“Caminhos” – Fotografia de João Gordo
Iniciativa da Pró-reitoria da Cultura da Universidade de Coimbra
Fevereiro de 2000
Do negro ao branco puros de que coisa necessita uma imagem para que fique em nós e perdure, com vida própria, capaz de sobreviver ao passar dos dias e ao peso enorme do esquecimento?
Do negro ao branco puros de que coisa vive uma imagem para que nela sintamos a tremura fumegante das manhãs frias de Janeiro ou a chuva espessa, cinzenta e triste das tardes de Novembro?
Será que a persistência da memória dispensa, se assim quiser, as vibrações da cor e o tesouro infinito das gradações do arco-íris?
Será que os sonhos são assim, bailado de imagens em tons soturnos de cinza e prata esmaecida?
Ou terá lá dentro o nosso olhar essa prodigiosa virtude de revestir de cores as próprias imagens do sonho, imprecisas, desfocadas, cobrindo-as do encantamento da paleta natural, das reverberações da luz, da exuberância real da vida?
Saiamos, caminhando a pé como fizeram os antigos, ao longo do espelho de água deslizante que reflecte a cidade ao passar por ela. Metamo-nos pela gleba extensa da beira-rio, ao longo dos córregos, pelas altas motas, e que os nossos passos se envolvam com franqueza na terra fresca de húmus e na verdura encrespada pelos restos de geada invernal. Olhemos para baixo, para a labuta dos insectos. Olhemos para o alto, para as catedrais de ramos nus das árvores despidas pelo vento do último Outono, e lancemos o olhar em frente a varrer, ao longo da terra plana que se junta ao céu, lá longe.
Caminhos de terra.
Caminhos de luz.
Caminhos fugindo à confusa multidão, ao báratro da poeira urbana, dos rostos fechados com pressa.
Deixemos que por nós entre esta aragem húmida, este pranto da natureza iluminado pelas luzes vacilantes do Inverno, seguindo sempre a linha mágica das raras planícies de antes do mar.
Costa Brites, Fevereiro de 2000
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