Costa Brites  
 
               
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Texto de catálogo da Exposição de Fotografia de João Gordo

Teatro Académico de Gil Vicente

Mostra Cultural da Universidade de Coimbra Março de 2002

 

A fotografia, referencial da pintura e vice-versa

 

 

Partindo da captação fotográfica de elementos arquitectónicos através de um exigente método de análise e selecção, João Gordo passa à descoberta de conjuntos “produtivos” duma nova categoria de “seres” ou de “paisagens”, exactamente como um pintor faria com linhas, pontos e planos, conferindo a tais elementos o valor de matéria visual pura, cuja imagem se renova e transfigura por efeito de potenciação compositiva.

Estamos portanto perante a assimilação de diferentes atitudes da expressão artística, ou seja, perante uma “pintura” ou uma “fotografia” feitas à base de valores máximos de ambos os reinos, que depuram sem esterilizar, dando um novo sentido à ideia de paisagem, nos limites da percepção abstracta.

Uma parede dum teatro restaurado à qual a sombra confere a maciez do veludo ou uma margem de azul cuja modulação é tão explicita quanto misteriosa, são contrapostas ao seu próprio eco. Um alçado de Siza Vieira desdobra-se para além do seu ritmo inicial e, por mais acertado e feliz que possa ser como acto construtivo, assume o carácter de qualquer outra coisa inventada e ondulante.

Uma empena ebúrnea pela luz forte da meia tarde, uma cimalha indecifrável no seu geometrismo de sombra estreita ou a presença equívoca de três janelas circulares, parecem-nos sinais de uma outra realidade, suspensas na vastidão imperscrutável.

Onde moram tais obras?

Qual o céu que as cobre?

Já não interessa nem será possível dizê-lo. As imagens dadas a ver por João Gordo permitem uma quantidade enorme de questionamentos, e será essa a marca distintiva da obra criadora qualquer que seja a técnica de que se sirva.

 

Costa Brites

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