas que se alargam ao mais vasto elenco de ideias artístico-culturais. Citações de todos os matizes estéticos, todas as matérias e todas as sensações, títulos e capítulos das obras incontáveis duma biblioteca de sonho.
As intenções boas e as boas intenções
A sala clara, mas de modestas dimensões, do museu da cidade, lá vai fazendo seu caminho, como devem andar as coisas que querem chegar longe.
Há dias vi lá uma exposição com coisas de crianças, que achei deliciosa. E, já agora, era veículo dum intenso sentido estético de modernidade!…
Vale sempre a pena entrar no museu e na sala das exposições temporárias, que têm de inventar novos espaços se quiserem um dia poder mostrar, por exemplo, uma verdadeira exposição de João Abel Manta que esteja à medida da estatura do artista, ou à medida do nosso interesse pelas coisas, que não é pequeno.
É tempo de acabar duma vez por todas com o espírito das colectivas paroquiais, das coisinhas bem intencionadas, do sentimento de magnanimidade abrangente que, apresentando todos os artistas, não mostra nenhum.
Que, desejando agradar a todos, não esclarece ninguém.
A arte e a sua lógica expositiva na cidade que é de todos – I
Publicado Diário de Coimbra 22 de Abril de 2002
Num dos últimos momentos da anterior vereação cultural da nossa cidade afirmou-se, certamente com admirável orgulho, o facto de se ter atingido o montante de não sei quantas centenas de exposições realizadas.
Tendo tido a ocasião de visitar um grande número delas, e estando a começar novo mandato autárquico, penso ser a altura ideal para fazer alguns comentários, defendendo que não é o número de iniciativas a atingir que é o dado fundamental do problema, mas sim o seu sentido de projecto, a sua comunicabilidade discursiva e o seu substracto cultural.
Penso, em termos muito gerais, que a realização de exposições em Coimbra não tem evidenciado coerência e sentido de estratégia artístico-cultural, mais parecendo derivada dum encadeado de acontecimentos avulsos com calendário funcionalmente preenchido, mas com aproveitamento qualitativo de precária consistência.
Independentemente da maior ou menor qualidade desta ou daquela iniciativa, o que me tem parecido mais notável é a ausência de um genuíno sentido de projecto, sendo elevado o nível de perda de energias entre trabalho feito e fruto aproveitado.
Aliás, um dos dramas mais agudos deste labor – que é levado a cabo por um aparelho material e humano já de notáveis proporções – é a pasmosa incapacidade de se tornar notado no conjunto da sociedade em que se insere, de suscitar o eco e de construir projecções adequadas.
O silêncio confortável, a palavra incómoda
Quanto aos actos de abertura, desisti há muito do aborrecimento social de frequentá-los de tal modo se configuram como desertos confusos de contemplantes desamparados, para os quais o beberete reservado às raras produções VIP não disfarça a pobreza franciscana de algumas palavras de elogiosa circunspecção.
O discurso de abertura de formato monográfico, que eu já vi praticado em lugares onde a cultura é motivo de convívio qualificado, seria a forma de tornar esse episódio num acto de valorização crítica a não perder e dignificaria a um tempo os artistas e os organizadores.
Uma atenção mais cuidada deveria ser dada ao material informativo que é posto ao alcance dos visitantes, evitando assimetrias que têm sido de regra: alguns catálogos quase luxuosos, outros completamente ausentes.
A componente dialogante de todo o articulado expositivo tem sido chocantemente omissa, não passando muitos acontecimentos de meros episódios de penduração de objectos que surgem sem razão e desaparecem passados dias, num triste esquecimento de anonimato.
A conquista de um mais amplo nível de interessados e a construção duma comunidade participante não pode fazer-se de costas viradas para as pessoas e pressupõe algo que não adianta prometer ou improvisar.
Espaços adequados, precisam-se
Há um aspecto relacionado com a própria concepção do edifício da Casa Municipal da Cultura que desde há muito me confrange e enche de perplexidade.
Não sei porque razão foi o edifício planificado assim, desconheço a sua memória descritiva e quais foram os quesitos apresentados ao arquitecto. Certo é que o seu aspecto inicial, com a belíssima sala principal amplamente aberta sobre o arvoredo da Sereia, me causou a mais admirável sensação.
Ao lado, uma sala mais pequena, recebeu a adequada designação de "galeria do jardim", de tal forma ela manteve o desígnio de se abrir ao espaço exterior.
A abundância de janelas e a escassez de paredes para mostrar objectos conduziu a um resultado confrangedor que nunca mais teve remédio: as janelas viradas para a Sereia foram progressivamente ocultas, sem que delas tenha ficado o mais leve rasto.
No caso das últimas exposições levadas a cabo pela vereação anterior a compartimentação do espaço expositivo foi levado a tais extremos, quer na sala maior quer na mais pequena, que provocou efeitos verdadeiramente sufocantes quer para as obras expostas, quer para os respectivos visitantes.
João Gordo, eco e transfiguração da imagem fotográfica
Publicado Diário de Coimbra 28 de Fevereiro de 2002
Integrada na quarta edição da Semana da Mostra Cultural da Universidade de Coimbra, da qual fazem parte um elevado número de iniciativas, abre no dia 1 de Março uma exposição de fotografias de João Gordo, a ter lugar no Teatro Académico de Gil Vicente, que dura, como o próprio nome da iniciativa indica, a brevidade modesta de apenas sete dias.
Tendo tido o privilégio de poder acompanhar, ao longo dos anos, o labor do artista, é com imenso interesse que tenho seguido este último desenvolvimento do seu trabalho, por me parecer que constitui algo de surpreendente e original, tocado duma subtil inteligência plástica a merecer bem mais destacado relevo.
De louvar é a atenção que à obra tem dispensado a pró-reitoria para a Cultura, que já anteriormente organizou uma exposição de obras do mesmo autor, dum ciclo sumptuosamente belo de imagens obtidas nos campos do Baixo Mondego.
A dificuldade do que é simples e a simplicidade do que é transcendente
O escasso número de obras que irá ser apresentado na pequena galeria do TAGV não me parece bastante, infelizmente, para revelar o potencial estético e a riqueza plástica que se encontram evidenciados neste novo ciclo, cuja consideração me parece desafiar, desde logo, a contingência da sua classificação como “uma exposição de fotografias”.
Considerando de passagem a invasão meteórica que a fotografia operou no universo da pintura, julgo que estamos perante um exercício notável da reafirmação de valores que a esse universo dizem respeito, como é patente em tantas outras explorações da arte fotográfica mais recente.
Partindo da captação de elementos arquitectónicos através de um exigente método de análise e selecção, o qual mereceria desde logo um mais alargado comentário, João Gordo passa a uma segunda fase do seu trabalho.
Através da associação dessas captações, em processos de teor sempre diferente, concentra e depura a matéria documental das mesmas, conferindo-lhes o valor de matéria visual pura, na invenção duma nova categoria de “seres” ou de “paisagens”, exactamente como um pintor faria com linhas, pontos e planos, na materialização duma nova face das coisas visíveis e/ou inventáveis.
Na maioria dos trabalhos, concebidos por meio de contraposições e alinhamentos aos quais não é alheia a utilização subtil e mínima do elemento de suporte, é por efeito de potenciação compositiva que a imagem se renova e transfigura, sendo apetecível a diversidade infinita de soluções combinatórias de conjuntos de obras entre si.
A fotografia como referencial da pintura e vice versa
Estamos portanto perante a assimilação de diferentes atitudes de expressão artística que não fazem esquecer nem arriscam subalternizar os valores do gesto fundador respectivo.
Ou seja, uma “pintura” ou uma “fotografia” feitas à base de valores máximos de ambos os reinos, que depuram sem esterilizar, dando um novo sentido à ideia de paisagem, ou conferindo nova substância a objectos exaltados pelo seu próprio isolamento, nos limites da percepção abstracta.
Uma parede dum teatro restaurado à qual a sombra confere a maciez do veludo ou uma margem de azul cuja modulação é tão explicita quanto misteriosa, são contrapostas ao seu próprio eco. Um alçado de Siza Vieira desdobra-se para além do seu ritmo inicial e, por mais acertado e feliz que possa ser como acto construtivo, assume o carácter de qualquer outra coisa inventada e ondulante.
Uma empena ebúrnea pela luz forte da meia tarde, uma cimalha indecifrável no seu geometrismo de sombra estreita ou a presença equívoca de três janelas circulares, parecem-nos sinais de uma outra realidade, suspensas na vastidão imperscrutável.
Onde moram tais obras?
Qual o céu que as cobre?
Já não interessa nem será possível dizê-lo. As imagens dadas a ver por João Gordo permitem uma quantidade enorme de questionamentos, e será essa a marca distintiva da obra criadora qualquer que seja a técnica de que se sirva.
Oxalá que Coimbra, terra grande/pequena no precipitado enlevo com que relativiza os seus próprios criadores, não ponha de lado a possibilidade feliz de reconhecer de forma mais cabal o valor inequívoco do testemunho artístico da obra de João Gordo.
Carlos Lobo, um olhar aberto no meio da multidão
Publicado Diário de Coimbra 7 de Dezembro de 2001
Tenho à minha frente e manipulo alguns esmaltes coloridos da autoria de Carlos Lobo, nome que lanço à escrita sem os adjectivos brilhantes que os homens merecem apenas depois de mortos.
Carlos Lobo com seu rosto limpo e bem barbeado caminha pela rua com vários papéis debaixo do braço. Não vai depressa nem devagar, mas sentimos nos seus passos uma segurança e uma delicada determinação.
Irá visitar um amigo necessitado de apoio? Irá à abertura dum acontecimento artístico ou mandar uma carta urgente para um continente distante? Provável é que vá encontrar-se com outros militantes da cultura ou reunir-se com ex-colegas envolvidos em problemas de trabalho e desemprego, carentes da solidariedade quente daqueles que se encontram na mesma situação, os únicos que podem trazer alento e estímulo verdadeiros.
Onde irá Carlos Lobo com seu olhar tranquilo e a voz serena que tanto invejo?
Não saberei nunca e todas essas hipóteses são possíveis. Certo é que vai seguro e não caminha em vão. Debaixo do braço alguns papéis preciosos, destino certo de ideias variadas, pensamentos coloridos preenchidos de intenção e sonho. Ou simplesmente o dom organizado e voluntário duma ilusão magnífica.
Acaricio outra vez o corpo ondulado dos esmaltes coloridos pelo pó mágico transfigurado pelo calor do pequeno forno laborioso, densamente cercado por um universo de alfaias e produtos e artefactos metodicamente alinhados.
Mergulho na vibração espontânea que só as coisas carinhosa e longamente elaboradas possuem, atravessadas pela indeterminação da fantasia e pela casualidade da revelação que apenas à natureza infinita diz respeito.
São obras de expressão condensada que oscilam entre a candura figurativa de visões ingénuas e o desafio enorme da visão abstracta. Quer num quer noutro extremo desse universo existe contudo a marca constante dum diálogo respeitoso e inteligente com materiais de utilização subtil e misteriosa. Um elaborado processo de descoberta e encantamento.
O consenso de simpatia e de afabilidade que geram os espíritos da categoria de Carlos Lobo tornam quase dispensável mais esta conversa de pintor. Todos o conheceram e todos o estimaram. Todos vão elogiá-lo e dizer que pessoas assim fazem imensa falta.
A ilusão contudo também cansa, e olhar para o mundo e procurar entendê-lo em toda a sua conflagração de paixões divergentes é como descer uma escada de expectativas que parece não ter fim.
Enquanto estivermos vivos é que vale a pena dar atenção às pessoas, escutar a mensagem quente e útil que possam querer transmitir-nos. Todas os homens bons que desaparecem são mais uma razão para dar ouvidos àqueles que ainda estão disponíveis e generosamente interessados em prestar seu contributo.
A sociedade concorrencial possui uma lógica impiedosa de categorizar os indivíduos por uma determinada ordem de notabilidades incontestáveis.
A essa norma se sujeitam todos os cidadãos, todos os artistas, todos aqueles que possuem uma ideia generosa e útil escondida em seu coração. O mais certo é que a sociedade não lhes dê ouvidos, e vá ficar perdida mais uma preciosa razão para sentir que se deu um pequeno passo em frente na salvação da própria humanidade.
Na “Invenção do Dia Claro”, disse Almada em seu discurso pitoresco que “quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”.
Carlos Lobo nunca foi uma individualidade.
Que bom para ele, e que bom para nós que possa um homem ser uma criatura insigne, sem ter que levar uma estátua, ou uma medalha, ou um cargo público, e permanecer vivo como ele por certo fica na lembrança de todos aqueles que o conheceram.
Museu Machado de Castro, Coimbra e seus pintores nas colecções da cidade
Publicado Diário de Coimbra 18 de Outubro de 2001
Diz-me como olhas e eu dir-te-ei aquilo que vês.
Diz-me o que vês e eu dir-te-ei de que matéria é feita a tua alma e quais as portas de entrada que serás capaz de abrir-me na severidade, na secura ou na fantasia geral do mundo.
Abriu no dia 11 de Outubro no Museu Machado de Castro a exposição que lá ficará até 2 de Dezembro próximo, “Coimbra e seus pintores nas colecções da cidade” e eu aproveito a frase com que abri esta crónica para sinalizar a direcção exacta que desejaria imprimir a estas minhas impressões.
Não vou abordar o conteúdo da exposição quanto aos artistas ou quanto às obras expostas, numa iniciativa que desde já me parece digna da melhor atenção, sem deixar de atender às limitações referidas pela própria Directora do Museu, Adília Alarcão, no prefácio do catálogo respectivo.
Aquilo que me interessa, assunto que já venho abordando de formas e perspectivas diversas nesta coluna, é a importância relativa que o olhar do artista poderá ter no conjunto dos impulsos que polarizam a sensibilidade geral, e qual o espaço possível que a sociedade estará disposta a reservar para essa plataforma alargada e diferente da compreensão das coisas.
Referindo ainda o teor do prefácio, conviria sugerir entretanto, às instituições capazes disso, com o optimismo ingénuo que sempre move as propostas dos artistas, que não ficasse por aqui o balanço das pinturas que foram pintadas em Coimbra no Sec.XX, mesmo sem terem tido a graça de passar às honestas colecções…
A saudade de tudo ser diferente
Uma exposição que mostra uma cidade vista pelos pintores que ela própria elegeu para figurarem nas suas paredes poderá servir para categorizar todas as variantes e componentes da cultura artística desse recanto do mundo?
Servirá essa exposição para nos informar mais sobre os artistas em si, as suas preocupações e a sua capacidade expressiva, ou será a sociedade que se mostra na sua capacidade de ver (ou não) aquilo que se encontra em seu redor?
Que pintura estaria ali perante os nossos olhos se fosse outra a curiosidade, a cultura e o sentido prospectivo do coleccionismo vigente?
Que coleccionadores ou que artistas, que cultura, ou que segmento da cultura é que está ali posta em apreço, para que possamos formar de nós uma ideia que fique (ou não) como denominador comum dum legítimo e autêntico olhar pensativo?
Que pintura, que pintores e que coleccionadores iríamos encontrar exactamente naquelas mesmas salas, se em todos pudesse ter havido no século “um pouco mais de sol, um pouco mais de azul”?
Estudar o passado, criticar o presente, amar o futuro
O catálogo da mostra, edição de 1000 exemplares do Instituto Português de Museus, é um trabalho de inequívoca dignidade, com um texto de abertura marcado pela finura da expressão escrita e pela distinção pedagógica duma visão distanciada à qual não escasseia a generosidade de procurar entender uma realidade que tem sido tão abundantemente ignorada.
Seguindo esta ou outra estruturação observativa, desertos estão praticamente os caminhos que conduziriam ao esvaziamento do tema assim tratado nas breves páginas que ocupa.
À coordenadora Virgínia Gomes, que foi quem concebeu esta iniciativa, coube o texto de remate do catálogo “Ser pintor em Coimbra (1878 – 1978)”, redigido com grande sentido de medida e evidente preocupação de rigor histórico.
Sobre a realização da exposição em si, que nos oferece uma evidente procura de equilíbrio dentro do mais alargado critério de abrangência, debruça-se a nostalgia do visitante sequioso de alguma vibração, dos subjectivismos estimulantes e dos fermentos activos da surpreendente pluralidade que ofereceu a arte do Sec. XX.
A mostra, além de ser ela mesma na inevitável pluralidade de quem a observa, é, na minha opinião, um recado importante para todos os interessados: coleccionadores, artistas, apreciadores críticos, estudiosos, promotores, divulgadores, agentes de ensino, etc.
A todos cabe uma parcela importante de responsabilidade por tudo aquilo que fizeram e não fizeram, por toda a essência da realidade que puderam ou quiseram assimilar, por toda a energia ou abertura na configuração de algo que agora está esgotado e não poder recuperar-se: o intervalo de tempo a que diz respeito.
Qual a motivação que resta, a uns e a outros, no dealbar do terceiro milénio, de prosseguir na tarefa de enriquecer o património da visão das coisas?
Será que houve alguém que aprendeu a ver o mundo pelos olhos dos artistas em exposição? Será que têm herdeiros os distintos coleccionadores ali presentes?
Qual a abertura para se poder instalar um diálogo mais produtivo e visível de situação a situação, entretecendo continuidades novas e enriquecedoras da cultura conjunta que só a procura, a troca e o debate podem estimular?
Quais as portas abertas por onde poderemos entrar um dia destes, encontrando face a face alguns destes notáveis interlocutores isolados e absortos?
Aveiro e Cantanhede, proximidades diferentes
Publicado Diário de Coimbra 23 de Julho de 2001
Nalgumas das últimas edições desta coluna tenho vindo a abordar a questão da utilização plena do trabalho de organização de iniciativas artístico-culturais, seja qual for o tipo dos acontecimentos e seja qual for a entidade que os promova.
O problema, tal como já o apresentei noutras alturas, não se situa nem na falta de quantidade nem na falta de qualidade dos mesmos, mas na precariedade ou na ausência dos meios necessários de divulgação, documentação e debate crítico, de forma a ultrapassar a confidencialidade e improdutividade a que estão condenadas mesmo as mais notáveis dessas iniciativas.
Partindo do princípio optimista de que nascem animadas dum genuíno interesse de divulgação também não faz sentido confinarem-se ao perímetro escasso da vizinhança imediata, como se vivêssemos em planetas longínquos, de costas voltadas para tesouros que estão logo ali, ao estender mão ou ao estender do nosso próprio olhar.
Uma questão de autonomia cultural
Se vou a um hipermercado posso comprar revistas sugestivas e bem ilustradas que me dão informações muito concretas daquilo que está a passar-se em Paris, a que horas e em que lugares. Lisboa é Lisboa, vem nos jornais nacionais e noutras coisas que já sabemos. O que eu não sei é o que se passa aqui, ao virar da esquina, a poucos Km de minha casa!…
Porque é que terão de ser as coisas assim? Estaremos condenados a saber mais facilmente o que ocorre em Lisboa ou em Madrid do que o que se passa num raio de 60 Km do sítio onde moramos? Não estaremos a desprezar algo de precioso e de insubstituível que é o nosso próprio sentido de autonomia cultural?
Aveiro ao virar duma auto-estrada
Por ter estado ligado a realizações artísticas de minha própria autoria, na cidade de Aveiro, e por ser destinatário da abundante informação cultural oriunda de Cantanhede, tenho-me vindo a aperceber que estamos no itinerário de importantes e interessantes iniciativas, ocorrendo elas de forma sistemática para desconhecimento duma enorme maioria. O que se aplicará evidentemente a várias outras localidades, mas vamos por partes.
Tenho em meu poder um conjunto impressionante de catálogos editados pelos Serviços Culturais da Cidade de Aveiro. É o ciclo “Arte do Século” e tem conseguido trazer àquela cidade alguns dos principais valores da arte portuguesa. Júlio Resende, João Cutileiro, José Rodrigues, Arpad Szenes, Vieira da Silva e Júlio Pomar são as referências nominais que tenho ao meu alcance.
Não fica por aqui o abertíssimo leque de realizações culturais que decorre em Aveiro, não sendo possível esquecer aquelas que a própria Universidade leva a cabo por sua iniciativa e às quais já tive ocasião de me referir noutra ocasião, se acaso está lembrado o leitor.
Aliás, no magnífico Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, a valer por si só uma visita, decorrem frequentemente acontecimentos do maior interesse, como foi o caso da exposição recente: “O Azulejo em Portugal no Sec. XX” cujo interesse revestiu, para falar bem e depressa, nível mundial.
E Cantanhede a meio caminho
No que diz respeito a Cantanhede, é também longa a série de realizações que vai tomando forma, sendo sempre recheada e variada a sua agenda cultural. De notar, contudo, a vocação que é patente de desejar inscrever a sua acção no âmbito da modernidade, da criatividade, da ecologia etc.
Ainda aberta ao público no momento em que escrevo esta crónica está a exposição que é dedicada ao notável artista René Bertholo e que se apresenta na Casa Municipal da Cultura de Cantanhede.
Os catálogos das exposições que se realizam em Cantanhede têm a característica de aliar à sua qualidade gráfica o bom nível de conteúdo estético e formativo, para não falar nos preços, uma agradável surpresa!…
Eu sei que o leitor pode ficar zangado por eu só agora lhe estar a falar de tudo isto, dado que a maioria dos acontecimentos aqui referidos já teve lugar.
Mas adiantará certamente desafiar quem tem o poder para que nos faça acreditar que a descentralização e a autonomia cultural não são apenas conceitos folclóricos destituídos de qualquer sentido, e que vale a pena de pensarmos que não somos como pequenas aldeias isoladas no vale recôndito de montanhas que não nos deixam ver os horizontes.
Será ingenuidade inconsequente pensar que entidades poderosas e supra regionais como a Secretaria de Estado da Cultura ou a Comissão de Coordenação da Região Centro, ou os ministérios a quem pagamos os impostos poderiam um dia de forma concreta e prática, começar a ajudar a resolver o problema?
Eu sei que a SEC têm um veículo de divulgação de acontecimentos, leio no JL e já visitei na net. A CCRC também já colabora com a realização de acontecimentos culturais. É público e também está na net.
Mas mesmo bom seria que um dia destes todas as populações vizinhas desta região do mundo pudessem vir a saber umas das outras, ter realizações conjuntas, participando de mãos dadas em festividades e acontecimentos de património comum, dando o que tivessem para dar e recebendo tudo em troca. Como se fossemos, sei lá, compatriotas dum mesmo país que fala a mesma lingua e quer entender-se na variedade de projectos culturais diversos mas complementares!…
Será isso do domínio exclusivo do sonho utópico?
Seremos nós assim, tão longinquamente ignotos, habitantes de planetas estranhos e de órbitas desencontrados?
Telo de Morais ou a vontade de criar, coleccionando
Publicado Diário de Coimbra 16 de Julho de 2001
Os grandes momentos da cultura e das artes, se bem que derivados de conjunturas específicas, não resultaram nunca de casualidades fortuitas. A sua eclosão está dependente do trabalho lúcido, esforçado e persistente.
O coleccionismo eivado de exaltação estética é uma das condições fundamentais para que qualquer sociedade, em qualquer período da história da humanidade, possa atingir o patamar essencial duma verdadeira cultura artística e faz parte desse conjunto de fenómenos que não dependem do acaso, mas da implantação de valores humanos determinados.
É por seu intermédio que as obras de arte, no seu todo, adquirem essa qualidade de “objectos falantes” que jamais poderão atingir como peças descoordenadas e desconjuntas, por mais nobre que seja o material de que são feitas.
Não é possível descrever esse sentimento profundo de enlevo e de paixão que atravessa o espírito quando diante do coleccionador se apresenta a obra, como coisa por casualidade descoberta, embora procurada com determinação inteligente.
Merecer uma visão do mundo
Não é porém na intensidade desses momentos que reside a virtude essencial do acto de coleccionar. O valor da descoberta pode, por variadas razões, ser equivalente a uma segunda criação do objecto se for norteada pelo gosto e pela consciência crítica. O que quer dizer que tem de levar dentro, associados, dotes da cultura e da sensibilidade capazes de abrir as verdadeiras |