Colette Vilatte ou a pintura como exercício excelente
Publicado Diário de Coimbra 2 de Novembro e 25 de Setembro de 2000
Ao volante do meu já antigo companheiro de viagens aproximo-me do Bom Velho, lugar onde se situa o atelier de Colette. Sobretudo depois de se passar Alcabideque a paisagem adquire uma nobreza rara, um intimismo clássico comprovativo de origens culturais mediterrânicas.
As formas esguias dos ciprestes e os maciços de pinheiros mansos que se espalham por sobre as colinas produzem um efeito de cenário a que não faltam pórticos, ninfas, faunos e poetas (estes acrescentados pela imaginação, já se vê…).
Por entre a erva seca (filha do desleixo da desertificação e da mãe amorosa dos incêndios) resistem bravamente oliveiras e azinheiras tristemente abandonadas, o todo envolvido pelo mistério de séculos, em terra de ruínas romanas e lembranças de muitas eras.
Já no atelier não é o peso das memórias nem o vazio irreparável das ausências que me retêm. A pintura de Colette Vilatte está ali e é um desafio inevitável para o olhar e para o alinhamento das ideias.
Comece por dizer-se que C.V. não é daquelas pessoas que tenha entrado na arte por predestinação juvenil, ou opção natural de estudos. A sua vida é feita de imaginários confluentes de origens diversas, onde a necessidade de expressão artística resulta duma carência lentamente amadurecida. Não surpreende portanto que produza uma pintura marcada por um forte sentido de rigor e moderação de gestos, aquilo que tanto admiro e a que chamo “economia de meios”.
Abstraccionismos há muitos, poderia dizer-se. E até há casos em que o fervor “espontaneísta” tropeça no degrau resvaladiço das soluções expeditivas, portas que se abrem para salas vazias, de ar tão rarefeito que nelas mal se respira.
A pintura de Colette liberta, até à austeridade, de alusões confrontáveis com a experiência dos nossos sentidos, não deixa de evidenciar um labor orientado para a descoberta de uma “figuração”, determinada pelo sentimento e pela sensibilidade, de “seres” que povoam a alma do mundo. Cartografia de continentes e oceanos de formação cosmicamente distante ou vestígios recuperados da sinalética de painéis e painéis publicitários, aos quais o esplendor gráfico de um instante não livra da inevitável erosão do tempo e do mergulho insondável na fragmentação da mensagem plástica, completamente liberta de todos os recados supérfluos e invasores.
A pintora reúne as impressões e impulsos oriundos dessas coordenadas tão distantes, em alinhamentos ora sinuosos ora ritmados por inflexões acentuadas, a totalidade da obra aglutinada pela cortina de manchas subtis e fragmentárias, franja nebulosa que os acasos e virtudes do material diluído adequadamente propiciam.
Todo este universo surge marcado pela elaboração suave e cuidadosa e se o gesto aqui e ali surge despreendido e casual, é porque obedece aos preceitos dessa cartografia de continentes distantes ou interiores, aos quais um critério de arrumação plástica subdivide em suportes diferenciados, sem que essa expediente releve duma qualquer intenção delimitativa, estruturante ou fracturante do campo.
Se um traço atravessa a tela de extremo a extremo, aquilo que poderia ser de início um simples risco na pele lisa e rápida do suporte inerte, transmuta-se numa vibração, numa fractura delimitativa de compartimentos enriquecidos por tonalidades, escorrências e casualidades inerentes ao exercício de tudo o que há de mais simples, no exercício excelente desta arte magnífica a que se chama pintura.
Colette Vilatte expõe na Casa Municipal da Cultura
E não deixa de ser curioso e interessante que, tendo-me ocupado ultimamente com um tema recorrente da teorização das artes e da estética, que é “a morte da arte”, a “desmaterialização da arte” ou o “fim da pintura”, tenha mais uma vez e sempre tido a oportunidade gratificante de me encontrar com Colette Vilatte, obreira diligente da perpetuidade da arte da pintura, a tal coisa que só morre se dentro de nós deixarmos secar a fonte fresca e esclarecida do nosso olhar pensativo.
Aí está, estimado leitor, um tema bem nutrido para uma série de “conversas” a desenvolver aqui, no futuro próximo.
Entretanto, e desde o dia 3 de Outubro, visite a exposição de C.V. patente na Casa Municipal da Cultura.
Abrunheiro – 25 anos, na Casa Municipal da Cultura
Publicado Diário de Coimbra 27 de Novembro de 1999
O artista confessa-se exilado por iniciativa própria na sua terra de origem. Fugido às contingências, às várias alienações e à pouca generosidade. Não é pessoa que apareça por aqui e por ali, empunhando a taça da estratégia colunável.
Abrunheiro procurou distanciar-se, ganhar altitude, legitimar a autonomia do seu discurso. Emigrou para dentro de si. Procurou-se e regressa muitos anos depois, com um braçado de paragens percorridas no extenso território da sua necessidade e do seu desejo. Não há exercício mais árduo e parede mais a pique: atravessar léguas e léguas de território ausente, navegar milhas e milhas de mar enxuto, em busca de algo que está dentro.
A pintura que nos oferece é duma opulência desusada, profundamente marcada por uma experiência desenhística que pertence ao percurso do artista gráfico que de modo consistente transferiu do estirador para a paleta uma maestria oficinal impressionante. Todos os seus contornos são tão esmeradamente definidos, com gradientes luminosos tão exactamente categorizados, que não deixam espaço a qualquer encantamento dúbio, desfocagem inoportuna ou intrusão astigmática. O todo especialmente caracterizado pelo uso tão comedido da matéria pictórica, que não chegamos a dar pela presença material do óleo, quando é essa a técnica utilizada.
O drama interior, se questionado, é enormemente confrontado com essa claridade inequívoca, à qual se acrescenta um enorme optimismo colorista que se exprime até às culminâncias dum sensualismo onírico, recuperação impressiva de paragens cheias de espanto, recordações de sonhos de criança que dorme, ou de alma regressada agora mesmo dum além inexplicável e resplandecente.
Nem o olhar da águia nos atormenta nem as garras do leão nos assustam, metaforicamente ocultas por um par de luvas da mais requintada pelica.
O ventre claro e luminoso da mulher é como uma praia e nele as pegadas caminham para a luz. A luz omnipresente: no vestuário das pessoas já mortas, na translúcida evocação da Mãe, na transparência poligonal das cores, nos planos entrepostos, nas imagens de leituras múltiplas, na simbólica persistente.
Só o rosto do próprio, se auto-retratado, nos confronta com a gravidade solene do silêncio, com a visão distante dos problemas sem resposta ou o olhar descido daquele que procura no interior aquilo que não encontra fora, estendendo uma mão problematicamente vazia que tanto oferece como solicita.
A sublimação mais adequada que me parece ter encontrado do gesto pictórico de Abrunheiro situa-se na natureza mesma dos suportes por ele mais frequentemente utilizados. Telas de rede fina ou aglomerados de madeira de superfície firme e lisa, superfícies duma brancura estreme em cuja alvura incólume o olhar do pintor se pode perder no primeiro instante como num oceano de luz, sem margens nem fronteiras, sem fim nem princípio.
É nesse território imponderável que se expande a pronunciada vocação lírica do artista ou o seu cansaço dos paradoxos do quotidiano, onde nos dá a ver coisas e objectos transfigurados, muito para além dos limites plausíveis da realidade. Uma cidade, como monturo de lixo fétido, é retratada com as cores da cidade dos brinquedos de Pinóquio e as atractivas ressonâncias de papel de lustro da casa dos confeitos de "Hansel und Grettel".
Pintura excessiva no seu tormento de explicitação?
A focagem omnipresente, tão abundantemente suspensa de uma confessada vocação literária, mantem o olhar do pintor associado a um compromisso estrito da visão com o objecto que se dá a ver, compromisso a que muitas pinturas se vêm mostrando alheias.
Que importa isso a um artista que acerta todos os seus relógios pela hora incerta, em quadrantes de geração esquisita dum sujeito ausente que persiste na busca do tempo que não é, e que um dia destes pode surpreender-nos ao virar da esquina dum sonho ou procurando pelo chão a jóia perdida dum sentimento?
Pintura em azulejo de Carlos Alberto Ferrão na ARTE - galeria estúdio
Publicado Diário de Coimbra 27 de Novembro de 1999
Com regularidade serena e a pertinácia que é possível para qualquer artista radicado neste local ignoto das grandes movimentações artísticas, vem revelando Carlos Alberto Ferrão desde 1984 ao público apreciador das artes o produto de parte do seu labor e das suas diversas facetas de criador plástico.
O seu curriculum denuncia uma significativa experiência no domínio da pintura a óleo e um enraizado sentimento dos valores desenhísticos mas é a sua faceta de pintor sobre azulejos que se tem vindo a tornar mais conhecida, pelo conjunto de realizações mais contínuas e recentes.
Pintor ou artista do azulejo?
Assinalo e sublinho a expressão presente no próprio convite feito para a exposição patente desde o dia 23 de Outubro na Arte – Galeria Estúdio, porque me parece estarmos essencialmente em presença dum artista cujo universo cultural e cujos recursos de comunicabilidade se encontram plenamente desenvolvidos no universo que à pintura dizem respeito.
Faço essa afirmação porque tenho tido o privilégio de conhecer a reserva de sensibilidade, cultura e labor artísticos de C.A.F., que não confinam de modo algum o seu domínio de interesses à arte de colorir azulejos, ainda por cima fatalmente impedidos de virem a ser utilizados como cobertura mural, de tal modo está assumida a sua natureza de suporte colado sobre madeira e devidamente encaixilhado.
Não que essa característica seja por qualquer forma carente de legitimidade ou nobreza expressiva. A opinião que exprimo é relativa a uma evidência para quem conhece a variedade de recursos de C.A.F., quer no domínio doutras modalidades artísticas, quer na apropriação que efectua dum imaginário pleno de ironia e sentido plástico e que é francamente pouco conhecido.
O azulejo: encontro de traços e de cores vibrantes
Como é próprio de tantas e tantas telas pintadas por outros artistas pintores, também a generalidade dos trabalhos de C.A.F. tem como gesto inicial a atitude estruturante do desenho. Desenho ao qual a démarche colorista se vem adicionar sem ser de modo gratuito, cada um dos quais reinvindicando espaço próprio, disputando por vezes um ao outro uma porção de respectiva autonomia.
O traço, aliás, anima-se duma instabilidade posicional que recusa a submissão estrita ao compromisso figurativo e abre caminho a diferenciações de que a cor se encarrega de tirar partido adequado. Noutros casos chega a simular a atitude visualmente dinâmica duma focagem/desfocagem, que à visualidade empresta o efeito dinamizador da dita quarta dimensão, o factor tempo.
Uma exposição nunca satisfaz plenamente o artista porque nela nunca se diz tudo que haveria para dizer. A mim, como espectador privilegiado do tão rico universo criativo de C.A.F., lamento que não lhe tenha sido possível até agora demonstrar numa sala bem grande duma instituição cultural devidamente responsável, uma retrospectiva bem estruturada de todo esse tesouro confidencial de experiência artística multifacetada que é a do Artista em apreço, presente até ao dia 5 de Novembro na Arte - Galeria Estúdio.
A sugestão fica feita, é merecida pelo Artista, mas os beneficiários seríamos seguramente todos nós.
Três factos artísticos alusivos ao III Reich e algumas perguntas inquietantes
Publicado pelo Diário de Coimbra de 1 de Setembro de 1999
1º facto: O membro das SS que substituiu, por motivos políticos, o então director do Folkwang Museum, de Essen, teve uma afirmação que, talvez sem dar por isso, fielmente retratou o programa cultural do NSDAP (Partido nazi):
- O objecto mais perfeito que foi criado até ao presente, não saiu dos ateliers dos nossos artistas. É o capacete de aço que envergam os nossos combatentes!...
2º facto: Em 1937 tiveram lugar as célebres exposições promovidas durante o regime de Adolf Hitler para ridicularizar e perseguir a arte moderna. Alguns dos mais destacados membros da comunidade artística da altura eram elevados expoentes do movimento expressionista e à sua arte foi atribuída a designação ultrajante que era título dessas mesmas exposições: arte degenerada.
Curioso é notar, entretanto, que o próprio NSDAP utilizava uma expressão plástica caracterizadamente expressionista ao confeccionar os seus cartazes de propaganda política...
3º facto: Por esses conturbados tempos foram confiscados pelo sinistro Joseph Goebbels cerca de 20.000 obras modernas a museus do próprio pais. À parte alguns milhares de obras menores, queimadas num gigantesco auto de fé em 20 de Março de 1939, em Berlin, foram as de mais elevada cotação encaminhadas para o mercado neutro da Suíça e aì convenientemente transaccionadas para subsidiar o esforço de guerra alemão (armas por quadros...)
O empenho dos artistas em geral em favor da paz é muito mais intenso do que aquilo que nos é dado ver pela divulgação, digamos institucionalizada, das respectivas obras.
Nem os próprios alemães, que maciça e encarniçadamente apoiaram Adolf Hitler, se podem queixar de não terem sido vigorosamente alertados, pela arte de compatriotas seus, para a estupidez insensata do conflito. Lembremos George Grosz, Otto Dix ou Max Beckmann, para citar apenas alguns casos superlativos.
Sessenta anos depois da II Guerra Mundial, contudo, qual é a situação de paz que nos é oferecida num mundo que deveria estar radicalmente liberto das sequelas dessa conflagração, comandado esmagadoramente pelas potências mais desenvolvidas em todas as áreas, espectadoras compassivas e utilitárias do fenómeno a que se chama o efeito de globalização?
Nos sempre e cada vez mais milionários leilões, onde se transaccionam agora ávida e livremente trabalhos dos artistas do expressionismo alemão, qual é o montante de tais obras arrematadas pelos bem sucedidos accionistas das indústrias belicistas da actualidade e pelos cada vez mais prósperos negociantes de armas de guerra?
Serralves e Vila Nova de Cerveira
Publicado Diário de Coimbra 27 de Agosto de 1999
A cidade de Coimbra, em Agosto, parece cansada de ciência e a maioria da comunidade cultural substitui a árdua consolidação dos seus curricula por uma ausência purificante.
Pergunto a mim próprio qual é a verdadeira Coimbra. Se esta que se espreguiça algures, ao sol reparador dos ares de Agosto, ou a outra, aquela que afadigadamente se movimenta ao longo do descontínuo calendário dos compromissos académicos.
O leitor, que conhece a cidade muito melhor do que eu, que faça o seu próprio juízo, respondendo-me quem saiba se é justificado e compreensível este pesado e adormecido silêncio de Verão que se repete, pontualmente, todos os anos.
É curioso notar que, exactamente neste período do ano, surgem por aqui e por ali, de Norte a Sul do País, uma vaga enorme de acontecimentos de grande significado cultural e artístico. E não só em Lisboa ou no Porto.
Gerhard Gutruf na Sala da Cidade
Refrescando Agosto encontra-se em Coimbra a exposição de Gerhard Gutruf, promovida pela Embaixada da Áustria conforme consta na Agenda Turística, presente até dia 20 na Sala da Cidade – Refeitório de Santa Cruz.
É o valioso testemunho dum labor generoso do ponto de vista pedagógico, que abre simultaneamente para os domínios da pintura e da gravura. A realização merecia elementos de acompanhamento e informação de melhor qualidade, e penso que o ideal seria mesmo uma conferência a realizar pelo autor que, segundo parece, chegou a estar na cidade para montagem da sua exposição.
Visita ao Museu de Serralves
A cidade do Porto continua a aquecer os músculos para o enorme e milionário acontecimento de 2001, Capital Europeia da Cultura. E mostra serviço, não tenhamos dúvidas. Coimbra, se quizer aproveitar e ganhar balanço, não perde nada em estar muitíssimo atenta a este labor organizativo.
Serralves é muita coisa. Tanta coisa que não cabe no discurso resumido nesta crónica.
Primeiro, o conjunto e o seu significado histórico, a forma como surgiu e o modo como está ali agora, à disposição de toda a gente.
O edifício inicial, os jardins, a fundação e as suas colecções, as suas iniciativas e projectos.
O Museu de Arte Contemporânea, a obra arquitectónica de Siza Vieira e o projecto institucional, que engloba como realização actual de maior visibilidade a exposição "Circa 1968".
Entremos primeiro no espaço de liberdade verde que tudo envolve, na maior das calmas.
A generosidade de espaço que caracteriza o conjunto e o seu enquadramento natural demonstra-nos a razão daqueles que em devido tempo sabem planificar com vistas largas. Quando foi edificado, o palácio e os seus jardins devem ter parecido um exagero colocado em quintas espaçosas, mas muito fora de mão.
O intenso prazer que nos proporciona a visita confirma o que já era nossa convicção: estamos cansados de obras de concepção mesquinha e atarracada, de prédios em cima uns dos outros, de espaços saturados, de carros em cima dos passeios, para não falar das medonhas ruas sem passeios onde está aberta a caça ao peão, e por onde o peão tem de aprender a trepar paredes se quiser sobreviver.
Um café com Siza Vieira, não é para todos
Bebamos um café com Siza Vieira na elegantíssima cafetaria que desenhou para nós, até ao mais ínfimo detalhe. Seja a presença do Arquitecto uma ficção a que se permitem estas insignificantes "conversas de pintor", certo é que o diálogo é possível, por ser tão intenso o conjunto de impressões estéticas que todo o edifício desperta no visitante.
Sem desprimor para a exposição ali presente, é óbvio que o edifício e a sua concepção disputam uma parte muito significativa da atenção dos olhares disponíveis de quem entra.
Desde a implantação da obra, das opções que tiveram de ser feitas para existir uma boa articulação com o material paisagístico e arquitectónico pré-existente, toda a história do edifício deve ser um emaranhado de razões cheias de interesse conceptual que teria interesse conhecer.
Para mim, sem ter conhecimento dessa história feita de complexidades e opções candentes, há um aspecto que sinceramente me conquistou, para além dum universo doutras razões apreciativas: a sequência de relações que o edifício estabelece com a área envolvente e a utilização que o Arquitecto faz da substância visual que está ao seu dispôr e que nos vai sendo revelada através das aberturas rasgadas na construção.
As janelas, de dimensões cinemascópicas por vezes, constituem-se como aberturas de enorme sentido revelador quer da paisagem natural, quer da plástica interposta das restantes áreas do edifício. Caso a caso parece-me sempre exemplar o tipo de opções que foram feitas e é até possível fazer um exercício muito curioso: tentar descobrir, pela movimentação, os diversos jogos possíveis de enquadramento que uma só janela permite. O resultado é surpreendente e fornece uma infinidade de reflexões sobre o potencial da obra do nosso interlocutor que, embora ausente, se revelou magnífico de eloquência.
Para quem vá em direcção ao Norte, muitas são as referências artísticas que não convém ignorar. Entre elas destaque para a X Bienal de Vila Nova de Cerveira, esplêndido destino de férias culturais, em grande actividade até 12 de Setembro.
Castro de Sanfins e Mário Botas
Publicado Diário de Coimbra 20 de Agosto de 1999
Coimbra em Agosto, a cidade no seu melhor.
É assim, com menos gente e com menos (muito menos) automóveis, que se prova o que é obvio: a má arrumação do cimento armado, a exagerada taxa de ocupação do solo urbano.
A paz merecida de Agosto podia ser de todo o ano se fosse outra a arrumação das coisas. E não me venham com razões do negócio porque o negócio também podia fazer-se deixando às pessoas espaço livre para viver.
E nós, os poucos que cá ficamos este mês, também devemos pensar nisto: A cidade é construída para todos, mas só alguns mandam na construção da cidade toda.
Coleccionar Arte, refrescar Agosto
Agosto em Coimbra, gente ausente, portas fechadas. Os autocarros rareiam, mas só dá conta disso o turista mais pobre e o número de cidadãos residentes que não possui o sacrossanto objecto de transporte privado: polui e transtorna o quotidiano, mas quem há aí que queira virar a cara a esse naco de liberdade possível. O carro: sustentáculo afirmativo do ego e ensejo dominador do tempo e do espaço!
Entretanto, não se esqueça duma coisa, estimado leitor: Se prescindir de trocar carro tão cedo pode ir pensando em começar já uma bela colecção de obras de arte. Exactamente com o mesmo dinheiro, sem qualquer encargo para si (até parece um daqueles anúncios de papo furado a quem tanta gente dá ouvidos...).
E o valor dos quadros adquiridos vai ficar ali intacto para todo o sempre, enquanto que o valor da lata rebrilhante em breve perderá a refulgência que tanto impressiona amigos e conhecidos. Eu sei que não vai fazer isso mas não me leve a mal. É para desabafos ingénuos como este que se fizeram as crónicas de Verão!
Metamo-nos então no comboio (que, aparte o chegar sempre fora de horas, é uma ilha de frescura através da manhã afogueada) rumo a Lisboa, em busca de sensações e relações que nunca virão até nós, os da província.
Em Lisboa, na Gulbenkian, as exposições de Paula Rego (até 29) e a de Paul Caulfield (até 15). Na Culturgest foi ainda possível ver a realização dedicada a artistas da América Latina que estava de saída. Logo ao lado, no palácio Galveias, a exposição da pintura Espanhola e Cubana das colecções do Museu Nacional de Cuba (até 10 de Outubro).
Esta última exposição é uma excelente oportunidade para os apreciadores de pintura do Sec. XIX. O catálogo é uma edição excelente com um preço muito convidativo, atendendo à sua qualidade.
Quanto a Paula Rego e a Paul Caulfield, são artistas impossíveis de arrumar nesta crónica de Agosto, quedando-me desta feita pela sugestão de que, sim senhor, são visitas do maior interesse.
Sanfins, uma capital castreja
Ficando em Lisboa (uma vez não são vezes...) foi possível ir no outro dia, logo de manhã, para Belém. Como o Centro Cultural só abre lá para as onze, chegou o tempo para matar saudades das muitas coisas que estão à volta da Praça do Império e, não havendo coragem para andar muito, aproveitou-se para visitar desta vez o Museu Nacional da Arqueologia.
Embora não estando patente ao público a importante colecção permanente, o que é pena, visitam-se as quatro exposições disponíveis, qual delas a mais interessante. Uma documenta os núcleos de povoamento que existiram no norte do país numa época anterior à fundação da nacionalidade, com filmes, vitrinas, maquettes, mapas e diversos painéis muito elucidativos.
O número de locais históricos referenciados naquele período (povoados por valorosos combatentes que se opuseram à campanha militar romana de Décio Júnio Bruto de 138 a 136 AC) é verdadeiramente surpreendente – cerca de 500 localidades!
Nos caso mais amplamente documentado pela exposição (Sanfins, a 7 Km de Paços de Ferreira e a 30 Km do Porto) é fortíssima a motivação duma visita a fazer "in loco", devido à beleza do local de implantação dos vestígios e a respectiva recuperação arqueológica.
A outra exposição temporária, instalada sobre estruturas em ferro com uma concepção e uma arquitectura em tudo surpreendentes, é uma notável realização a respeito da herança histórica e cultural do Islão no nosso país, numa mostra sugestivamente intitulada "Os Últimos sinais do Mediterrâneo".
Com caracter permanente ali se podem visitar duas exposições soberbas: A Arte Egípcia e Tesouros da Arqueologia Portuguesa, integrando esta última conjuntos de valor incalculável de peças de ourivesaria arcaica peninsular.
Mário Botas e as visões inquietantes
No Centro Cultural de Belém há sempre coisas de interesse para ver. Sem me referir com o detalhe devido à colecção ali presente do Museu do Design, e também à exposição "Flashes, tendências contemporâneas" da Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, falo do principal motivo que me fez deslocar ali: a retrospectiva de Mário Botas presente ainda até 24 de Outubro próximo.
Na minha coleccão de papéis velhos e recortes preciosos figura um par de antigas policópias de 1981, respeitantes a uma interessante exposição feita por Mário Botas em Coimbra, no Círculo de Artes Plásticas ("Quinze desenhos de viagem e três de meter medo") sendo sua directora a minha saudosa amiga, a artista Túlia Saldanha. Com ambos conversei na altura e é indelével a impressão que me ficou da personalidade fina e talentosa do artista.
Sempre tenho perseguido com zelo e prazer do espírito os testemunhos da obra de Mário Botas. A sombra gélida do seu fim pre-anunciado mancha geralmente de espanto a consideração que merecem os seus trabalhos.
Para mim, contudo, entre tanto destino inútil e entre tanto desperdício de vida fútil como o que nos é dado ver por este mundo, encontro na duração de Mário Botas um larguíssimo continente de horizontes infindáveis.
Lamentando a brevidade dolorosa da sua passagem e contemplando sem temor a contingência inevitável do nosso próprio fim, não sinto qualquer desgosto fundamental ao pensar no destino do grande artista.
Pensando na extensão do tempo, na raridade fluída de qualquer tempo, é sempre curto e insubstancial o tempo que já passou, e não voltará jamais. Só a obra, o pensamento e o sentido que nela residem podem permanecer como garantias de eternidade e substância. Nessa ordem de ideias, tempo longo e profundo de imensa riqueza foi o que não faltou ao trabalho deste enorme criador.
Entra-se no espaço que o Centro Cultural de Belém lhe reservou e abrem-se-nos as asas dum imenso desejo de participar e de viver.
A opção pelos suportes de pequenas dimensões e a utilização de técnicas de registo muito singelas não impedem que a obra surja pujante, densificada, magnificamente transcendente.
Dando uma ou mais voltas a todo o conjunto exposto é sempre enorme o manancial da surpresa e da descoberta: a estranheza, o inesperado, a aragem do medo e a incessante convocatória de referentes duma cultura requintada de mil olhos e de mil cabeças associam-se a um sentimento poderoso de lucidez e destemor.
Isto mesmo, dito doutra maneira: o exercício pleno duma virilidade do olhar. A capacidade para encarar de frente os mistérios magníficos. A incapacidade de recusar as versões desconcertantes da verdade.
Razões para entender que a vida não é para mirar de soslaio, e que a arte vista por este prisma nunca pode ser aquele exercício insípido de certas paixões superficiais, cheias do pequeno amor, inquinadas de mesquinho amor.
Uma manhã no café com António Pedro Pita, sobre Abel Salazar
Publicado Diário de Coimbra 4 de Fevereiro de 1999
Se eu chegar a viver tanto como viveu Abel Salazar, não me fica neste momento senão um escasso ano de vida. Que poderei então fazer no curto espaço que me sobra? Pintar alguma coisa mais? Pensar um pouco sobre a vida? Viver, simplesmente?
Sempre que leio a biografia de algum artista ou me ponho em contacto com qualquer figura notável sinto esta inexplicável necessidade de medir forças com a existência, avaliando a liberdade que ainda me resta, em comparação relativa dos tempos vividos.
Se o exercício parece inútil ou intimamente cruel, fica a informação sincera de que o faço de forma inevitável, colhendo disso o único benefício de conferir a cada instante de disponibilidade consciente o peso e a gravidade das raras pepitas de oiro que vou garimpando nos regatos do dia a dia.
Abel Salazar, cidadania pensamento e arte
Sentado diante de António Pedro Pita viajo através do pitoresco e da profundidade do curso de vida do notável cidadão, pensador cientista e homem preocupado em decifrar os mistérios da arte e da vida que foi Abel Salazar.
Algumas histórias simples da infância conotadas com a personalidade forte do homem desatam em nós o prazer do riso. Riso que se apaga perante os agravos da vida conhecida, dos choques com uma sociedade marcada pela maldade da estupidez e pelo desprezo pelos seus melhores elementos.
Tendo-se revelado apesar disso o destacado valor do homem e do artista, fica em nós aquela dúvida incomensurável do quanto foi perdido por não ter corrido livremente a força esclarecedora da sua inteligência.
Da bem arrumada biblioteca do amigo com quem converso chega-me uma obra original da autoria de Abel Salazar: "Que é Arte?" colecção Studium, Coimbra, 1961; uma colectânea de valiosos depoimentos da Editorial Inova de 1969 com o título "Presença de Abel Salazar"; um opúsculo com a intervenção de Júlio Pomar na abertura da exposição póstuma de A. S., obra de 1989 da Fundação A.S. de São Mamede de Infesta.
Restando referir o valioso texto de autoria de António Pedro Pita publicado no esmerado catálogo realizado para esta exposição, ficam assim apontadas as pistas mínimas de referenciação do tema de hoje. Tema que tem como ponto de partida a referida mostra, patente ao público no Refeitório de Santa Cruz até 21 de Fevereiro. Local designado pelos Serviços Culturais de Coimbra como Sala da Cidade e que se situa, para quem ainda não saiba, à frente do edifício da PSP, à Praça Oito de Maio.
A perspectiva, metáfora do mundo
As obras expostas documentam momentos de criação que se estendem ao longo de 25 anos, de 1912 (as primeiras aguarelas) ao decurso dos anos vinte (os mais pequenos formatos a óleo) e até à segunda metade dos anos trinta (com um reduzido número de obras muito significativas de maiores dimensões).
De todo o conjunto destacaria por razões muito especiais os valores que estão patentes nas obras situadas nos extremos temporais deste intervalo, as primeiras pelo espírito de síntese e comunicabilidade e as últimas pela diversidade alargada do gesto estético, ao qual não é alheio um evidente sentido de modernidade.
É observável no conjunto exposto uma notável unidade estilístico-formal, muito especialmente no que diz respeito à estrutura cromática, aos motivos escolhidos e a certos critérios de economia de meios expressivos. Como se o discurso, embora eloquente, não necessitasse de ser proferido em altas vozes, e nos fosse dado a ouvir serena e profundamente.
A paleta dos trabalhos apresentados instala-se numa faixa relativamente estreita que vai do branco aos castanhos, passando pelos amarelos, mas no interior da qual são perceptíveis inserções subtis duma vasta gama de cores, sempre sobriamente sujeitas à tonalidade dominante.
A perspectiva, metáfora do espaço envolvente
Nas obras de maiores dimensões o material subjacente desempenha um papel de relevo, como se existisse entre o gesto do artista e a escolha do suporte uma cumplicidade específica, de que a cor e a textura são elementos evidentes.
A espontaneidade e esquematismo da concepção desenhística (que num dos trabalhos nem sequer nos oculta a prévia instalação dos eixos estruturantes da composição) e uma agora acentuada economia de meios concorrem para uma linguagem em que o detalhe, o supérfluo e o vulgar estão radicalmente arredados. O artista, apenas preocupado com o que é essencial, reserva espaços bastante amplos para a linguagem do material e do gesto, que adquirem dessa forma autonomia plástica suficiente para que tal possa ser entendido como direcção apontada ao futuro.
Quanto à engenharia de luz e de perspectiva em evidência nestes trabalhos, melhor se entendem à medida que o observador se vai afastando das obras, havendo um momento em que, mais que um processo técnico se transformam em metáfora do espaço envolvente, numa enfrentamento entre o que é sensível e o que é inteligível ou, como poderia dizer o próprio Abel Salazar, "um encontro do que é desconhecido, por ser do domínio do científico", com "aquilo que é mistério, por ser do âmbito artístico".
Uma curiosidade enorme me invade quanto ao restante das obras disponíveis no acervo do artista, que terão existido ou não, e de que não é possível termos conhecimento.
Se fosse o próprio Abel Salazar a organizar a sua exposição e a escolher os originais a revelar, seriam estas as obras a apresentar ao público? Quantas das coisas escondidas ou menos apresentáveis (com aspas) não viriam à tona, e quantos destes trabalhos não ficariam na penumbra dos exercícios menos reveladores?
António Pedro Pita, conferência sobre Abel Salazar
À magnífica legitimidade das perguntas irrespondíveis corresponde o prazer duma chávena de café na companhia do meu interlocutor com quem falei de todos estes assuntos e que me prometeu o ensejo de debater mais alargadamente o tema tão interessante que me apresentou:
– No conjunto de diligências de um artista onde é que está o principal? No apontamento rapidamente concebido, no esboço acidental, no perímetro convencionalmente acabado da tela integralmente preenchida, assinada e datada? No pequeno formato que se olha de perto ou na obra de maiores dimensões que observamos de mais longe?
Ou perguntando de outra maneira:
– Na totalidade do trabalho do artista, onde é que está a obra?
À falta de espaço para uma entrevista cabal sobre tudo o que foi dito à nossa mesa de café, a todos aqui fica o convite para a conferência de António Pedro Pita sobre Abel Salazar, no dia 11 de Fevereiro, 5ª feira, às 18:00 horas, na Casa Municipal da Cultura.
As minhas visitas à Galeria de Arte Vária
Publicado Diário de Coimbra 26 de Novembro de 1998
É uma derrota da civilização e um péssimo hábito não falar com os vizinhos.
Às vezes ali ao pé da porta, anos e anos, e nem bom dia nem boa tarde. Acontece infelizmente cada vez mais nas aglomerações citadinas feitas à pressa.
Por mim, não gostaria jamais de despir-me duma certa espontaneidade de franqueza a que me habituei com os meus Avós. Falar com pessoas, falar das pessoas! Falar de mim e aprender o mundo comigo e com os outros. Expôr-me, arriscando um pouco do meu segredo. Expôr-me, arriscando aprender algo interessante ou fazer um novo amigo. É bem pequeno o risco para uma esperança tão preciosa!
Para certos alguéns a opção certa é a do silêncio, escondendo o que realmente pensam. Tentar construir mistério e garantir altitude dissimulando uma verdade por vezes bem raquítica. E há ainda aquele processo terrível de não falar das coisas que acontecem, para fazer de conta que elas não acontecem. Ou silenciar a existência do outro, não olhando para ele, como quem diz:
– Não falo em ti. Não olho na tua direcção. Para que te afundes no silêncio e nele morras, ignorado.
É um processo terrível, mas usual. Prefiro mil vezes julgar como aquele meu amigo que é poeta e que diz:
– Quanto mais urbano, mais humano!
Mas mudemos de assunto, antes que nos assaltem as dúvidas.
A Galeria de Arte Vária, ali a Celas
O nome que faz subtítulo é duma galeria que fica perto da Cruz de Celas, que já foi monumento de tamanho e agora é só uma pequena cruz, afogada de cimento e de carros por todo o lado.
A Arte Vária encontra-se na zona mais recuada de um estabelecimento de móveis e de peças de decoração, o que talvez demonstre a insuficiência que Coimbra evidencia de não ser capaz de garantir o comércio de arte em regime de completa autonomia. O espaço é luminoso, o acolhimento cortez, e há o hábito enraizado por anos de insistência de editar catálogos de grafismo normalizado e sempre ilustrados, por vezes generosamente.
Vários são os acontecimentos que ali tiveram lugar no ano de 1998 que persistem na minha memória. Sem uma preocupação de actualidade jornalística, que apenas poderá ser útil para a última das exposições ainda patentes na galeria, aqui venho referir como notas de visita três desses acontecimentos.
O Jugoslavo Branislav Mihajlovic e a transgressão delicada
Paisagens semi-abstratizadas onde apenas o fenómeno do horizonte serve de referência para o observador se colocar. Interiores cheios de silêncio, onde magníficas luzes laterais definem profundidades e mistérios. Paisagens diversas e captações interiores de que o artista se serve para desenvolver uma técnica cheia de experimentalismo contido, e um olhar que não se satisfaz com a primeira visão das coisas. Um trabalho que não lança mão de materiais e objectos estranhos à pintura de forma gratuita, como tantas vezes acontece no espaço controverso de algumas tentativas de modernidade fácil, e que desafia o observador à descoberta dum intertexto rico de consequências e variado em seus níveis de leitura.
Ema Berta e a produção infatigável de seres
Sem ter a preocupação semi-académica de arrumar perfeitamente a artista nos escaninhos da referênciação estilística, salta-me à memória o Grupo Cobra, a vibração matérica de Karel Appel e a fluência caligráfica de Pierre Alechinsky na descoberta de figuras animadas de fantástico. O feérico exercício da pintura de Ema Berta decorre duma coisa que eu gosto muito e a que chamo a produção de seres. Não serão flores nem frutos nem objectos nem animais, podendo contudo ser tudo isso e muito mais. Os próprios fundos sobre os quais se agita essa floresta de entidades se constituem como silhuetas suficientemente expressivas e moduladas, para poderem afirmar-se como presenças com significação autónoma de seres, e nem sequer doutra ordem dos que primeiro se referem.
A generosa aplicação da cor, para além da figuração impulsiva cheia de imaginação subconsciente, possui um toque precioso que não oblitera nem oculta nem esmaga ou faz esquecer aquilo que a pintora vai fazendo ao longo de todo o seu labor. As pinceladas ficam todas ali ao alcance do nosso olhar, uma após outra, fazendo que cada momento de cor se adicione aos outros, amplificando-se e ganhando significado.
António Viana e a reinvenção das invenções
Nas criações de A.V. não é o conceptualismo plausível ou formalista que se cruza com o universo habitual da pintura e do desenho, ou vice-versa.
Cada corte esquemático, cada perspectiva inventada, cada alçado e respectivas cotas e até o fingimento das especificações e dos gráficos se desenvolvem mais aquém ou mais além da credibilidade de peças, ou engenhos, ou arquitecturas em concurso de utilidade real.
Nem os métodos de registo escolhidos, nem o descompromisso de rigor tecnicista, nem o particularismo frontal da escolha dos materiais de suporte colidem com o direito à visão autónoma do fenómeno da reinvenção das próprias invenções.
Inúmeras são as misturas de projectos e as interferências plástico-simbólicas. Mas nem as cúpulas das catedrais, nem os cavernames dos navios, nem a espessura dos altos fornos, nem a confusão das engrenagens, nem o paraíso esquemático do bosque invertido nos roubam espaço para o encontro com os gestos próprios do desenho ou da pintura. Aqui e ali, por todo o lado, se insinuam como finalidade eventual do labor dum artista em busca de algo mais que dos prodígios da indústria, ou das soluções providenciais saídas dos luminosos estiradores ou das oficinas fumegantes.
António Viana, a ver na galeria de Arte Vária ainda em Dezembro, ali à Cruz de Celas.
Ana Rosmaninho inaugura galeria da Livraria Minerva
Publicado Diário de Coimbra 7 de Dezembro de 1998
Feliz a artista que homenageia o poeta, feliz o poeta cuja palavra é ouvida, feliz o actor que declama.
Felizes aqueles que contemplam e escutam na livraria nova e no novo espaço de arte as coisas que a todos fazem falta, e que produzem – mais que prosperidade ou beleza – o próprio sentido da vida.
Na Rua de Macau número cinquenta e dois, no Bairro Norton de Matos, a partir de agora e para toda a gente.
Motivo: o corpo. Tema profundo: a sua pintura.
O corpo da mulher como pretexto da pintura, ou a pintura como pretexto de si própria? Foi esta a primeira questão que se me pôs, ao olhar a pintura de A.R.
São cerca de vinte obras que, sem margens ou complementos, assumem o corpo da mulher como motivo central e dominante.
Corpo simbólico? Corpo mítico? Corpo histórico evocativo da dilatada tradição dos artistas magistrais, das figuras mitológicas e dos símbolos marmóreos e monumentais? Ou corpo imediato da mulher presente, da mulher que se espreita de longe e se cobiça de perto? Corpo indiscreto, publicamente exposto, publicitário, especulação da sua própria ausência? Ou corpo íntimo, ponte imediata para os destinos interiores, único suporte da felicidade prometida mas fugaz?
Interrogações que se fazem em torno do trabalho de A.R., sem pressa nem temor de chegar ao impossível esclarecimento que, como em qualquer forma de arte, guarda mais abundantemente em si mesma o largo caminho da dúvida que o perturbante desenlace da certeza.
Poderá alguém dizer, um pouco precipitadamente, que a presença do corpo da mulher invade todo o espaço disponível sobre a tela.
Olhando melhor há outras presenças que com ela concorrem, de forma clara e explícita: a presença da cor e do gesto de expressão plástica, que lhe disputam um espaço autónomo de significação. Autonomia que se afirma nas sobreposições cromáticas, nos acasos de mais um gesto do desenho, de mais um sulco aberto na espessura da tinta, de mais um rasgo final de cor saturada. Rasgos contrastantes: sinalização final do exercício da pintura, elemento energicamente polarizador da paleta de fundo, como uma lágrima, um chamamento, um grito.
Sigamos todos os gestos que pintam
Imaginemos a pintora aplicando sobre a tela inicial tons amaciados e diluídos de cores da terra e com elas fazendo surgir transparências evocativas da carne pálida e íntima.
Imaginemo-la acentuando as formas, sem compromissos de rigor anatómico, respeitando mais a franqueza e a abertura do gesto que a verosimilhança do corpo real.
Membros como ramos de árvore. Corpos como nuvens repousando sobre o azul. Corpos que se alongam deitados, com olhares que não se cruzam com o nosso. Corpos que sobre si mesmo se debruçam no exercício duma auto-contemplação que nos coloca fora, à distância dum silêncio que só a cor aquece, agora cada vez mais expressiva. Corpos numa imobilidade lânguida que se contorcem para além da pose, num arriscado exercício escultórico que questiona o nosso próprio sentido do equilíbrio e a curiosidade infinita de avaliar volumetrias, cingir detalhes e disfrutar contrastes.
A pintora, que também é escultora, atreve-se a confrontar-nos desse modo com aquela área indecifrável do pudor e da explicitação das tendências naturais de que o olhar é cúmplice, umas vezes, e incómodo delator, outras.
Das primeiras cores diluídas aos traços de mais forte sanguinidade e às manchas terrosas de sombreado mais compacto, acrescentam-se as vagas de azul, os amarelos, os verdes e os claros, atingindo valências expressivas através da acumulação de matéria, da sua modulação em espessura e empastamento.
Áreas de cor forte que interferem com o corpo, intrometendo-se, disputando à carne o espaço precioso de quem vê ou afirmando-se por conta própria sem o prejuízo redutor de traços de contorno ou de qualquer outra lógica de ocupação da tela.
Assim se completa a expedição aos reinos da memória onde se expandem os clarões da juventude e as sombras da decadência inevitável.
Ecos imperecíveis do corpo metáfora do mundo, janela única da percepção dos mortais, veículo de todo o prazer e palco de todo o sofrimento.
Valdemar Santos expõe na Galeria OM
Publicado Diário de Coimbra 15 de Dezembro de 1998
Tal como as pessoas também as cidades se distraem, não vendo aquilo que se passa consigo próprias. Talvez também o leitor se não tenha dado conta, mas aquela cidade absorta contemplando a sombra do seu passado, já não existe.
A fatalidade, que não era desculpa, de não haver escolas superiores de Arte em Coimbra, já não se lhe aplica. Um largo número de estudantes de pintura, arquitectura, design gráfico, cerâmica, escultura, fotografia, gravura, serigrafia, cenografia etc. passeia agora pelas ruas antigas com a pasta dos desenhos debaixo do braço. O comércio de artigos para o exercício das artes alarga-se, algumas galerias começam finalmente a deixar de ser simples estabelecimentos que vendem pintura para se caracterizarem como iniciativas com direcção artística e projecto cultural e é notório o alargamento da população amadurecida para um novo entendimento das artes visuais.
Além dos estudantes, também os mestres de tais matérias fazem parte do alicerce humano da renovação. Valdemar Santos, professor da ARCA e licenciado na ESBAP do Porto, mas natural de Coimbra, é um exemplo significativo que hoje aqui é contemplado.
Valdemar Santos e as ressonâncias do azul
Nas transparências de azul de Valdemar Santos há muito do espírito contido e da contemplação intensa da arte oriental. Em algumas das séries expostas na Galeria OM até 19 de Dezembro, é patente o formalismo austero, a fluidez matinal e a subtileza de luzes descobertas em linhas de descontinuidade, tão abundantes no segredo e na reflexão plástica do oriente eterno.
O artista, tendo exposto em Macau, lá levou alguns trabalhos em que demonstrava essa acentuada vertente do seu imaginário e da sua cultura, não fosse mestre, construtor e investigador de cerâmicas.
Nesta mostra, contudo, não fica por aqui. E passa a colocar-nos questões principais das suas atitudes de pintor. A pintura como temática da pintura, na sua gramática e nas suas técnicas de interpelação do real, do simbólico e do exclusivamente plástico.
O plano de representação e o plano do representado confrontam-se e diferenciam-se naquele quadro com nuvens e com um estreito e comprimido horizonte onde se vêm casas e plantas em primeiríssimo plano como se fossem uma grinalda feita de papel de lustro.
O agente diferenciador de planos é o de um conjunto de círculos brancos que navegam bem perto do observador, delatando a presença da tela, e dizendo-nos:
– Olhem todos e percam as ilusões; esta paisagem não passa duma coisa pintada numa tela tão branca e tão vazia como qualquer de nós!
Pintura tonta, nunca mais!
O compromisso natural das coisas arquitectónicas bem arrumadas sobre a paisagem, e da paisagem bem arrumada em baixo, no plano que vai dos nossos pés até à linha do horizonte, são questionados naquele quadro em que o horizonte é uma nuvem espessa com barco e lua, e a casa de paredes brancas aparece invertida sobre a parte mais escura e mais distante do céu carregado.
E o acto gratuito da pintura mimética, copiada, repetida (a citação de citações de citações, lembram-se?...) é rebatido naquele quadro quase igual ao seu duplo, com legendas em inglês e tudo.
Mais duas séries de pequenos formatos marcam presença, cada um no seu género próprio, neste conjunto.
Uma das séries é uma espécie de viagem em instantâneos temporizados em torno dum ramo de rosas que assumem sem embaraços o seu singelo destino decorativo. Rosas, sempre moduladas em preciosismo de azul e branco, realçadas por uma passagem de verniz (que evoca com eficácia o vidrado de azulejos) navegam sobre fundo neutro, baço e opaco.
A outra é uma alusão a situações da pintura clássica com um entrecho e um enredo próprios que não vale a pena contar aqui por ser longa a história e concentradas as ideias. Mas muito expressivos os exemplos e a técnica que propõem, por trazerem à memória a atitude privilegiada em arte que é a do momento da investigação, do estudo e do lançamento do projecto. Quem me dera vê-los em grande formato, em quadros tão comunicativos como a ideia que nos propõem
A Galeria OM, situada perto do Girassolum, é um pequeno espaço de arte onde as exposições se sucedem e onde é possível folhear um jornal de artes ou até comprar uma edição especializada na matéria. Ali se encontra, até 19 de Dezembro, a exposição de Valdemar Santos, que dispõe de um pequeno catálogo concebido com originalidade e ilustrado com fotografias coloridas reproduzindo quadros expostos.
Alexandre Ramires: a complexidade visual do mundo e a revelação dos seus segredos
Publicado Diário de Coimbra 12 de Outubro de 1998
Alexandre Ramires está rodeado de aparelhos de registo de imagem e de som. O laboratório não é vulgar nem simples, pelo intrincado de ligações e componentes, mas não atinge expressão superlativa nem no seu custo nem em sofisticação técnica.
Ali, o único luxo que está patente é o da paixão pelo que se regista e a forma como isso é feito.
Num pequeno aparelho adequado, dum lado entram as matérias primas da imaginação, do outro saem narrativas animadas de mensagens culturais e conteúdos estéticos inesperados. Fotografias ou os seus negativos, slides, filmes de vário tipo, originais pintados ou desenhados seja em que material for, recortes de jornais antigos, outros impressos, coisas escritas à mão, tudo que seja documento visualizável serve de combustível à operação transfiguradora da imaginação dinâmica e da memória reflexiva.
Esta é apenas uma das habilidades laterais do artista. E não pequena, por minha fé! Tudo o que entra pela porta do seu olhar sai transfigurado para o vídeo, pronto para a comunicação, para a partilha de mensagens. As captações segmentadas de uma imagem, a sua repetição, os descentramentos e desfocagens, os afastamentos, as aproximações e as inversões de cor dão a uma mesma visão o efeito da pluralidade, do movimento, do conteúdo interior.
Em vez do tropel ininteligível dos "vídeo clip" de milhões de dólares, do filme ultra rápido das mensagens subliminares, da mensagem caótica que dá a entender tudo e não esclarece nada, a maximização inteligente dum momento privilegiado do olhar. A descoberta dum rosto na multidão. O gesto que poisa suavemente sobre uma ideia. Um instante de surpresa, de receio, de carinho ou de entusiasmo que não tinha sido visto antes por ninguém.
Das conferências na Vanderbilt ao serviço cívico em Trás-os-Montes
Refrências curriculares? Vejamos: A revista Zorro desde o número um, cinema diário desde os 11 aos 17 anos, o jornal todos os dias (ainda a doze tostões), os cromos da História Natural, da Conquista do Oeste e da História de Portugal, a "Science et Vie" e a "Stientific American" desde muito cedo. Aos 18 anos ala para a América dos anos da era Nixon, do inferno na Indochina e do Black Power! Um rapaz nascido em 1955 em Olhão, na parte Sul de Portugal ainda não violentado pêlos excessos turísticos, encantado pelas frequentes conferências na Vanderbilt Universify, em Nashville, Tennessee, que frequentava pela mão de um seu tio, professor de língua portuguesa e especialista em Fernando Pessoa.
Em 1974, uma clara opção por Portugal. Serviço Cívico em Trás-os-Montes, em tarefa de Recolha de Cultura Popular. A equipa era chefiada por Michel Giacometti, prestigiado observador e estudioso do nosso património cultural. Desse momento especialíssimo foram retidas ideias principais, como a da cultura da comunicação e o sentido da memória.
A experiência do astronauta em plena sala de aula
Em Coimbra início do curso de Física. Esperam-no 6 anos de actividades intensas, substancial evolução no conhecimento e evolução das sociedades e na aquisição da racionalidade científica. Permanece 5 anos na Direcção do Centro de Estudos Cinematográficos, onde consolida a noção de que é efémera a acção da imagem como simples veículo de enredos emocionais e consciencializa a necessidade de organizar as bibliotecas da visualidade que identifiquem, cataloguem e disponibilizem os seus conteúdos. Inicia a experiência de filmagem de factos com vocação histórica que se arriscavam ao olvido.
Já nas suas funções de professor, aprofunda a ideia de que na lógica do consumo das imagens, tal como os meios de comunicação no-los apresentam, impera uma autêntica ditadura do ritmo que não permite a leitura de códigos e a incorporação do saber.
Fala-nos Alexandre Ramires:
- Houve imagens que me ficaram pela sua tremenda eficácia: um astronauta na lua com um martelo e uma pena. Quando deixa cair os dois objectos vê-se claramente que caem lado a lado. Na disciplina de Física havia a dificuldade de comunicar o conceito de que a força de gravidade actua da mesma maneira sobre dois corpos de massas diferentes. -
Visto o filme, poupava imenso esforço de argumentação e facilitava a memorização da ideia Antes do formalismo matemático era possível partilhar mecanismos de verificação mais simples e directos. Esta utilização de filmes rompia com a lógica da ida ao cinema que não permite uma reflexão e apenas viabiliza a percepção superficial da historieta e do enredo.
Não pôr fronteiras ao que é novo
C.B. – Vejo portanto que o esforço que podia ter resultado na aparição na nossa praça de mais um cinéfilo competente deu lugar à perspectiva do recolector e organizador de imagens, opção a meu ver mais generosa porque menos centrada na personalização da sua própria mensagem. Poderei concluir que é portanto um optimista e que não vacilou perante a massificação dos vídeos?
AR – Sou optimista porque penso que as sociedades têm evoluído muito e que não se devem pôr fronteiras ao que é novo.
Acontece que as tecnologias não têm sido aproveitadas para o que é mais útil. Lembro-me do debate acalorado que noutras épocas foi travado com aqueles que sustentavam que essa massificação era catastrófica e que iria acarretar entre outras coisas a morte do cinema.
Acho que o futuro exige uma partilha intensa de olhares, e que é por seu intermédio que as gerações podem captar a experiência e o conhecimento das anteriores sem ter que cair nos mesmos erros. É necessário que a memória visual esteja disponível e organizada, que atinja a dignidade imperecível da palavra escrita e que encurte caminhos na comunicação do pensamento e da experiência.
C.B. – Começou portanto a efectuar essa recolecção no começo dos anos oitenta. Diga-me no que resultaram então estes quase vinte anos de trabalho.
AR – Inicialmente colhia elementos de trabalho apenas na área da minha licenciatura, para meu uso próprio. Com a evolução da experiência, passei também a recolher, classificar e disponibilizar assuntos dum leque muito aberto de conhecimentos para ceder a pessoas neles interessados. Como consequência fiai solicitado a organizar diversas videotecas o que me deu a ocasião de colocar a experiência acumulada ao serviço de instituições escolares, autárquicas etc. O meu arquivo pessoal atingiu mais de sete mil e quinhentas cassettes gravadas que contemplam todas as áreas do conhecimento e que abrange centenas de milhares de conteúdos devidamente referenciados.
C.B. – Se bem percebo trata-se dum trabalho de longa duração que confere às suas referências um cunho de universalidade, tal como era entendido pela cultura renascentista.
AR – O simples trabalho de identificação dos temas a classificar e a respectiva riqueza e diversidade tem-me revelado a importância de não confinar a aprendizagem ao território exíguo da especialização.
Há tanta coisa de interessante no universo do saber que vale a pena alargar a nossa curiosidade em todas as direcções. Aliás, a curiosidade que permite traçar pontes entre continentes de conhecimento aparentemente afastados é a mesma que permite viver em clima de festival de cinema no mundo caótico dos meios de comunicação por imagens.
C.B. – Fica por abordar o maravilhoso das exposições que tem realizado no âmbito do seu trabalho como director da Imagoteca dos Serviços Culturais da Cidade de Coimbra e toda a respectiva dimensão histórico-antropológica. O espaço é curto, fica para a próxima ocasião!...
Hiroshi Umezaki na Casa Municipal da Cultura
Publicado no Diário de Coimbra de 5 de Outubro de 1998
Nunca vi o Monte Fuji porque nunca fui ao Japão, e tenho pena.
Conheço-o em muitos dos seus aspectos plástico-simbólicos, pelas abundantes referências que lhe são feitas através da divulgação da riquíssima cultura Japonesa.
Por diversos motivos que vão explicados, e por outros que não cabem nesta crónica, é natural que vos diga que olhei para os trabalhos de Hiroshi Umezaki com alguma da mesma perplexa admiração com que contemplaria a montanha sagrada e os seus altos cumes gelados e distantes.
Há na aplicação oificinal e na estrutura interna dos trabalhos deste artista uma energia metódica que causa espanto, e merece respeito.
A flutuação no azul e a espada do Samurai
Analisemos contudo o desenvolvimento das obras apresentadas e reconheçamos nelas, desde já, a existência de diversos níveis de leitura e a sobreposição de sinais de densidade diferente, conforme dizem respeito a situações mais remotamente estruturantes da sensibilidade do seu autor, ou se reportam à sua necessidade de evidenciar preocupações de carácter inter-cultural.
Essa necessidade, que se denuncia sem lhe retirar toda a respectiva legitimidade é, como evidente se torna, aquela porção do mundo que não nasceu com Hiroshi.
Quanto ao mistério da flutuação no azul, aos continentes vibrantes de luzes frias, à íntima e negra fenda rasgada pela adaga do samurai, é claro que não
foram concebidos nem à mesma hora nem na mesma latitude que a lembrança das pedras de muros mortos e esquecidos, ou de outros vestígios da sua experiência de viajante diligente e empenhado.
Às massas de estruturação cromática de H.U., vibrantes pelo trabalho de densificação e descoberta de efeitos, encontram-se sobrepostos certos acidentes que lhe dão sentido plástico. Alguns, mais perto da estrutura sintáctica das obras (manchas concentradas de cor, relevos em trompe-1'oeil) reforçam o seu carácter abstractizante. Outras, de vocação quase simbólica, são verdadeiras fracturas no recôndito das quais se abre um grito de cor fina, um traço veloz e doloroso como uma lâmina.
Tais são alguns dos argumentos essenciais que nos apresenta Hiroshi Umezaki, com o seu dedicado exercício de servidão artística que é típico dos trabalhadores de espírito metódico e incansável.
O acrescentamento doutra ordem de elementos macro-figurativos, corpos humanos ou estruturas quase arqueológicas duma cultura que se deixou deteriorar pelo tempo e pelo esquecimento de si própria, constituem uma última fase do trabalho do artista, nitidamente destinado a implicar-nos no seu esforço e de dar a ver, com um olhar renovado, coisas que há muito conhecemos.
O propósito tem uma dose reconhecível de generosidade intercultural, mas as pedras antigas das casas em ruínas dos habitantes ausentes não têm aquela vibração deslumbrante, e a sua configuração anárquica e decrépita encontra-se ali indisfarçavelmente artificializada por um esmerado espírito de ordenação gráfica.
Assinalo um facto demonstrativo da perspicácia do artista como agente transformador de materiais sensíveis, que valoriza a atitude estética desde o momento da eleição dos meios e da produção do suporte. Na segunda sala {Galeria do Jardim) interpondo alguns dos ciclos presentes, nota-se a presença de bases da mesma dimensão dos trabalhos expostos, inteiramente recobertas com o azul preferido do autor, sem qualquer outra cobertura ou intervenção.
As imagens caudalosas e a vocação da alegria
A comparação das mentalidades orientais com aquelas que nos são próprias, quanto às gerações já vividas, terá um sentido apenas baseado no gosto pela diferença e no sentido mágico da viagem. ...
Se considerarmos porém as gerações em formação, num mundo que depende fundamentalmente de atitudes competitivas e de risco, quanto ao esforço de aprendizagem e domínio das realidades, será também (só) isso?
Será que o Oriente está assim tão longe de nós que nos possamos interessar pelo Monte Fuji apenas como uma ideia abstracta? Será que a espantosa vocação de alegria desprendida que marca de graça e de espontaneidade a nossa juventude é compaginável com um mundo de comboios ultra rápidos e de mensagens transmitidas em milhões de canais, à velocidade das estrelas?
No século XVI foram alguns jovens portugueses até ao Japão em busca de fortuna e conhecimento.
Deixaram por lá a primeira espingarda que atirou tiros no Império do Sol Nascente, e algumas outras coisas mais subtis de que os povos guardam a memória respectiva.
À magnífica juventude que faz parte de mim e está tão longe como eu da férrea e pertinaz disciplina japonesa, pergunto:
- Se o nosso olhar for rápido como um clarão conseguiremos captar duma só vez, por instinto ou felicidade, toda a complexidade do mundo? E se, pelo contrário, para conseguirmos o entendimento da vida e o aperfeiçoamento das suas melhores ferramentas formos obrigados ao arrojo da persistência e à coragem do bom senso, seremos também capazes?
Alexandre Ramires e a biblioteca dos saberes na imagem
Acrescentando às emoções fortes da visita à exposição de Hiroshi Umezaki, vale-me neste ponto do meu questionamento uma pessoa que tem uma vastíssima experiência no domínio da colheita de meios visuais, sua ordenação sistemática e sua utilização consequente.
Tendo começado cedo a penetrar os segredos da aprendizagem das ciências pela aceleração das suas visualidades, licenciou-se em Física, foi professor e, mais do que isso, um apaixonado espectador, organizador e divulgador de imagens, no que elas possuem como instrumento cultural e científico de futuro.
Não cabendo na parte final da "conversa" de hoje mais do que uma breve introdução a esta fascinante matéria, que iremos ver tratada na próxima semana com a valiosa ajuda de Alexandre Ramires, pedir-Ihe-ei apenas que nos diga se também ele, alguma vez, aspirou ver de perto a brancura serena dos altos cumes do Monte Fuji..
Alexandre Ramires:
- Os Montes Fuji, símbolos dos horizontes do nosso entendimento, sim: a clareza do sentido de culturas que, lidos, entendidas e partilhadas nos fazem aproximar e sentir o futuro como terreno de diálogo, com imagens repositório das ideias a partilhar!
- Obrigado pela resposta, que vale como exaltação de atitudes. E, então, até para a semana!...
Despedida de um pintor sem dizer seu nome
Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Outubro de 1998
Não andei com ele na escola nem fomos do mesmo tempo na tropa. Não discutimos nas mesmas tertúlias nem nos zangámos nos mesmos debates. Não nos tratávamos por tu, não tínhamos confiança. Não éramos da mesma terra nem chamávamos um pelo outro.
A decência de modéstia que a sociedade de hoje dispensa à presença natural do artista, faz-me escolher este modo para fazer a evocação dum pintor nosso, recentemente desaparecido. Certo de que a maioria dos que me lêem sabem de quem se trata, confio à curiosidade daqueles a quem o facto tenha passado despercebido a virtude dum esclarecimento sensível e ausente dos gestos vibrantemente inúteis, do vocabulário gongórico das necrologias de circunstância, e da presença forçada dos intrusos de última hora.
Que coisa, aliás, poderá dizer-se na morte de um pintor que não possa
dizer-se na morte doutra pessoa qualquer?
E que actos, que celebrações, que homenagens e que gestos poderão servir a um colectivo para se despedir de alguém que fica, apesar de tudo, na presença do olhar de todos os que tiverem o privilégio de lhe contemplar a obra?
Os exorcismos vibrantes e as solenes exéquias que a sociedade reserva às figuras do poder e aos ditos "grandes do mundo" têm bem pouca utilidade para verdadeiro consolo das almas. Nunca conversei de facto com uma alma. Mas se aquilo que conheço da minha é de ter em conta, vale bem mais o silêncio sensibilizado que o alarido dos fogos fátuos. E da morte do pintor, se se fala muito ou pouco, se se segreda apenas, se poucos souberam, se nenhum jornal disse, pouco realmente importa. Se soubermos olhar a sua obra viva, se quisermos através dela contemplar um pouco de nós mesmos, fica o seu olhar dentro do nosso.
É esse o elogio, o ensejo de paz e o campo de repouso do pintor.
Nota do Autor:
num autocarro da linha sete, perguntou-me dias depois um senhor desconhecido quem era o pintor a que me referia na minha crónica anónima. Respondi-lhe que se tratava de António Pimentel, no exacto momento em que, apressadamente, já ia saindo do autocarro.
Pat Andrea na Casa Municipal da Cultura
Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Outubro de 1998
Não tendo tido a oportunidade de ver a exposição de Pat Andrea em Lisboa, que esteve patente no Palácio Galveias, oferece-me esse privilégio a Casa Municipal da Cultura, até 30 de Maio corrente.
A única folha informativa disponível nas duas salas da exposição dá-nos a conhecer unicamente o soberbo itinerário curricular do artista. Somos assim obrigados a mergulhar na obra sem qualquer conhecimento prévio do universo cultural do pintor, o que torna o exercício arriscado mas legitimamente fascinante.
É, para já, muito raro poder passear em Coimbra em salas (espaçosas?) rodeado de tão grandes telas trabalhadas com tão imensa sabedoria do desenho e da pintura.
Saudações portanto à iniciativa que é levada a cabo com a colaboração, que é de louvar, da Galeria Fernando Santos do Porto.
Nos quadros, que vemos? Rostos e corpos de mulher alterados frequentemente nas suas proporções morfológicas, não poucas vezes agitados pela convulsão crispada de pavores e luta, em figurações posicionais que fazem alusão às atitudes mais íntimas da fisiologia e do destino natural dos seres. Tais deformações proporcionais não me parecem contudo pretender reduzir o fascínio daquilo que o pintor observa, antes pelo contrário. Diria, outrossim, que o seu olhar demonstra a capacidade de se concentrar nos ângulos mais propícios, nos detalhes mais felinos, na intimidade mais concentrada, mais apaixonadamente indiscreta. E é capaz de passar directamente duma farta cabeleira espessa e cheirosa que emoldura um rosto apaixonado às partes mais íntimas da mesma figura, sem passar pelo tronco, tal como o faria uma câmara cinematográfica numa rápida sobreposição de planos.
Que vemos mais? Alguns homens em posição quase subalterna, numa figuração que não sendo anódina e em caso algum desproblematizada, revela, com distanciamento crítico feito de perplexidade, a formulação subtil de receios e a denúncia dos limites próprios. As únicas perspectivas que nos traça do homem em atitude viril, numa, é evidente a ironia e acintosa a pose, noutra, o licor sagrado corta uma paisagem quase romântica transfigurado esquematicamente em lâmina fria, numa fórmula quase distanciada dos requintados atributos técnicos do pintor.
Aparece também, além de outros símbolos cuidadosamente seleccionados e exemplarmente expressivos, um animal: o cão. Por vezes incorporado nas próprias figuras, parece (excepto nos casos de presença inofensiva) ser interlocutor exclusivo do homem, com o qual chega a travar combates de ferocidade evidente. Que medos, que fantasmas, que delírios recorrentes e aflitivos retratará esta forma perturbante? O tratamento de algumas figuras masculinas, igualmente mergulhados na sombra pastosa ou sombria de silhuetas perturbadas, parece indicar de que lado se encontra a pista a seguir, lá, onde o impulso do desejo é mais agudamente doloroso e onde o monstro salta, ameaça ou dilacera.
Plasticamente muito generoso em toda a explicitação do acto estético, desde as considerações iniciais até às últimas coberturas (concisamente. reservadas para os locais da tela onde mais forte se deteve o seu olhar), Pat Andrea é um pintor com um profundo conhecimento de toda a orgânica da arte que exercita, além disso, sem desperdícios nem trucagens. Tudo o que aparece nos seus quadros é matéria ou acto visível e visual onde o recurso bastante abundante ao "non finito" aparece como cúmplice do olhar do observador na fruição dos seus processos de procura e adiamento.
Sendo de naturalidade holandesa, ostenta sem rebuço um cunho expressivamente latino americano na vibração onírica, na paleta aberta e sem complexos e na frontalidade deslumbrada dum olhar que espreita, acaricia e desvela tudo o que é sensualidade profunda ou encantamento visual imediato.
A tragédia biológica da mulher merece alguns sublinhados importantes e o seu estatuto de ente sofredor e isolado tem alusões a que uma evidência simbólica empresta universalidade justificada.
Todas estas coisas digo, contudo, não esquecendo o essencial plástico desta fortíssima presença artística cuja paixão observativa nos faz mergulhar a cada momento num gineceu convulso onde o sorriso da mulher se transforma por vezes num trejeito comprometido e onde os olhares de soslaio reforçam a consciência clara do interdito misterioso.
Nesta pintura magnífica são abundantes os seios, objectos magníficos que o universo conserva como dos mais excelentes da nossa memória sensorial e afectiva. Pat Andrea reserva-lhes entretanto um tratamento propositado feito de ocultações/revelações não descentrado da polémica que estabelece de forma inequivocamente frontal com a vulva, aquela raiz donde parece provir todo o segredo, toda a energia e todo o silêncio do mundo.
Estampas de Épinal, escultura de nuvens e desenhos de Arpad
Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Outubro de 1998
Filhos da banda desenhada e do cinema, não se cansam os jovens da minha geração de penetrar cada vez mais fundo na origem desses e doutros fenómenos, que nos acompanham desde o dealbar do nosso entendimento do mundo e dos seus mecanismos prodigiosos.
Nos fundos do cofre dessas memórias muitas são as referências e inesgotáveis as raízes.
As estampas de Épinal fazem parte delas e, ao revisitá-las, temos aquela sensação complexa de entrar numa casa nossa conhecida, antiga e carregada de aromas que nos embalam até ao berço da nossa imaginação.
Na Casa Municipal da Cultura, com apoio da Alliance Française encontra-se até 2 de Maio uma exposição de tais objectos artísticos produzidos na famosa e antiga "imagerie" Pellerin de Épinal, cidade milenar banhada pelo Mosela, cercada de grandes florestas (os Vosgos) e recheada de parques verdes, em contacto íntimo com regiões de grande projecção, a Lorena, a Alsácia, o Franco Condado e a Champagne.
As estampas de Épinal, descendentes das antigas tradições europeias de produção de imagens que, desde a idade média, faziam ampla divulgação de temas religiosos e profanos, têm o seu momento de grande expansão no começo do Sec. XIX com a narrativa gráfica dos sucessos napoleónicos.
Prosseguindo uma evolução recheada de temas da mais destacada popularidade e pitoresco, os herdeiros de Pellerin chegam, aos dias de hoje, como exemplo notável de conservação de um património inestimável.
O romance da Raposa e outras coisas
De notar que nos começos do Sec. XX a venda de estampas de Épinal (mormente em folhas volantes de pequeno formato) atingia um montante de 13 milhões de exemplares anuais, que eram exportadas para todo o mundo (Portugal, incluído). Não vou poder abordar os aspectos técnicos da sua obtenção, por falta de espaço. Apenas refiro que beberam nas antigas técnicas da xilogravura e que as tiragens mantiveram sempre o carácter e a autenticidade dum produto semiartesanal. A decoração foi sempre singela e o colorido simples mas de efeito expressivo. A fabricação mecânica do papel, suporte especificamente adequado para o efeito da estampagem, é a única tarefa que se mantém praticamente idêntica à que sempre foi.
Aos bons leitores de Aquilino (e são muitos) ocorre-me citar o "Romance da Raposa", cujas ilustrações são da autoria de Benjamin Rabier, nome destacável da imensa quantidade de artistas que participaram no enorme movimento de criatividade que foi o da renovação das estampas de Épinal através dos tempos.
É no seio deste turbilhão de grafismos que surge, em 1889, já não em folhas volantes, mas sob a forma de jornal ilustrado, "A Família Fenouillard", um dos mais remotos começos da actual banda desenhada, a alinhar com outras referências históricas, todas muito ciosas do seu respectivo e genuíno significado histórico.
Visitada a exposição, apreciadas lenta e gostosamente todas as estampas, olhado o vídeo ali disponível, penso que é de reflectir muito seriamente acerca da maneira exemplar como a cidade de Épinal tem sabido manter esta tradição artística e cultural. A criação de um museu e todo um sem número de iniciativas e interesses ligados a este fenómeno são motivo duma actividade criativa permanente e um dos principais factores de projecção da cidade. Sem esquecer que constituem uma fonte de trabalho e proveito, a que um número de 190 000 visitantes em 1997 trouxe a justificada consagração.
Cyph, outra presença de França
Com um pseudónimo cifrado, resultante de letras retiradas do seu próprio nome, aparece-nos na Galeria do Átrio da Casa Municipal da Cultura, também até 2 de Maio, a obra de um escultor oriundo das costas atlânticas do país de França.
Formado pela escola de Belas Artes de Paris, e activo em Nantes como professor de desenho, faz da escultura a sua actividade de paixão.
Seguindo uma metodologia que tenho repetidas vezes recomendado aos meus atentos leitores, procurei falar com o artista, para poder acrescentar à minha própria leitura o conhecimento sensibilizado do "fazer das coisas".
A obra em si revelara-me (em visita anterior) um sentimento dulcificado e poético das formas esculpidas, onde está presente a essencialidade afectiva e sensual das coisas iniciais e profundas. Nuvens como nuvens. Vagas como vagas. Vento como vento. Ou o simples eco de tais seres, posteriormente designados como tal. Corpos de mulher como pretexto de evocações subtis, distanciadas da referência explícita, ou da acentuação gratuita. "Correndo o risco de ser mal entendido, posso dizer que o corpo da mulher não me interessa. Utilizo-o apenas como ponto de partida para criar formas".
Podendo pensar que esta exposição, constituída exclusivamente por peças de reduzidas dimensões, reflecte a preferência do autor pelos pequenos formatos, tal não se verifica. São os mais de mil km que nos separam de Nantes que a isso obrigam. E a consulta do livro onde se documenta a actividade de Cyph demonstra isso mesmo, dando a conhecer a sua produção de peças de dimensão mais notável, algumas usadas como elementos de decoração pública.
Outra evidência patente na Galeria do Átrio é a multiplicidade de materiais e técnicas a que Cyph dedica a sua atenção. O alumínio fundido de forma inovadora, conforme me explicou, os diversos tipos de utilização do bronze, tirando partido da complexidade e riqueza deste material, os vários tipos de mármore, onde se nota um gosto particular pela exploração da cor dos veios e sua utilização como acidente próprio da forma alcançada, e ainda outras qualidades de pedra como a ardósia.
Especialmente curioso me pareceu, quanto ao bronze, o tipo de experiências levadas a cabo por Cyph (aqui apenas patente em obras de pequena dimensão, de carácter experimental) onde a forma esculpida pelo artista se limita a configurar um dos lados da volumetria das peças. O bronze vertido nestas, é depois convenientemente terminado com todas as .respectivas operações de acabamento, patine etc., no lado que diz respeito a essa face trabalhada. A parte oposta fica a revelar os acasos ou acidentes que se formam no "avesso" do bronze acabado, onde o artista, aproveitando igualmente os desperdícios de forma que os rebordos apresentam, se compraz em registar todos os efeitos plásticos possíveis. Estas obras, que também podem ser obtidas pela fractura intencional de peças integralmente esculpidas e moldadas, adquirem o carácter de achados fortuitos ou de objectos lançados pelas ondas numa praia, que esperam que alguém as encontre casualmente.
Nesta brevíssima explicação, apenas compreensível em face dos exemplos reais, dar-nos-emos conta do universo de possibilidades que a escultura oferece, e da complexidade técnica e operacional que à mesma diz respeito, o que lhe confere a nobreza duma arte maior que realmente é.
Desenhos de Arpad
Sem aduzir por agora qualquer comentário, dado que já esgotei por hoje as medidas padrão desta coluna, não desejaria deixar de referir a notável exposição presente na Sala da Cidade (o antigo refeitório do mosteiro de Santa Cruz) com os desenhos de Arpad Szenes. Fica no entanto o estimado leitor convidado a visitar até 31 de Maio este conjunto de cerca de 100 desenhos reunidos e expostos pelas Fundações Arpad Szenes/Vieira da Silva e Calouste Gulbenkian quando da comemoração do centenário do nascimento do artista.
António Olaio expõe na Galeria OM
Publicado no Diário de Coimbra de 29 de Janeiro de 1998
A abertura de uma nova galeria expressamente vocacionada para realizações de qualidade no domínio da arte moderna será sem dúvida um acontecimento de importância no panorama artístico e cultural desta cidade. Refiro-me à declaração de princípios da directora da Galeria OM, que se situa junto ao C. C. Girassolum, na Rua Feliciano de Castilho, feita através dos ecrãs da delegação regional da RTP, nos seu programas do fim de tarde, que tão auspiciosamente vêm abrir a realidade local ao noticiário televisivo.
O espaço da galeria, que todos com certeza desejariam um pouco maior para o desenvolvimento natural que este tipo de realizações solicita, iniciou actividades com a presença de trabalhos da artista Catarina Baleiras, que veio sinalizar de forma explícita o desejo de avançar na senda de propostas invulgares, mas de indesmentível esmero estético.
O acontecimento seguinte, que se encontra patente ao público até ao fim do mês de Fevereiro é constituído por uma exposição individual de António Olaio, artista nascido longe, mas de vivência coimbrã até ter ido para o Porto, onde se licenciou em pintura pela ESBAP.
Arte a partir da arte
O pintor, que iniciou a sua acção notavelmente cedo, em exposições de adolescência nesta mesma cidade, veio a interessar-se logo de imediato pela convivência artística na área do movimento da arte conceptual, ao qual veio a dedicar uma apreciável dose de actividade, tendo protagonizado acontecimentos dessa forma de intervenção em Portugal e no estrangeiro.
Radicado em Coimbra de há alguns anos, exerce a sua profissão como assistente de Desenho no curso de Arquitectura da FCTUC, permanecendo aberto a uma varieda-
de notável de interesses artísticos, dentre os quais a música assume particular relevo.
Esclarece, aliás, que esta actividade – que leva a cabo de forma bastante significativa como compositor, cantor e letrista – é parte integrante e desdobramento natural da sua condição de "performer" e de pintor, categorias que assume sob a designação de "técnico de estímulos", expressão que usa com convicção muito especial ao procurar explicitar o conceito que tem de si mesmo como artista.
Ciente de que as pessoas sabem geralmente muito mais do que conseguem exprimir, procura atingir através da música a concretização de um acréscimo de comunicabilidade, a criação de um universo estético onde se desenvolvam estímulos e situações interessantes através de meios diversificados. Produzir, como gosta de dizer, "arte a partir da arte".
O nome é mais uma cor
A exposição actualmente presente na galeria OM é constituída por um conjunto de desenhos e por três quadros a óleo, resultantes duma série de seis que foram apresentados pelo autor na Bienal de Vila Nova de Famalicão, e que têm como tema e ponto de partida a Casa de Camilo em São Miguel de Seide.
As três pinturas são captações feitas por A.O. nessa mesma casa, e estão concebidas como se se tratasse de fotografias antigas, ou imobilizações de uma passagem de imagens televisivas ou fílmicas a preto e branco. Sobre as imagens assim apresentadas inscreve-se uma frase: "and this is the drawer where he kept his gun", alusão à arma com que se feriu Camilo, e que paira sobre a casa como uma ideia obsessiva ou como um fantasma.
A inserção da frase funciona de forma plural, quer nas suas implicações de índole visual, quer nas que seja possível adivinhar através das suas ressonâncias literárias ou até linguísticas. António Olaio, estudioso interessado na obra de Marcel Duchamp, cita esse autor mais uma vez a propósito dos títulos com que tem assinalado bom número de trabalhos seus, afirmando que "o nome é mais uma cor presente no quadro", na coexistência dos diferentes sentidos que ao mesmo são atribuíveis.
Arte como forma de inteligência
Há uma ideia que me parece de capital importância no entendimento do conceito que anima o artista a respeito da montagem/organização das suas exposições em geral.
Estas são concebidas como "encenações" em torno dos títulos que lhes conferem origem temática, constituindo-se como ideias-força na explicitação do intuito que mobiliza o artista em relação a cada situação criada.
Os quadros deixam, portanto, de ser testemunhos diferenciados de momentos avulso do pensamento do pintor, para se constituírem como "exposição total", ou "instalação" de propósito coerente, arte como forma de comunicação, "arte como forma de inteligência", aí onde de novo se nos torna presente a citação de Duchamp.
Referindo as restantes peças que preenchem a exposição (ou seja, o conjunto de desenhos sobre papel branco de pequenas dimensões) será oportuno dizer-se que constituem contraponto destinado a não interferir com a complexidade narrativa das telas com que se defrontam (no sentido físico da sua arrumação na sala da galeria), desenhos em que o artista se aproxima do objecto de adorno simples que o senso comum recomenda, na plasticidade pura de um simples traço coleante que se transfigura em caule, e se expande em ramificações singelas, inflorescências de imponderabiíidade assegurada pela fragilidade estrutural que a execução espontânea a pincel sobre fundo branco lhes confere.
Flores como gestos de homenagem ou tributos de admiração e lembrança, sem preocupações naturalistas, pretexto para atingir algum conforto visual atenuador da carga mais dramática dos quadros fronteiros, testemunhas inquietas do drama camiliano numa casa invadida pelo espectro duma pistola carregada.
Casa do escritor, lugar geométrico de tanta memória da literatura, com tão ampla ressonância colectiva, agora entregue à curiosidade vária dos visitantes de extracção turístico-cultural, num mundo que massifica os estímulos sem os calibrar, sem os reflectir e sem os temperar com sensibilidade, como ali nos foi dado entender através do discurso serenamente fluente e culturalmente enriquecido do pintor António Olaio.
Eduardo Nery na Culturgest e na FCG
Publicado no Diário de Coimbra de 19 de Janeiro de 1998
Quando eu era miúdo ir a Lisboa era uma coisa importantíssima. Vinha-se de lá mais alto, mais esclarecido e, muitas vezes, bastante mais maroto.
Agora, ir a Lisboa, é muito menos. A pressão dos compromissos, a amálgama confusa das gentes, a distorção da pressa e a sujeição das esperas, reduzem o eco das nossas expectativas aos limites daquilo que. já daqui levamos, na reserva das nossas alegrias e no músculo das nossas imaginações.
Contudo Lisboa é, quer queiramos ou não, a maior concentração de oportunidades, de gentes e de drama que existe no rectângulo. É preciso continuar a visitá-la com a mesma ilusão e com a mesma cobiça de outrora, senão por causa dela, por causa de nós próprios, E dar a esse tempo de reencontro e de lazer especial, a duração e a liberdade que são essenciais.
Uma exposição paga e outra grátis
Desta vez escolhi – entre outras coisas interessantes que não cabem nesta pequena crónica – a visita às duas magníficas exposições dedicadas a Eduardo Nery patentes até fins de Dezembro, na Culturgest e na Fundação Calouste Gulbenkian.
Na Culturgest – onde se mostrou a obra de atelier de Nery – esteve exposta outra obra, dum artista estrangeiro – Sean Scully – aliás de bastante interesse. Pelo acesso a essa outra exposição pagavam-se 500 escudos. Para visitar a de E.N., "apenas" 400!...
Se a Caixa Gerai de Depósitos não dispõe de meios que lhe permitam mostrar Arte gratuitamente, mais valia cobrar logo duma vez 900 paus pelas duas visitas (que deve ser o que toda a gente acabava por fazer...) do que deixar o visitante a remoer motivos que expliquem esta (concerteza muito explicável...) diferença de cotações.
Quanto à obra de atelier de Nery patente na Culturgest, ali nos foi permitido analisar o que foi a evolução do seu pensamento estético, desde os primeiros desenhos de juventude, seguidos das diversas experiências no domínio da pintura (o abstraccionismo lírico, o expressionismo abstracto, as significativas abordagens do pós-surrealismo, a tapeçaria, a Op-art, a "anti-pintura", as colagens, as diversas incursões na fotografia, etc.). O Artista, espírito largamente aberto a uma grande variedade de interesses no domínio do transcendental, foi também muito marcado pela curiosidade científica, pela necessidade da ordenação metódica e pelo raciocínio analítico.
É no cruzamento desta diversidade de tendências que foi evoluindo, impulsionado
por uma pesquisa incessante, por um universo riquíssimo de ideias próprias (imbuído de poesia, de sentido crítico e de ironia), o que conjuntamente culmina de modo natural na sua faceta de "artista de intervenção pública", ou seja, de artista a quem são confiados projectos do âmbito das obras públicas e que possuem uma índole estética muito particular.
O trajecto que as duas exposições sobre E.N. documentaram alarga-se por 40 anos de trabalho que o conduzem no quase início da sua carreira a um convite que lhe é feito pelo grande reinventor da tapeçaria moderna que foi Jean-Lurçat de ir estudar com ele em França É mais ou menos por essa altura que o artista transita do gesto largo do expressionismo abstracto à contenção cerebralizada da abstracção geométrica. Assim se compreendem as criações que efectua na área da "Óptical Art", onde a tendência de ordenamento e lógica plástica conferem à superfície das obras uma mobilidade sem limites, com efeitos volumétricos de leitura variada, em que a cor e a geometria dão lugar a uma autêntica fenomenologia da percepção, rica de ambiguidades, trocas cinéticas, retracções e expansões do mais variado efeito.
O azulejo, evidentemente
É também nesta ordem de ideias que o universo de Nery se cruza tão adequadamente com a utilização do azulejo, elemento primordial das nossas artes arquitectonico-decorativas, e que desagua na sua riquíssima produção de painéis, tão recheados de originalidade e força plástica.
Os primeiros trabalhos referidos no catálogo completo das suas obras realizadas para a arquitectura e para espaços urbanos (aspecto que estava documentado na exposição da Fundação Calouste Gulbenkian – com entrada gratuita, diga-se de passagem) datam de meados dos anos 60, e vão ganhando com o decorrer do tempo um significado e uma importância que não é possível descrever numa destas sucintas "conversas de pintor".
Na última sala do conjunto que abrigava essa realização da F.C.G. passava um filme documentário interessantíssimo em que, de forma embora resumida, a própria voz pausada e grave do artista ia longamente referindo aspectos dessa intervenção multifacetada, complexa, recheada de alusões e ressonâncias sócio-culturais as mais profundas e apaixonantes.
É de notar que, no âmbito desta área de intervenção, nem Coimbra está excluída, com obras que vão desde painéis de azulejos à organização cromática de edifícios públicos.
O pudor de publicitar as iniciativas culturais
O catálogo "Eduardo Nery -1956/1996" (5 000 escudos, na Fundação Gulbenkian) com as suas mais de 260 páginas de bom papel, bons textos e muitas reproduções fotográficas, é um óptimo documento de trabalho. A edição é apresentada por ambas as instituições mas a Culturgest, que até tem um interessante "jornal de exposição" (o que faz parte, creio, de todas as suas realizações do género e custa 350 escudos, se me não engano) parece ter uma certa dificuldade em vender o catálogo referido. Não me foi possível comprá-lo ali, embora tivesse tentado.
Não refiro estes pequenos detalhes com azedume (como faço, aliás, com a questão dos custos de entrada) senão para lamentar aquilo que me parece ser uma dificuldade enorme de duas grandes instituições culturais em articular esforços para melhor divulgar e projectar uma tão importante iniciativa conjunta. Se as instituições são grandes, o artista é enorme, e não havia mal nenhum em divulgar mais e melhor um evento que encontrei para ali perdido em enormes salas vazias de público, como tantas vezes me vejo sozinho nessas casas da arte e da cultura, sempre que ali vou de visita.
Casa da Cerca e José Mouga
Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Janeiro de 1998
Sempre que vou a Lisboa e me chega o tempo, meto-me num cacilheiro e vou até à outra banda. Nem que seja só para ir e vir, para esquecer o caos, a amálgama, os fumos e a pressa. Vou lá para cima, para o tombadilho, respirar o ar enorme do meio do rio, acamaradar com as gaivotas e sonhar viagens.
Nos dias de maré rija, quando o barco baloiça mais, consolo-me das saudades das lanchas açoreanas, embaladas vigorosamente pelas ondas do mar alto, e lamento que o mundo não seja todo feito assim, de frescor e liberdade.
Desta vez, porém, foi diferente. À saída do barco, tomei o autocarro que vai para o Cristo Rei. Saindo na Rua Capitão Leitão, lá fui perguntando caminho em busca dum sítio chamado "Casa da Cerca". Andando um pedaço, já por ruas estreitas, lá se chega finalmente, sem perder o ensejo para referenciar outros locais já familiares, como o Teatro Municipal de Almada.
A "Casa da Cerca" está instalada num antigo palácio do Século XVIII, a que os comentários arquitectónicos atribuem linha barroca de aura "já romântica". Certo é que o mais valioso capital deste elegante edifício é a sua localização. Apropriadamente edificado junto dum larguinho que tem o nome de Largo da Boca do Vento, está assente num pequeno planalto que domina o Tejo, o seu estuário por inteiro, e a cidade de Lisboa, repentinamente ali diante como que ao alcance da mão que, sonhando, se estende até ao
outro lado do rio. E o grande ar fresco, as árvores de ramos oscilantes, as estátuas e a erva curta fazem tudo dentro de nós, subitamente suspensos, para além das coisas e dos casos comezinhos.
Lá dentro a exposição de José Mouga, que tem o título genérico "Anos de risco/desenho 1977-1997".
Comprado o elucidativo catálogo (124 páginas de texto e reproduções) nele fica plasmada a memória do acontecimento que tem a duração de três meses (Novembro de 97 a Janeiro de 98), e que dispõe ainda dum sintético, mas útil, "jornal de exposição".
Muito haveria a dizer a respeito do acontecimento no seu todo, incluído o esmero estético, certamente devido a todo o grupo realizador sob a direcção do pintor Rogério Ribeiro.
Particularmente substancial é a forma como se desenvolve a exposição, que atinge as 161 peças, subdivididas em 16 conjuntos/capítulos, cujos títulos –"memórias do natural", "bestiário", "ossos", "memórias tranquilas", "escritos na cal", "fragmentos do natural", "ensaio sobre a solidão" etc. – aparecem referenciados por textos do diário do pintor. Tais textos, sem assumirem o aspecto simplista da "legenda" ou da "alusão" linear, contextualizam poeticamente todo o labor do artista de forma a amplificar o "prazer de ver" que serenamente se apodera do visitante.
Quanto aos conjuntos/capítulos plasticamente considerados, estão devidamente alinhados pela simplicidade densa das linguagens respectivas e agrupados por caracterizações técnicas de elevado critério oficinal.
Olhando assim José Mouga é possível a todo o momento efectuar uma discussão muito fértil da fundamentalidade das técnicas e dos materiais em presença a partir de cada ideia como formulação plástico-poética.
Assim será também, quer se deseje fazer uma abordagem do generoso conteúdo pedagógico, quer se procure a densidade doutros níveis de leitura, cruzando linguagens e contextos da forma mais apetecível e mais propícia ao estado de espírito de cada observador.
Assumindo-se a "Casa da Cerca" como um Centro de Arte Contemporânea é possível, neste caso, transformar a modernidade numa atitude que, sem deixar de se situar a um nível de densidade conceptual adequado permite, e até solicita, a participação dum número muito alargado de sensibilidades. Isto, sem o recurso a esforços de leitura elaboradamente codificados, que - tal como tenho podido verificar noutras realizações com essa tipificação - confinam as "possibilidades de ver" a critérios próximos da rarefacção ou da pura e simples nulidade.
Regressar a Coimbra e encontrar tudo mudado
A "Lisboarte" é uma iniciativa com o patrocínio de Câmara Municipal de Lisboa, em que um certo número de galerias se apresenta minimamente organizado sob a forma de realizações conjuntas (inaugurações simultâneas, por exemplo) sendo publicado um roteiro com mapa dessas galerias e das suas realizações e havendo na fachada dos edifícios respectivos uma bandeirola que assinala o ponto onde se encontra a exposição.
Esta ideia obedece apenas aos mínimos, e nem toda a gente que vai a Lisboa chega a ter conhecimento sequer duma pequena parte das realizações ali em curso. É de notar que também por iniciativa municipal é publicado em Lisboa um roteiro alargado de todo o tipo de iniciativas culturais, camarárias ou não. Considerando a avareza dos meios de comunicação quanto a este tipo de noticiário, é uma iniciativa de interesse. Se juntarmos a isso a imensa dispersão geográfica dos locais de arte e cultura, a disparidade de calendários, horários e outras particularidades, e a "complexidade" dos meios de transporte, fica compreendida a insularização do meio artístico-cultural.
Quanto ao Porto, chegam-me notícias doutra forma de dinamização: a congeminação em curso da chamada "rua das galerias", com as mais diversas iniciativas anexas, pela concentração dum certo número de estabelecimentos de arte e convivência cultural na Rua Miguel Bombarda ao Palácio de Cristal.
O título deste último parágrafo é apenas, confesso, para lançar um pouquito de confusão. Com as iniciativas que vão surgindo em Lisboa e no Porto para dar dinâmica e coesão à actividade das galerias de arte, vêm-me à memória umas sugestões que dei, nuns artigos sobre o assunto do comércio de arte e publicados no DC em Junho de 1994.
O número de galerias existente em Coimbra, e dos outros espaços dedicados à ocorrência de acontecimentos de arte já justifica, com efeito, algum esforço conjunto de modo a publicitar um calendário de acontecimentos, colocando no mapa a localização dos eventos, e formar uma espécie de roteiro para os interessados. Isto para ficar por uma ideia mínima e não levantar a ventani |