Costa Brites  
 
               
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Texto para o catálogo da Exposição de Fotografia de João Gordo na Universidade de Aveiro

Maio de 2002

Sala de Exposições Heléne de Beauvoir

 

A fotografia, referencial da pintura e vice-versa

 

A familiaridade daquilo que nos é próximo faz descer sobre as coisas um véu de esquecimento ou de indiferença, como se a intimidade fosse pretexto aceitável para ignorarmos aquilo que é distinto, raro ou precioso.

Um dos atributos mais firmes da arte é o de nos revelar as faces escondidas do mundo na descoberta dum novo entendimento da vida,que é parte integrante duma revigorada visão de nós mesmos. Ver cada coisa sob novas facetas, descobrir nelas um universo de possibilidades diferentes, entendendo melhor o todo nas partes e as partes no todo.

João Gordo passou pêlos edifícios da Universidade de Aveiro e fotografou ângulos habituais da sua fisionomia. Fê-lo de tal modo, porém, que nos apresenta duma forma inteiramente diversa visões daquilo que já era conhecido, potenciando detalhes que estavam congelados na memória de quem (já) não os vê, eventualmente neutralizados na confrontação com o todo envolvente.

O exercício resulta estimulante para todos aqueles que desejarem medir forças com a sua própria capacidade de reinventar coisas que, por serem excelentes, não merecem o destino da trivialidade e que, por serem raras, não merecem ser ignoradas.

Partindo da captação fotográfica de elementos arquitectónicos da obra de Siza Vieira, através de um exigente método de análise e selecção, João Gordo passa à descoberta de conjuntos produtivos duma nova categoria de seres ou de paisagens, exactamente como um pintor faria com linhas, pontos e planos, conferindo a tais elementos o valor de matéria visual pura, cuja imagem se renova e transfigura por efeito de potenciação compositiva.

Estamos portanto perante a assimilação de diferentes atitudes da expressão artística, ou seja, perante uma "pintura" ou uma "fotografia" feitas à base de valores máximos de ambos os reinos, que depuram sem esterilizar, dando um novo sentido à ideia de paisagem, nos limites da percepção abstracta.

Uma parede à qual a sombra confere a maciez do veludo ou uma margem de azul cuja modulação é tão explicita quanto misteriosa, são contrapostas ao seu próprio eco. Um alçado desdobra-se para além do seu ritmo inicial e, por mais acertado e feliz que possa ser como acto construtivo, assume o carácter de qualquer outra coisa inventada e ondulante.

Uma empena ebúrnea pela luz forte da meia tarde, uma cimalha indecifrável no seu geometrismo de sombra estreita ou a presença equívoca de certos detalhes estruturais, parecem-nos vestígios de uma outra realidade, suspensos na vastidão imperscrutável.

Se um fotógrafo, ou um pintor, ou um poeta, passarem pela rua onde moramos e forem capazes de ver nela coisas de que nunca tínhamos dado conta ou descrevê-la duma maneira tão nova que nos ensine a redescobri-la como se fosse outra, essa é a metamorfose que merecem todas as coisas, se não perdermos a coragem de renovar a ideia que temos do mundo.

As imagens dadas a ver por João Gordo permitem uma quantidade enorme de questionamentos. Essa será a marca distintiva da obra criadora qualquer que seja a técnica de que se sirva

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